Esboço Histórico sobre a Costa da Caparica

By  | 22 de Maio de 2012 | 2 Comments | Filed under: A Região, História, Notícias

Texto de Maria Teresa Palma Fernandes

Foi por volta de 1770 que se estabeleceram os primeiros pescadores originários de Ílhavo (os Ilhos) numa faixa de areia que se estende entre o oceano e uma arriba antiga que alcança os 70 a 100 metros nos pontos mais altos. O nome Costa de Caparica provém-lhe da posição litoral e da referência a uma pequena comarca tradicional – Caparica.

A este único aglomerado que quebrava a solidão do areal, juntaram-se pouco depois, Algarvios, provavelmente em menor número, posto que foi o barco de Ílhavo que serviu de modelo às embarcações da Caparica os “Meia-Lua” com olhos pintados à proa.

Os dois núcleos estabeleceram-se em lugares distintos, se bem que próximos, mantendo-se apartados e havendo até tradição de rivalidades entre eles.

. O mesmo modo de vida acabou por dar origem a um tipo único – o Caparicano – onde se diluíram os diferentes elementos característicos de Ilhos e Algarvios.

Agregaram-se, ainda, aos Caparicanos, pescadores de Sesimbra, de Setúbal e homens de terra a dentro; muitos vinham apenas para a faina da pesca, durante o verão, albergando-se em barracas, daí a designação de malteses ou barraqueiros por que eram conhecidos pela gente da terra.

Uma das preocupações dominantes dos mestres ao estabelecerem-se com as suas companhas foi a da construção duma igreja, que acabou por ser feita de junco e tabuado, pois os recursos e os auxílios não abundavam.

As casas, na sua maioria, eram de madeira, quadrangulares, térreas, revestidas de estorno (Amophila arenaria), gramínea abundante nas dunas da região.

No início do século XIX, na primeira casa construída de pedra e cal, alojou-se D. João VI, tendo no seu reinado sido estabelecido, para os mestres de redes ou de companhas, a categoria de mestres de naus.

O extenso juncal, que ligava a arriba à praia e que as águas de inverno transformavam em charcas, começou a ser cultivado pelos pescadores nos fins do século XVIII, nos períodos em que o mar não permitia a pesca.

O solo arenoso facilmente trabalhável, o seu enriquecimento com algas e peixes  e a grande quantidade de água do subsolo, fixaram agricultores que se  distribuíram de uma forma dispersa pelas Terras da Costa.

Inicialmente cultivavam cereais e vinha, sendo mais tarde substituídas pelo cultivo de produtos hortícolas que iriam abastecer o Mercado da Ribeira e outros mercados nacionais.

Porém, nem tudo caminhava bem. A par das tragédias do mar, da fome, das doenças, desencadearam-se alguns incêndios que ficaram célebres pela devastação que provocaram.

Estas situações de catástrofe que ameaçavam outrora a sobrevivência da população da Costa de Caparica conduziam, naturalmente, a sentimentos de religiosidade muito fortes e à demonstração de uma grande fé na Virgem e nos Santos.

Esta religiosidade reflectia-se no modo intenso como eram vividas as diversas manifestações religiosas que aconteciam ao longo do ano, entre as quais a Procissão do Senhor dos  Passos,  a  Festa  de  Nossa  Senhora  da  Conceição  e  a Romaria dos Círios à Nossa Senhora do Cabo.

 

 

 Referências Bibliográficas

 

Lisboa, J. Ribeiro, A Costa de Caparica: Origem de um Aglomerado de Pescadores, 16º Congresso Internacional de Geografia, Lisboa, 1949

Cabral, J. ª Neves, Meia–Lua da Costa de Caparica, Edição da Junta Distrital de Setúbal, 1969

Ferreira, Agro, As Praias da Costa – indevidamente chamada – de Caparica, I Congresso Nacional de Turismo, Lisboa, 1936

Comissão de Iniciativa da Praia da Costa – Caparica, A Praia da Costa (Caparica) – Estância Balnear, de Cura, de Repouso e de Turismo, Imprensa Lucas § Cª, Lisboa, 1930

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2 Responses to Esboço Histórico sobre a Costa da Caparica

  1. Antonio Angeja 23 de Janeiro de 2014 at 16:40

    Já pensaram que os ditos ALGARVIOS poderiam ser também ILHAVOS, na medida em que estes pescadores se instalaram desde MATOSINHOS a VILA REAL DE STO ANTONIO e passaram mesmo para a vizinha ISLA CRISTINA em Espanha…

    Antonio Angeja

  2. Jorge 25 de Maio de 2012 at 23:30

    Esboço muito interessante, rigoroso e discreto. Não seria possível continuar um pouco mais? (a fome dos anos 40, os naufrágios, a transformação em “Praia do Sol”, etc.)

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