Um Dia em África

By  | 2 Janeiro, 2019 | 1 Comment | Filed under: OPINIÃO, Reinaldo Ribeiro

O sol, deus da luz e do calor, emerge do seu leito noc­turno como uma enorme bola de fogo.

Avermelha o horizonte dis­tante e os sons inconfundíveis do amanhecer africano vão-se mistu­rando com o colorido morno da paisagem nascente.

Nesta terra de magia constante, terra sofrida e bela, a vida come­ça mais uma vez a sua rotina milenar e o povo, cons­ciente da grandeza da sua cultura e da sua sabedoria, procura água numa fonte antiga.

O sol, na sua eterna migração, atinge o ponto mais alto no céu e a terra resseca. Do solo sobem inter­mináveis ondas de calor e é nesse momento que o povo sente com mais intensidade o peso da opressão. A pele nua das gentes negras queima sob o sol impie­doso, como se a mão armada do verdugo, numa cadên­cia exas­perante, desferisse violentas chicotadas puniti­vas.

Porém, mais tarde, no tumultuoso poente, quando a paisagem desa­pa­rece em confundidas sombras com a erosão progressiva das cores, e os corpos se libertam do torpor vespertino adqui­rindo um ritmo único, toda a magia africana aflora numa sim­biose perfeita entre a Natureza e o Homem.

É nesse momen­to sur­preen­dente – quando a luz ainda não sucum­biu à força avassala­dora das trevas e em que a inquietude se transforma em reflexão – que os homens olham o poente sem o ver.

Quando a profunda noite cai, misteriosa, e os sons dos ani­mais nocturnos se fazem ouvir no grande silêncio, as gentes reúnem-se à volta das fogueiras. Conversam, comem, bebem e riem e, espontaneamente, deixam que seus corpos evoluam em frenéticas dan­ças da fertilidade e do amor.

É o momento sublime em que os espíritos da noite os visitam e eles cami­nham, finalmente livres, pelas exten­sas savanas de outras dimensões.

Depois, cansados, adormecem felizes no regaço quente da Mamã África que, carinhosamente, os embalará até ao próximo amanhecer.

Reinaldo Ribeiro

04OUT2010

One Response to Um Dia em África

  1. Antonio José Zuzarte 18 Janeiro, 2019 at 22:14

    Grande poema companheiro e amigo. A paixão pela África toca-nos aos dois. Mesmo nunca lá vivendo sinto uma atracção estranha por esse Mundo e pelas suas gentes.

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