Viagem no SudExpress

By  | 3 Abril, 2019 | 1 Comment | Filed under: OPINIÃO, Reinaldo Ribeiro

Na estação de Austerlitz, em Paris, o comboio começou a mover-se, lentamente, em direcção ao Sul, por entre silvos estridentes e os ruídos característicos do ferro dos engates das carruagens.

Com curiosidade, um rapaz olha, por uma das ja­ne­las da carruagem toda aquela movimentação. Um observador atento, porém, podia notar-lhe uma certa nostalgia no olhar. Era a sua despedida daquela cidade, onde tinha ido pela primeira vez para visitar os pais, pobres emi­grantes, que para lá se tinham deslocado em busca de um futuro melhor, que o seu próprio país lhes negava.

A excitação provocada por tantas experiências no­vas, ocorridas nas últimas semanas, dominava-o. Afinal, ele tinha descoberto, para lá da fronteira, um mundo muito diferente do que conhecia na sua pequena aldeia.

O compartimento de oito lugares em que seguia só era ocupado por um jovem, mais ou menos da sua idade. Não tardou para que se apresentassem: eu sou Manuel e eu sou Ted. Um era português, o outro era americano.

O acaso das frases e a juventude de ambos levou-os a um entendimento espontâneo. Cada um falou sobre o seu país, dos diferentes modos de vida, dos compor­tamentos e até da alegria de viver dos povos.

O americano, que andava há vários meses a percorrer a Europa, e que iria terminar o seu périplo em Lisboa, comentou, com algum azedume, sobre a frieza de rela­cionamento que notou nas raparigas europeias para com os rapazes, que era tão diferente da camaradagem e até da igualdade que havia entre os dois sexos no seu país.

O seu companheiro fez-lhe ver que a Europa tinha sido devastada pela guerra há pouco mais de quinze anos e que era natural que as feridas não estivessem ainda saradas nem o luto feito por tantos milhões de mortos. Daí a tristeza ou a alegria contida em que ele tinha reparado.

Com o orgulho habitual, onde se notava uma ligeira sobranceria, Ted não deixou de lembrar que essa guerra só tinha terminado com a intervenção do seu país que, com o seu poderio bélico e económico, tinha eliminado os exércitos da coligação nazi, na Europa, e as forças japonesas, na Ásia.

Manuel, sem dificuldade, reconheceu esse esforço e disse-lhe que tudo isso já fazia parte da História, acres­centando que o Plano Marshall tinha ajudado, e muito, no reerguer da Europa e que os povos europeus estavam gratos à grande nação Americana pela sua intervenção.

Mudando de tema, Ted perguntou ao seu compa­nheiro de viagem se ele gostava de Rock’n Roll, pois na América só se ouvia esse tipo de música. O rapaz português respondeu-lhe que na Europa todos os jovens tinham aderido facilmente a esse novo ritmo vibrante, e a um novo modo de dançar que contrastava profunda­mente com os ritmos de antes da guerra. Porém, disse-lhe que estava a surgir, na velha Europa, um novo estilo de Rock, que começava a fazer furor, tocado por um grupo de rapazes da cidade de Liverpool, na Inglaterra, conhecidos como The Beatles.

– Já ouvi falar desses – disse o americano – toda a gente aqui fala deles, mas eu ainda não conheço a sua música que, provavelmente, deve ser alguma cópia menor da que se faz no meu país.

– Não vais deixar de os conhecer, garanto-te! – afirmou, lacónico, o português.

A juventude de ambos fazia-os mudar o curso da conversa para os mais diversos assuntos. Falaram de cinema, de desporto, de automóveis, de literatura. Aqui, após se terem questionado sobre os gostos literários de ambos e sobre os autores que mais os sensibilizaram instalou-se, pela primeira vez, um ar vitorioso no, até então, inferiorizado comportamento do português. Ted disse que se limitava a ler aquilo a que ele próprio chamou de best-sellers, e comics books, mas nem sequer conhecia os nomes maiores da literatura americana, já para não falar dos seus grandes poetas. Manuel admirou-se com o desconhecimento do seu companheiro e cresceu em importância quando lhe disse de cor algumas passagens de livros e até de um excerto do poema Raven de Edgar Allan Poe. Para rematar e afirmar a sua superioridade intelectual, ainda lhe falou de alguns clássicos franceses, espanhóis, sem esquecer os portugueses Luís de Camões e Fernando Pessoa. O americano limitou-se a ouvi-lo.

Foi, assim, nesse desbravar do conhecimento das diversas rea­li­dades que se mantiveram várias horas.

O monótono matraquear das rodas do comboio, a penumbra do anoitecer e a pálida luz amarelada do compartimento provocaram-lhes uma irresistível sono­lência. Os dois rapazes, cada um no seu lado do compa­rtimento, deitaram-se ocupando, cada um, quatro luga­res, e logo adormeceram.

Ao fim de um tempo indeterminado, a porta do com­par­timento abriu-se e um vulto feminino assomou-se perguntando em francês se podia entrar e sentar-se.

O americano, na sua própria língua, logo avisou o português que não iria ceder nenhum lugar do seu lado e continuou a dormir.

Manuel disse para a mulher que se podia sentar aos seus pés, encolheu as pernas e cobriu os pés e as pernas com o seu casaco. Pouco tempo depois a voz feminina pediu-lhe se podia colocar os seus pés sob o casaco. Ele limitou-se a aquiescer.

Não voltaram a pronunciar qualquer palavra e Ma­nuel tentou retomar o sono interrompido.

Porém, sob o casaco, os pés de ambos tocaram-se e começaram um jogo subtil de avanços e recuos deseja­dos e consentidos. Se o rapaz, afoitamente, deslizava o pé pela perna da mulher, esta retribuía-lhe da mesma forma, até que ambos, em simultâneo, chegaram com os dedos dos pés à intercepção das pernas um do outro.

A excitação mútua tinha atingido o ponto mais elevado e aqueles dois desconhecidos não hesitaram em entregar-se por inteiro às delícias de um prazer abso­lutamente carnal.

Não trocaram carícias, palavras ou beijos, limitaram-se a uma cópula muda, que durou até o rapaz resfolegar num gozo animalesco. E, depois, dormiram.

A gargalhada jovial de Ted acordou Manuel quando o sol começava a inundar o compartimento.

Estremunhado, o português abriu os olhos e, com curiosidade, olhou para a sua amante daquela noite.

A sua perplexidade não podia ser maior. Sentada no seu lugar e ainda com o casaco sobre os pés, uma velhi­nha enrugada sorria com gratidão para o rapaz que, incons­cientemente, lhe fizera recordar a impetuosidade dos anos longín­quos em que ela tinha sido uma mulher jovem, bela e atraente.

Reinaldo Ribeiro

29 de maio de 2015

One Response to Viagem no SudExpress

  1. Antonio José Zuzarte 4 Abril, 2019 at 23:24

    O que te direi Manuel desta tua linda história de amor e não só.

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