Futuro a Evitar

By  | 17 Julho, 2017 | 0 Comments | Filed under: Notícias, OPINIÃO, Ricardo Salomão

Levantaram-se estremunhados e trocaram olhares. Mais um dia.

A primeira coisa a fazer, mesmo antes de sair da cama, é verificar o que se passa na rede social. Nada de alarmante. Podiam passar à fase do pequeno almoço.

Não havia a pressão de sair para trabalhar. Esse conceito era coisa do passado. Trabalhavam ambos para grandes multinacionais, mas sem sair de casa. O seu trabalho consistia em escolher coisas para comprar e enviar essa informação para a empresa.

Atenção, só escolher, não incluía o ato de comprar propriamente dito. Especialmente porque não tinham dinheiro. A escolha alimentava a enorme base de dados da multinacional e permitia a orientação desta para a preodução de bens que pudessem ser comprados pelos pouquíssimos que ainda tinham forma de adquirir bens que escolhessem. Os outros, a grande maioria eram como eles.

parece difícil de aceitar esta coisa de trabalhar mas não receber, mas eles trabalhavam para ter algumas regalias a mais do que aqueles que não faziam nada. Em troca, a multinacional tinha ium acordo com o governo e dava algumas benesses conforme os ramos em que operava. por exemplo, se fosse da área têxtil, enviava algumas roupas e sabia perfeitamente quais agradariam, as medidas de cada um, etc.

Por seu lado, o governo, recebia da empresa a satisfação de poder considerar aquelas pessoas como empregadas, o que consistia numa enorme vantagem nas eleições. Mas já falaremos de eleições…

A marmita já estava à porta, podiam passar à fase do pequeno almoço. Nessa altura, as noções de pequeno almoço, almoço, etc. já eram arcaísmo. Tratava-se da primeira, segunda e, caso fossem empregados, a terceira e se coordenadores, a quarta e- sortudos, a quinta: uma abastança.

As eleições, digo eu para ser compreendido, porque a coisa não tinha propriamente a ver com escolhas, mesmo aquelas tão manipuladas que hoje temos. Não havia partidos. Para aqueles idosos que se recordavam dos tempos em que, insidiosamente se começou a dizer que já não havia esquerda nem direita, que aquilo era tudo a mesma coisa e tal… para esses, percebia-se claramente no que aquilo veio a dar e de como se tinha preparado o terreno para este estado de coisas. Mas quem ligava ao que um velho dizia? Velho, por essa altura, era sinónimo de despesa.

Numa eleição, as pessoas só marcavam satisfação ou insatisfação. Mas mesmo assim, havia um truque. Após alguns anos, percebia~se que os insatisfeitos perdiam regalias. As marmitas vinham menos cheias, o acesso aos serviços tinha muitos problemas, perdiam-se dados sem explicação plausível… até que se percebeu que o melhor era não fazer nada, até porque se não votassem, automaticamente era contabilizado como satisfeito. Satisfeitíssimo.

Ora, nessa altura já não havia abstenção, nem votos nulos nem oposição. Tudo isso era uma maçada e tinha de acabar. E acabou mesmo.

Depois da primeira refeição,  a esposa estava com um olhar vago e o amantíssimo percebeu. E se fossemos à praia? Alegria.

Nesta altura, o leuitor está já a pensar que eles iam à praia, tal como nós vamos, mas nada disso. Não é que vivessem longe dela, eram caparicanos de gema, mas a ideia de atravessar as camadas de plástico para mergulhar num oceano cheio de dejetos era impensável.

Ir à praia era uma “app” no telemóvel. Clicava-se e a foto de perfil aparecia molhada.

E viveram felizes para sempre…

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