A Crise Ambiental

Pelo sociólogo Manuel Sá.

A Associação Gandaia, através da sua iniciativa Res Pública – fórum da livre participação cidadã da Costa da Caparica – trouxe para discussão, no passado dia 15 de Novembro, o tema ‘CRISE AMBIENTAL – A HUMANIDADE PERANTE A URGENTE NECESSIDADE DE MUDANÇA DE PERSPECTIVAS E DE PRÁTICAS’.

A intervenção esteve a cargo do sociólogo Manuel Sá, experimentado conhecedor das questões relativas ao Ambiente e à Ecologia.

Com clareza e grande facilidade de comunicação, Manuel Sá, apresentou-nos a sua terra – o Vale de Santarém – descrito por Almeida Garrett na sua obra ‘Viagens na Minha Terra’, como “um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita…”.

Baseado nesta descrição e dizendo-nos que Garrett, se vivo fosse, teria dificuldade em encontrar tal lugar, devido às agressões ambientais que tem sofrido, Manuel Sá, encaminhou-nos com para o tema da palestra.

As palavras Poluição, Ambiente, Desenvolvimento Sustentável, Economia Verde foram proferidas como alertas e utilizadas como dedos acusadores a todos nós que somos co-responsáveis na tragédia ambiental que se está a desenrolar, no mínimo quando, face às evidentes agressões à Natureza que se passam na imediação das nossas vidas, ficamos calados.

Começou por nos falar do Rio Maior, afluente do Tejo, que passa pelo Vale de Santarém, e para onde são lançados os esgotos das suiniculturas e de uma fábrica de tomate. A ´água que nele corre é negra e nauseabunda em quase toda a sua extensão’.

Todos os afluentes do Tejo sofrem agressões semelhantes, pelo que, este grande rio está seriamente afectado. Sendo que a agressão maior e mais preocupante localiza-se em território espanhol a escassos quilómetros da fronteira, onde, para além da grave poluição provocada na zona de Madrid, existe uma central nuclear decrépita, em Almaraz, próximo da fronteira com Portugal, ameaça iminente de um desastre ambiental de grandes proporções.

‘O Tejo, em toda a sua bacia hidrográfica, tem vindo a constituir fonte de muita preocupação, pois diversas indústrias (pasta de papel, químicas) assim como a suinicultura, têm trazido ao grande rio e seus afluentes uma onde enorme de poluição, de que a comunicação tem feito eco. Ambientalistas e cidadãos em geral, ao longo da bacia do Tejo, têm lutado contra isso, por enquanto sem sucesso. Não há resposta da parte dos governantes, não há medidas dos autarcas, os organismos da tutela e as polícias fecham os olhos. Em particular, a região de Abrantes, Ortiga, Mação, Torres Novas, Tomar e mesmo Santarém, tem assistido a crimes permanentes de poluição, que transformam o Tejo e seus afluentes (Almonda, Alviela, Nabão, Maior) em canais de esgoto.’

Depois alargou o âmbito das suas preocupações ambientais ao planeta inteiro e falou-nos da poluição da Água, do Ar e dos Solos. O quadro que nos traçou é deveras preocupante, mas apontou-nos algumas saídas, que só serão encontradas se forem procuradas por toda a Humanidade, colectivamente.

Foi uma palestra em que o orador nos fez ver em detalhe os problemas que a humanidade enfrenta e aqueles que forçosamente surgirão se não combater os desmandos que têm sido feitos contra a Natureza e não se evitar a degradação do Ambiente, que está efectivamente em crise. Não uma crise passageira, mas sim uma crise que é mais um estado de transição, longo, se houver capacidade para lhe fazer frente – o que importa fazer quanto antes – e avançar com medidas de recuperação.

Deixo-vos agora com um resumo das próprias palavras de Manuel Sá:

“Em 1863, foi promulgado o Alkali Act – a primeira lei de controlo da poluição da Indústria Química –, em Inglaterra. Só um século depois surge a preocupação constante com a degradação do ambiente, de modo mais sistemático e normativo.

Em 1948, assistindo já a ataques à floresta da Serra da Arrábida, o poeta Sebastião da Gama denuncia a situação, e é na sequência disso que funda a Liga para a Protecção da Natureza, em Portugal.

Em 1962 é publicado nos EUA o livro “PRIMAVERA SILENCIOSA” de Rachel Carson, cujo título faz alusão ao silêncio nos campos, em zonas dos Estados Unidos da América, derivado do facto de os pássaros deles serem afastados ou mortos, pela pulverização das culturas com insecticidas e outros produtos químicos, Esta obra, chamaria a atenção para os males mais amplos que estavam já nessa altura a ser infligidos à Natureza, para além da questão mais concreta da morte dos pássaros.

Em 1968, o CLUBE DE ROMA reuniu-se com a preocupação de discutir ‘Qual o futuro?’  Na sequência, o MIT – Massachussets Institute of Technology – analisando algumas variáveis como a degradação do ambiente, o desenvolvimento urbano incontrolado, etc. fez um estudo, com base num modelo matemático, em torno de: POPULAÇÃO; ALIMENTAÇÃO; INDUSTRIALIZAÇÃO; POLUIÇÃO e CONSUMO DE RECURSOS NATURAIS NÃO RENOVÁVEIS. Desse estudo, de que resultaria o livro ‘Limites do Crescimento’, de Donella Meadows, publicado em 1972, concluiu-se que:

O avanço tecnológico não seria suficiente para suportar a crescente poluição e a crescente pressão sobre os recursos naturais e energéticos.

Era necessário desencorajar activamente o crescimento da população, da industrialização e do desenvolvimento económico.

Nesta época, o conceito-palavra LIMITES entra no universo conceptual e discursivo, mas foi desvalorizado, atacado e, até, ridicularizado.

Em 1972, em Estocolmo, realiza-se a primeira Convenção sobre Meio Ambiente Humano (Poluição Atmosférica).

Em 1987/88, as Nações Unidas, preocupadas com os aumentos generalizados dos níveis de poluição do Ar, Água e dos Solos promove a grande conferência, em Estocolmo, subordinada ao tema ‘Meio Ambiente e Desenvolvimento’ o que dá origem ao relatório conhecido como ‘O Nosso Futuro Comum’, onde se equaciona, pela primeira vez, a questão ‘Desenvolvimento Sustentável’.

Em 1992, no Rio de Janeiro, realiza-se a Conferência sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Que ficou conhecida como a ‘Cúpula da Terra’.

O Desenvolvimento Sustentável é a forma de integração da questão ambiental no desenvolvimento económico, isto é, uma tentativa de diálogo entre Ambiente e Economia e a correspondente passagem à Economia Verde, mas que na actualidade ainda só existe o confronto e onde domina a Economia.

Quando falamos do Meio Ambiente e do que há fazer para o defendermos, falamos sobretudo dos seguintes universos: Água; Ar; Solos; Agricultura; Agropecuária; Indústria; Águas Residuais; Resíduos Urbanos GEE (Gases de Efeito de Estufa) e Alterações Climáticas.

Quanto à Água, é preciso efectivar o seu controlo geral, permanente, pois – em Portugal – só existe quanto às águas potáveis e balneares, não sendo ainda abrangidas as águas superficiais (rios, ribeiras, lagoas e charcos), as subterrâneas e as residuais.

E quanto à poluição do Ar?

A Atmosfera divide-se em cinco camadas que vão desde a Troposfera (onde vivemos e onde circulam os aviões e tem cerca de 12 km de altura) até à Exosfera.

A troposfera é fina e frágil e começa a dar sinais assustadores de que não suporta mais as agressões que sofre. A indústria excessiva e os meios de transporte são altamente, devido à utilização de combustíveis fósseis. O seu reflexo verifica-se no Ambiente, com as alterações climáticas, as chuvas ácidas e a degradação dos ecossistemas. Também a saúde humana se ressente com o aumento das doenças respiratórias, oftalmológicas e cancerígenas.

A concentração de gases de efeito estufa, provocam o aquecimento global e as alterações climáticas que são a maior fonte de preocupação da actualidade.

As Nações Unidas, preocupadas com esta problemática, realizaram desde 1992 vinte Conferências para a redução da emissão de gases de efeito estufa, a última das quais em Paris, em 2015, procurando sensibilizar os agentes internacionais para o perigo de se ultrapassar a subida de temperatura global em 2 graus centígrados durante o século XXI.

Estou preocupado com o comentário de Donald Trump que, na sua campanha eleitoral, disse: ‘O conceito de aquecimento global foi criado por e para os chineses, para tornar a indústria dos Estados Unidos não competitiva’. O que ele vai fazer sobre o assunto, ainda não se sabe, mas supõe-se que vá cumprir, no essencial, o que disse: rasgar o acordo a que os EUA já haviam dito SIM. Esperemos.

Os níveis em que estão a produção e o consumo mundiais e aqueles que se perspectivam são insustentáveis. Com uma população de mais de 7 mil milhões, com a necessidade crescente de mais recursos, com um sistema económico a dominar o sistema político, com um consumismo fora de controlo, com o ideal da felicidade material a comandar, quando o Ter se sobrepõe ao Ser, torna-se necessário tomar medidas urgentes para a salvação do planeta.

As medidas necessárias para o efeito são drásticas: Há quem fale em Decrescimento Económico; Também em Investimento no capital cultural e Desinvestimento no capital gerado pelo homem; Surge a defesa de Crescimento Verde.

Uma coisa é certa: É urgente pensar e actuar na óptica de CRESCIMENTO SUSTENTÁVEL!

É preciso iniciar um novo ciclo, em toda a parte, no combate à destruição da Natureza e do Meio Ambiente, E praticar uma nova visão, que leve a uma prática consciente e constante, colectiva, nesse sentido.

Tal implica uma elevação da consciência dos cidadãos sobre o ponto sem retorno para o qual a Humanidade se tem vindo a encaminhar, no que ao Ambiente diz respeito. Não há futuro, no quadro em que temos vindo a viver, em que cada dia é um dia a menos no futuro equilibrado da Natureza.

Daí A IMPORTÂNCIA DECISIVA DA CIDADANIA ACTIVA.

CIDADANIA AMBIENTAL, PRECISA-SE!

PORQUÊ? ONDE? COMO? QUANDO? São perguntas que obrigatoriamente precisam de respostas, a todos os níveis, em todos os lugares da Terra.

Nas nossas comunidades de vida (família e amigos) e de trabalho, nas comunidades locais e regionais, mas também nas associações a que pertençamos, nos partidos políticos de que sejamos membros. Trata-se de uma necessidade urgente, que atravessa toda a Humanidade, contra os que persistem em destruir o planeta, com os seus interesses pessoais.

Utilizando os meios promotores de informação, de esclarecimento, mas também fazer a denúncia de situações e exigência de medidas contra situações concretas. E neste domínio, intervir, participar activamente, perante/em:

Juntas de Freguesia e assembleias de Junta;

Câmaras Municipais e assembleias municipais;

Órgãos e estruturas das autarquias a quem estão atribuídas competências no domínio da Defesa e Preservação do Ambiente;

Organizações partidárias ou públicas que se apresentem como ecologistas;

Sessões abertas, sobre o tema ou específicas sobre implementação de mudanças locais, novas fábricas, parques, outras;

Jornais nacionais e locais, Televisões, Rádios, em blogs, faccebook e outras redes sociais;

Quercus, Associação Zero, Geota, Liga para a Protecção da Natureza, outras organizações similares, de âmbito nacional ou regional;

Informar autoridades, sobre situações que sejam graves para a Natureza. Fazê-lo junto de:

Juntas de Freguesia;

Câmaras Municipais;

GNR – SEPNA (Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente)

APA – Agência Portuguesa para o Ambiente

IGAMAOT – Inspecção Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território

ICNF – Instituto para a Conservação da Natureza e Florestas

Através de

Telefonemas e mensagens por correio electrónico ou carta, indicando todos os dados: onde, o quê, a que horas, quanto, como, com quem;

Fotos e vídeos e partilhá-los, sobre situações que sejam condenáveis, de má utilização do espaço publico, da Natureza, e enviá-los para as autoridades antes mencionadas, com todos os dados de identificação das situações: onde, o quê, a que horas, quanto, como, com quem;

“Cartas ao director” dos jornais, sobre tais situações;

Contactos com os membros dos partidos políticos nos órgãos de Junta, de Câmara e da Assembleia da República;

Comunicar, nos mesmos termos, a organizações Ambientalistas, como as já referidas (Quercus, Associação Zero, Geota, Liga para a Protecção da Natureza) as situações que, pela sua evidência, constituam agressões ao Meio Mabiente.

Além disso:

Consultar sites de organizações nacionais e regionais que intervêm no domínio da Defesa do Meio Ambiente e Participar nas suas acções abertas

Ler artigos em jornais, revistas e livros sobre assuntos deste domínio, ou pela internet

Partilhar com os familiares, amigos e outros as informações que tenha e/ou receba regularmente, assim como as suas actividades e sugestões que tenha para lhes fazer, neste âmbito

Defender para que as escolas assumam, nos seus planos anuais, actividades teórico-práticas de sensibilização activa para a Defesa do Ambiente;

 

Ser militante activo, dentro das suas possibilidades, em práticas de protecção e defesa da Natureza.

E certamente outras ideias surgirão…

Como vamos enfrentar este enorme problema da Humanidade? Voltar atrás? É que muitas questões se põem:

Chegámos a um ponto em que há muito a perder;

Não conseguimos desmaterializar as nossas vidas de confortos vários;

Não conseguimos ver a face positiva de um futuro desconhecido;

Resistimos a aceitar que o problema seja também nosso-indivíduo: por ignorância, por desconforto, por medo das consequências das nossas acções. Tendemos a defendermo-nos com… o mal é dos outros;

Interesses materialistas, hedonistas;

Temos tendência em confiar que os políticos, os cientistas, os técnicos, as polícias… vão resolver isto;

Estamos muito longe ainda de ver e de assumir, colectivamente, que o problema é de todos.

É preciso assumir, sem demoras e de modo eficaz, uma nova visão que considere que é necessário dizer:

NÃO AO CRESCIMENTO ILIMITADO

NÃO AO CONSUMISMO CRESCENTE

NÃO AO DARWINISMO SOCIAL –  espelhado na prática de que é preciso vencer e estar acima de tudo e todos a qualquer custo, seja em que actividade for, só com o objectivo de ganhar/ganhar (recursos naturais, produtos, vendas, negócios, mercados…) mesmo que para isso se usem práticas que destroem os ecossistemas, a saúde das pessoas e o planeta Terra.

Não! Há Limites! E o que está a acontecer à Natureza, ao planeta Terra, é que ela está a mostrar que Há Limites e que Há que parar para pensar e agir em sentido contrário, a nível planetário.

É urgente pensar e actuar na óptica de CRESCIMENTO SUSTENTÁVEL!

JÁ SABEMOS QUEM É O INIMIGO. UNS MUITO MAIS DO QUE OUTROS. MAS SOMOS NÓS!

Manuel Sá

15 de Novembro de 2016

 

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