A Casa É Mortalha

By  | 10 Outubro, 2018 | 1 Comment | Filed under: OPINIÃO, Reinaldo Ribeiro

A CASA É UMA MORTALHA

As sombras da tarde deslizam com lentidão sobre o manto de hera que cobre as paredes da casa antiga.

Canteiros floridos cercam um pequeno lago e colorem o jardim onde se ergue aos céus uma imponente magnólia junto de um caramanchão.

Ali, naquele espaço bucólico, a evocação do passado manifesta-se na quietude, na beleza, no perfume e na nostalgia do ambiente. É a corporização de um tempo encerrado em memórias.

Um homem tranquilo olha para cada planta. Fala-lhes, cheira-as, acaricia-as. Foi ele que plantou e cuidou de cada uma delas, com o carinho de um pai que acompanha o crescimento dos filhos.

Aquela casa foi o seu berço. Construída por um antepassado rico, no século XIX, junto de uma pequena aldeia rural, possui uma vasta biblioteca. Nela, na solidão por si desejada, ele lê os livros que lhe permitem viajar em liberdade pelo vasto mundo e mergulhar em atmosferas prenhes de cultura e de saberes, os quais considera a riqueza do mundo entesourada e o justo legado das gerações. Ele também tem consciência de que os livros devem ser lidos com o mesmo cuidado e circunspecção com que foram escritos.

O jardim é o lugar onde, nas sombras luminosas do silêncio, e nas horas de maior tranquilidade, ele se abandona à contemplação e à reflexão.

Um grosso muro de adobes, coberto de musgos e líquenes, separa o jardim de uma horta viçosa de canteiros geometricamente traçados. É aí, que ele planta e colhe a maior parte dos produtos da sua alimentação e onde sente a gratificação da auto-suficiência. Ao fundo da horta encontra-se um cercado onde convivem, livres e em harmonia, as galinhas, os coelhos e o seu cão.

Aquele é o seu universo exclusivo. Tudo ali tem vida, sentimentos. De nada mais precisa para cumprir a sua existência em plenitude, pois esta corresponde ao ideal que sonhou para si.

Tal como um monge budista ele foi procurar, e achou, a paz da interioridade, sublimando os pensamentos, porque estes, naturalmente, provinham sempre de alguém encerrado em si mesmo.

Sem saber bem explicar, o como nem o porquê, apercebeu-se de que para a humanidade apressada, com a qual conviveu, só existe o presente efémero e isso passou a entediá-lo profundamente. Com o passar dos anos foi-se afastando do convívio de todos os que o cercaram e começou a sentir-se, cada vez mais, confortável apenas consigo mesmo. Criou dentro de si um reino onde o pensamento é soberano e, finalmente, com um prazer inexcedível, tal como um deus omnipotente, declarou o fim do mundo ao mundo.

Com a meticulosidade e a paciência de um arqueólogo, que a vida passada em solidão e devotada ao pensamento lhe deram, ele vem limpando as ruínas dos tempos transactos, trazendo-os renovados à luz do presente. Tudo ele quer recordar, tudo quer saber, e de uma forma tão intensa, que passou a amar a sabedoria ao ponto de viver, segundo os seus próprios ditames, uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança.

Ele pensa que a solidão é uma condição absoluta e insuperável da existência, pois acredita que mesmo o homem mais inteligente fica sempre prisio­neiro dos esquemas culturais que o condicionam e que, para se libertar dessa contingên­cia, precisa de estar só.

Como idealista convicto, que junta argumentos para raciocinar o seu idealismo negando a matéria e aplicando-os à consciência e ao tempo negando o espírito, e talvez até a si mesmo, ele está convencido de que o universo não é outra coisa senão uma aparência ou um caos de aparências.

Julga até que ‘a vida é sonho’, que tudo é fruto da sua consciência alterada e que, ele próprio, e tudo o que o cerca, pertence ao sonho de alguém, de alguém que o sonha. É deste modo paradoxal, que ele tem buscado a felicidade e, pelo seu rosto distendido, tranquilo e feliz, fica-se com a sensação de a ter encontrado.

Nas suas constantes perambulações entre a casa, o jardim e a horta, ele pensa, com objectividade e deleite, em tudo aquilo que o impressiona.

Um dos temas da sua reflexão, que mais o fascina, como inquietação metafísica, é a morte. Ele tem consciência de que o nascimento e a morte são as duas faces de uma mesma moeda, mas o momento do fim, esse desconhecido, intriga-o e desperta-lhe uma curiosidade invulgar. Nessa porfia, embrenha-se com afã em leituras religiosas, nos clássicos, nas mitologias, na poesia e na filosofia tentando, dessa forma, desvelar o véu desse mistério.

Mas a dúvida ancestral persiste e ele pergunta-se, com insistência, se realmente existirá o espírito que sobrevive ao corpo material, ou será que a morte nada mais é do que uma intrusa indesejada com a capacidade de lhe interromper os sonhos? Convence-se que só o saberá quando transpuser os umbrais dos portões dourados do misterioso fim.

Aquela casa antiga é um universo repleto de vida. Cada objecto, cada recanto, cada flor, cada livro, cada divisão, cada árvore, cada animal, conta uma história que, no seu conjunto, é a vida deste homem.

Até agora, a doçura dos crepúsculos que, à chegada e depois do solstício de Verão, alongam e azulam a luminosidade, têm sido o aconchego da sua vida. Mas ele sabe que, quando o declinante sol de Inverno vier dourar as paredes e as folhas das árvores do seu jardim, esta casa será a sua mortalha e, no entanto, sentir-se-á reconfortado com a ideia de ser acompanhado na última viagem por tudo aquilo que tanto amou.

 

Reinaldo Ribeiro

19/06/2018

One Response to A Casa É Mortalha

  1. António Zuzarte 12 Outubro, 2018 at 2:35 PM

    Meu amigo e companheiro, gostei muito de ler e meditar nas tuas palavras. Quantas vezes me dou a pensar assim.

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