Miragem de Festival

By  | 1 Maio, 2019 | 0 Comments | Filed under: Notícias

Pela pena de Luís Guerra foi recordado no Blitz a “mirabolante” história do Festival Artlântico que esteve para acontecer em 1987, aqui na praia Morena da Costa da Caparica, mas que apesar das grandes promessas do cartaz internacional e nacional – tudo do bom e do melhor – acabou por não acontecer.

A ideia de um festival de verão junto às nossas praias vem já do século passado…

O trabalho original pode ser consultado clicando aqui. Como é costume, o Notícias da Gandaia transcreve aqui o trabalho de Luís Guerra para constar no arquivo de quem procura notícias sobre a Costa da Caparica.

Portugal, 1987. A mirabolante história do Artlântico, o grande festival que não aconteceu

Prometia mundos e fundos: três dias de praia, concertos em barda e um longo e respeitável cartaz, com Pogues, Communards, Billy Bragg, Motörhead, Sétima Legião, GNR e muito mais… A iniciativa era de um norte-americano sediado em Portugal, o povo – sereno – estava a postos, mas o dia chegou e não houve nada para ninguém. O ‘nosso’ Fyre Festival foi há 32 anos.

“Um festival que já tem confirmados os nomes dos Pogues, Billy Bragg, Working Week e Latin Quarter vai realizar-se nos dias 4, 5 e 6 de setembro na Praia Morena, Costa de Caparica, por iniciativa da Associação Cultural Artlântico, dirigida em Lisboa por um norte-americano, Casey Gordon”. Boas notícias num país ainda longe da rota dos grandes eventos. O semanário musical de todas as terças-feiras avança que outros nomes em perspetiva são Los Lobos (‘La Bamba’ está, nesse verão, nos primeiros lugares do top), Communards e Tracey Thorn (dos Everything But the Girl), “para além de grupos africanos e sul-americanos”.

O Artlântico Festa propõe-se “celebrar os 500 anos de trocas culturais entre os dois lados do Atlântico e pretende estabelecer em Lisboa um centro internacional que fomente e estimule as trocas culturais entre a América do Norte e do Sul, a Europa e África”. A carta de apresentação é breve mas objetiva.

Este não é, porém, um festival qualquer – quer ir mais longe. Casey Gordon, que afirma estar em Portugal desde setembro do ano anterior, “pensa ser possível conseguir apoios para a apresentação de grupos portugueses no estrangeiro e trazer bandas estrangeiras para apresentações regulares em Portugal”. Dá o exemplo dos Pogues e de Billy Bragg, revelando que “ficarão em Portugal durante algum tempo e planeiam vir a tocar com grupos e músicos portugueses – sobretudo os Pogues, que gostariam de atuar com acordeonistas de Portugal”. Também dado como assegurada está a presença de John Peel, o famoso radialista e divulgador inglês, “que participará no preenchimento dos tempos mortos entre as atuações das bandas”. Os bilhetes (1450 escudos, um dia; 2950 escudos, três dias; entre 7,25 e 14,75 euros) são postos à venda no início de agosto. Está dada a boa nova.

Se Pogues, bem-amada banda de folk punk liderada por Shane MacGowan, dispensarão, em retrospetiva, maior contextualização (“Run, Sodomy & The Lash”, de 1985, deixara marca nos fãs portugueses; em 1988 lançariam o seminal “If I Should Fall From Grace With God”), e Billy Bragg já era um dos mais considerados cantores de protesto da Inglaterra da era Thatcher, o tempo não terá sido tão cavalheiresco com Latin Quarter e Working Week. Os primeiros, mais populares na Europa do norte do que na Inglaterra natal, eram conhecidos pelas sua mistura de pop com reggae e folk, pontuada por letras políticas de esquerda; também com raízes na música de militância esquerdista, os Working Week são hoje uma memória algo difusa do ‘smooth jazz’ dos anos 80.

AMOR À CAMISOLA

Era guitarrista e fundador dos Working Week uma outra personagem da história do Artlântico. Avançamos uma semana e, ainda em julho, o jornal BLITZ relata que Simon Booth está em Portugal “para acompanhar a preparação do festival da Praia Morena e será uma das atrações da festa de apresentação”. Uma data e um local para a as boas-vindas ao Artlantico: 4 de agosto, Noites ao Luar, em Lisboa, com GNR, Xutos & Pontapés, Afonsinhos do Condado e Radar Kadafi. Cada vez mais apetrechado, o festival da Caparica adiciona ao seu cartaz a cantautora norte-americana Michelle Shocked, a Ray Barretto Orchestra, combo de salsa e jazz latino, e os Tubarões, lendas da música de Cabo Verde.

4 de agosto é o dia da apresentação à imprensa e ao público do Artlântico. “Se mora em Lisboa, hoje é obrigatoriamente dia de festa: logo à noite dirija-se à Rua da Bombarda, ao Intendente, e procure as Noites ao Luar, entre na esplanada e espere pelos acontecimentos – daqui a pouco, Simon Booth estará a pôr discos que vos farão dançar e, ao mesmo tempo, poderão saber rigorosamente tudo sobre a Artlântico-Festa, o festival que no início de setembro juntará na Caparica, Praia Morena, a nata da nata das bandas britânicas. (…) Façam-se convidados, é o que a organização vos pede encarecidamente”, escreve o BLITZ.

Entre peixe fresco e um branco do Douro, o guitarrista dos Working Week garante a Manuel Falcão, diretor do jornal, que o festival é tema de conversas sociais em Londres, que as revistas ‘Face’ e ID’ “vêm aí ver como as coisas se passam” e preparam “passatempos para proporcionar umas deslocações a Lisboa a alguns leitores”, que os semanários ‘New Musical Express’ e ‘Melody Maker’ também “estão na jogada”. Que os Pogues querem mesmo conhecer um acordeonista português, que os Afonsinhos do Condado vão tocar a Londres “e mais coisas para diante se verão”. A máquina está em andamento.

Como conseguiu Booth tamanha abastança de recursos? Uma vez tratando-se de um evento cujas receitas se destinam à construção de ‘pontes culturais’ (nomeadamente, pelo menos uma sala de concertos na capital), as bandas, avança o músico dos Working Week, terão aceitado trabalhar sem cachê, apenas desejando ver as suas despesas pagas. As boas relações do músico com elementos dos vários grupos e contactos feitos “passando por cima dos empresários” são outras razões apontadas para as facilidades encontradas. Simon Booth, está visto, é apresentado como um ‘desbloqueador’.

O Artlântico Festa, reforça Booth, não procura fins lucrativos e “pretende apenas iniciar um trabalho de promoção do intercâmbio cultural com músicos de outros países”. Portugal, acredita o músico, “tem todas as condições para ser o anfitrião de tal movimentação”. O objetivo é realizar “um festival de música moderna na Europa onde as bandas possam atuar pelo prazer de tocar e não apenas a pensar nos lucros, um momento de criação e não apenas de encenação, um momento de alegria e gozo coletivos e não de cumprimento de contrato (…) É por isso que a primeira Artlântico-Festa pode vir a ser tão importante”.

Simon Booth, dos Working Week

Simon Booth, dos Working Week

A REVOLTA DOS XUTOS

A ‘cartilha’ é entusiasmante, mas não é preciso esperar muito para que os primeiros problemas surjam. Ironicamente, a ‘confusão Artlântico’ começa, literalmente, à porta do evento que visa divulgá-lo. Segundo o BLITZ, Casey Gordon, o norte-americano ligado à organização do festival, ocultara que o acesso à festa no Noites ao Luar seria concedido a troco de 500 escudos por pessoa. Quem quer entrar na festa no Intendente esbarra numa “funcionária, burocratizada e bastante malcriada”. Boa parte do público vira costas, os jornalistas vêm-se aflitos para entrar.

Lá dentro, o ambiente não é mais pacífico. Discordando do não pagamento de cachês aos músicos, os Xutos & Pontapés – através do seu agente, Vítor Silva – batem com a porta. É dos Xutos e dos seus representantes que parte o movimento de contestação: por que razão hão de tocar de graça se aos estrangeiros são pagas férias em Portugal? No entendimento da Associação Artlântico, a ausência de fins lucrativos justifica os meios. Não é dito, mas é subentendido: o isco para o contingente internacional não poderá ser apenas sol, vinho verde e prazenteira troca cultural.

Ainda ‘verdes’ na alta roda, os agentes das bandas nacionais não assumem, contudo, uma posição concertada. Apesar de nascida no seio da agência que representa alguns dos grupos anunciados, a Malucos da Pátria (que une Vítor Silva a Pedro Ayres Magalhães, dos Heróis do Mar), a revolta não é partilhada pelos Heróis do Mar, que aceitam participar no evento porque não terão, desde logo, pedido cachê.

Relações-públicas do festival, Simon Booth apressa-se a assegurar que os Communards vêm a custo zero “graças a um contacto com [o vocalista] Jimmy Sommerville”. A promessa de um novo evento de apresentação ‘serena’ os ânimos: Latin Quarter e Sétima Legião, 2 de setembro, Rock Rendez Vous.

Aproximamo-nos a passos largos do dia D. A 25 de agosto, pouco mais de uma semana antes do arranque do festival e estranhando a ausência de informação mais pormenorizada em torno do mesmo, o BLITZ obtém junto de Casey Gordon a garantia de que a realização do evento não está em causa. O misterioso norte-americano é descrito como um “ex-‘street kid’ nova-iorquino, de trinta e tal anos, disposto a levar até ao fim o que empreendeu”, mas ciente de que gerou demasiada desconfiança em muito pouco tempo. Mais tarde se saberá que o empresário nem sequer se chama Casey (ou Case ou Kasey; as grafias da imprensa variam), mas sim Geoffrey.

Nas vésperas do festival, ouvido pelo jornalista Sérgio Coimbra, Gordon não evita apontar o dedo à “sociedade portuguesa”, que considera “difícil”. “Estou em Portugal desde setembro de 86, durante algum tempo auscultei a opinião de diversos setores ligados à música e pessoas anónimas – sondei e decidi levar por diante o projeto”, explica. “Organizei uma equipa e começámos a trabalhar. Há muitos obstáculos (nas câmaras, ministérios, mesmo com alguns grupos) mas tudo anda”, continua, garantindo que haverá “uma importante cobertura por jornais, rádio e vídeo portugueses e estrangeiros”. Reforça: “A Artlântico é mais do que concertos; é uma associação que quer fazer a cultura mexer. Corremos contra o tempo, há ainda muitos problemas a resolver, mas vai ser uma grande festa”.

Notícia no jornal BLITZ de 11 de agosto de 1987 sobre a "revolta" espoletada pelos Xutos & Pontapés

Notícia no jornal BLITZ de 11 de agosto de 1987 sobre a “revolta” espoletada pelos Xutos & Pontapés

ADEUS, CAPARICA

Apenas dois dias depois desta entrevista, o primeiro golpe de teatro: o festival abandona a Costa de Caparica e muda-se para as imediações da Torre de Belém, em Lisboa. Em conferência de imprensa, a Associação Artlântico justifica a decisão com “burocracias” e volta a pedir empenhamento na divulgação do festival. Casey Gordon, que por esta altura parece adotar uma postura ‘nós contra o mundo’, lança de novo o isco da “frente britânica”, nomeadamente o interesse das principais publicações musicais inglesas, que – promete – estarão em força no evento. A Rádio Comercial, parceira do festival, retoma os ‘spots’ publicitários do festival, mas sem corrigir o local do mesmo. Ninguém se entende.

Uma informação à imprensa da Associação Artlântico descreve o processo burocrático que, segundo a própria, conduziu à mudança de local do festival. Nela pode ler-se que a associação requereu autorizações a todas as entidades oficiais (Capitania do Porto de Lisboa, Estado Maior da Armada, Direção Geral da Marinha, Direção Geral dos Portos, Câmara Municipal de Almada, Secretaria de Estado da Cultura, Direção de Geral de Turismo) e de todas elas recebeu, no início, “o completo encorajamento para a realização deste festival”. Lamenta, porém, que quando posteriormente confrontadas com uma tomada de posição oficial de apoio à Artlântico Festa 87, “que na maioria dos casos apenas representava uma simples licença ou autorização”, as respostas tenham sido negativas. Alega o festival que a Polícia Marítima dificultou a montagem do palco na Praia Morena, o que levou a organização do mesmo a requerer junto da Câmara Municipal de Lisboa a autorização para realizar o evento “no terreiro fronteiriço à Torre de Belém”.

No cartaz do evento, onde se destaca o desenho de uma figura feminina apelidada de Rosita, pode ler-se agora “Artlântico Festa 87 – Rosita Goes to Belém”. Habituando o comprador de bilhete a promessas de compensação imediata por cada revés infligido, a organização do festival faz saber que foi assegurada a presença dos Motörhead, aguardando-se “a confirmação dos Hawkwind”.

Rosita, a 'cara' dos cartazes de promoção do festival, agora transferido para Belém, em Lisboa

Rosita, a ‘cara’ dos cartazes de promoção do festival, agora transferido para Belém, em Lisboa

UM FESTIVAL A ARDER

A três dias do início do festival, todos os detalhes. Concertos das 14h00 à 1 da manhã em dois palcos, de sexta (4 de setembro) a domingo (6). Sexta-feira: Latin Quarter, Hank Wangford, Anamar, Bhundu Boys, Radar Kadafi, Laurent Becol, Bulimundo, Issabary, Mler Ife Dada, Shinenka, Go Graal Blues Band, Mapyko, Cieco, Choque Social; Sábado: Pogues, Hairy Marys, Billy Bragg, Hank e Billy, GNR, Ray Barretto, Afonsinhos do Condado, Sweet Honey in the Rock, Gilberto Gil, Michelle Shocked, Ron Kavana, David de Digeredoo, Kalandula, La Valise, Peste & Sida; Sábado: Sétima Legião, BCA, Obina Shock, Communards, Sara Jane Morris, Working Week, IDJ, Heróis do Mar, Abacush, Dany Silva, Delfins, Riboque, Sucesso. Nos intervalos, disc jockeys portugueses e ingleses – de António Sérgio a John Peel – tratam de dar música ao povo. Mas onde estão os anteriormente anunciados Los Lobos, Tracey Thorne e Tubarões? E onde encaixar os Motörhead e os Hawkwind? Isso agora não interessa nada.

Dois palcos com 40 metros de boca e 12 de fundo – “um para as bandas maiores, outro para solistas e bandas com menos elementos”. Soundchecknão existe, “desnecessário, dada a utilização de um computador ligado à mesa de mistura” (“oh boy, é tão bom estar na CEE”). Dentro do recinto estão prometidos “quiosques para dar de comer e beber” à populaça. Vai tudo correr tão bem.

Só que não. Vinte e quatro horas depois, o concerto de apresentação do festival (com Latin Quarter e Shinenka no lugar de Sétima Legião), marcado para essa noite no Rock Rendez Vous, é cancelado para permitir que sejam tratados “outros assuntos” relativos ao Artlântico Festa 87. O descalabro precipita-se. Nesse mesmo dia, Dany Silva, os Heróis do Mar e os Delfins abandonam o festival “por não cumprimento de compromissos anteriormente assumidos”. Alguns músicos dos Pogues chegam a Lisboa depois de, em Londres, a TAP recusar embarcá-los “por não ter sido efetivado o pagamento das passagens” (a banda inglesa, diz fonte da TAP a ‘O Jornal’, fez “uma grandessíssima barulheira”, e um dos elementos – quem mais se não o vocalista, Shane MacGowan –, decidiu ficar na capital inglesa). O voo fretado que devia transportar o PA [sistema de som] e o grosso dos artistas não levanta voo, “entre outras razões, por nem a caução devida pelo aluguer do PA ter sido paga”. Em bom português, deu bronca.

3 de setembro. Pela uma e meia da manhã, a associação Artlântico toma a decisão óbvia: anular o festival. Às 9 horas, a confirmação é enviada às redações. Por volta das 11h00, jornalistas, músicos e empresários envolvidos profissionalmente no Artlântico marcam uma reunião para essa noite “com o objetivo de trocarem informações e, eventualmente, assumirem uma posição coletiva”. Os telefones da associação Artlântico estão desligados. Às 15h30, um estafeta da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) entrega na sede da Associação Artlântico uma declaração daquele organismo reconhecendo o interesse cultural do festival e convoca a organização do mesmo para uma reunião com o diretor-geral da Ação Cultural. O Artlântico diz que há festival se a SEC lhe conceder um aval de aproximadamente 9 mil contos (45 mil euros) “para garantia das despesas assumidas anteriormente”.

A reunião entre músicos, empresários, proprietários de postos de venda, radialistas e jornalistas realiza-se às 8 da noite. Entre outros factos, descobre-se que os Motörhead nunca estiveram na calha e que a imprensa musical britânica ignora em absoluto o festival, não tendo sequer destacado nenhum jornalista para a sua cobertura. Uma declaração conjunta é distribuída nessa noite por um telegrama da agência Lusa.

Assinada por Anamar, Ana Cristina, António Sérgio, Célia Pedroso, Hernâni Miguel, João Gobern, Manuel Falcão, Pedro Ayres Magalhães, Ricardo Camacho, Rui Monteiro e Sérgio Coimbra, a declaração enfatiza “o desprezo pelo público que já tinha começado a comprar bilhetes e pelos artistas, em particular os portugueses, que sofrem as consequências de toda a desorganização existente”. Sublinha-se que “a Associação Artlântico prestou um mau serviço à música em Portugal”. Datada da véspera do dia em que a música deveria começar a soar (primeiro na Caparica, depois em Lisboa), a carta – manuscrita – termina pedindo “a devolução do dinheiro dos bilhetes já comprados” e que a organização do festival assuma “toda as suas responsabilidades”. Paciência esgotada.

Nas mesmas páginas do BLITZ em que se exibe uma fotografia do ‘esqueleto’ do palco junto à Torre de Belém, repousa uma “cronologia breve do naufrágio”. Aí pode ler-se que, a 4 de setembro, a SEC propusera viabilizar a iniciativa se esta se transformasse numa série de concertos periódicos e de menor dimensão – sem conceder aos promotores, contudo, o aval pedido. Como naqueles filmes onde, depois do genérico final, ainda há um twist pronto a ser servido, Casey Gordon e associados, agora com o evento abrangido pela Lei do Mecenato Cultural, propõem-se organizá-lo uma semana depois, a 12 e 13 de setembro (sábado e domingo). Acredite quem quiser.

O palco por montar junto à Torre de Belém, nas páginas do "Sete"

O palco por montar junto à Torre de Belém, nas páginas do “Sete”

QUEM É CASEY GORDON?

No ‘olho do furacão’ está Casey Gordon (apelido real; nome próprio alegadamente adotado em Portugal), um homem com muito pouca vontade de dizer quem é. A custo, revela ter sido taxista em Nova Iorque, onde nasceu, e contar 32 anos. Garante que não é a primeira vez que organiza espetáculos de beneficência – fê-lo, afirma, nos Estados Unidos e em Inglaterra, mas não diz quais ou com quem os realizou. Recebe os jornalistas do “Sete” num 3º andar esquerdo, duplex, no número 124 da sombria Damasceno Monteiro, à Graça, em Lisboa, onde está sediada a Associação Artlântico. A seu lado está Maria José Campos, médica e ex-dirigente do MRPP, membro da Artlântico e da organização do festival.

Gordon diz que “falhou tudo” e desculpabiliza-se com entraves burocráticos que terão impedido a Secretaria de Estado da Cultura de abranger a realização do festival pela Lei do Mecenato, o que “fez recuar algumas empresas” e, por conseguinte, receitas antecipadas por via de patrocínios. Reconhece que cometeu erros mas não consegue explicar onde pára o dinheiro proveniente dos apoios prestados e dos bilhetes vendidos. Admite que emitiu cheques ‘carecas’, mas confia na paciência das empresas lesadas. Confia também na realização do festival – recorde-se que, depois de anulado, o mesmo foi inicialmente recalendarizado para os dias 12 e 13 de setembro –, não conseguindo, contudo, explicar como vai erguer numa semana o que não foi capaz de fazer em vários meses.

“Não sou nenhum vigarista – se quisesse já tinha fugido com dinheiro. Não fugi, nem fujo!”, atira. “Não sou da CIA, nem do KGB, nem do Vaticano”, ironiza, “e, como podem ver, não estou nem na Bolívia nem no Chile, países para onde disseram eu ter fugido”, remata. Estamos a 9 de setembro.

INCOMPETÊNCIA E VERGONHA

Na edição de 8 de setembro do BLITZ, Sérgio Coimbra – um dos signatários da declaração – refere-se ao falhanço do Artlântico como um misto de “ingenuidade, incompetência e ignorância”, condenando “uma atitude que prejudicou, ao mesmo tempo, o público, a imagem internacional do país, os músicos e a imprensa portuguesa, e levou ao descrédito da Associação Artlântico”.

O novelo do fiasco vai sendo desfiado: na imprensa estrangeira, a única referência ao Artlântico Festa 87 terá sido um concurso num número do ‘New Musical Express’; bandas e DJs foram negligenciados, não tendo sido consultados, até à véspera do evento, sobre horários de atuações (por exemplo, à mesma hora em que o festival programava uma sessão disc jockeyde António Sérgio, o radialista tinha um programa em direto na Rádio Comercial); o desprezo pelas leis do país, por parte dos organizadores, terá levado à constante desconfiança das autoridades, comportamento que Casey Gordon prefere designar de “portuguese way of life”.

A irresponsabilidade de Associação Artlântico torna-se pública: o festival não possuía licenciamento de local nem autorizações das entidades competentes, nomeadamente da Direção-Geral de Espetáculos, que para permitir a realização de um espetáculo exige o pagamento prévio dos direitos de autor à SPA. Segundo revela o ‘Sete’ a 9 de setembro, “a organização tentou isentar-se desse pagamento alegando o caráter ‘não lucrativo e beneficente’ da festa” e, com a mesma justificação, “não considerou o IVA no preço dos bilhetes”. “Portuguese way of life” para Gordon, leis da república para o estado.

Apesar das queixas relacionadas com a “difícil sociedade portuguesa”, por esta altura Casey Gordon tinha já amealhado verbas da Central de Cervejas (em troca de publicidade à Carlsberg), Macieira (que nos festival ia estrear um novo produto), as editoras Edisom e Transmédia, e até a Rank Xerox, que tinha emprestado material de escritório para a sede da associação na Rua Damasceno Monteiro, também morada de residência do norte-americano.

Depois de várias semanas de apoio entusiasmado ao festival, mas também de relatos crus do que ao longo do processo ia correndo mal, Manuel Falcão, diretor do BLITZ, assina um editorial encabeçado pelo título “Um episódio lamentável”. Nele começa por citar Ricardo Camacho, teclista da Sétima Legião: “todos nós tínhamos as nossas dúvidas, mas queríamos tanto que aquilo acontecesse que pusemos as dúvidas para trás e empenhámo-nos em assegurar que tudo corresse bem”. Era esse o sentimento geral entre artistas, agentes e jornalistas.

A toada é de alerta: “a organização tentou fazer crer que irá realizar novos concertos semelhantes nos dias 12 e 13, próximo fim de semana. É necessário alertar o público para o facto de o elenco que possa eventualmente ser apresentado nessa ocasião não ter nada a ver com o elenco originalmente anunciado (44 grupos e artistas) e em função do qual foram vendidos os bilhetes a um determinado preço. É, pois, forçoso que o público defenda a necessidade do reembolso do preço dos bilhetes e não aceite mais promessas”. 2500 bilhetes terão sido vendidos até esta data e, numa breve publicada em ‘O Jornal’ a 11 de setembro, diz-se que – independentemente do reagendamento do evento – Gordon garante que procederá à devolução do dinheiro dos bilhetes adquirido, não revelando contudo em que tempo e de que modo.

Com a maioria dos grupos portugueses a boicotar a iniciativa e os estrangeiros com compromissos noutros locais, o Artlântico é um festival sem cartaz. Previsivelmente, a 12 e 13 de setembro nada acontece. Nem em outubro (nova promessa), como notaria o ‘Sete’ no mês seguinte: “já estamos a 21 e da Artlântico nem ‘ai’ nem ‘ui’”.

Uma das raras fotos de Casey Gordon, publicada originalmente em 'O Século'

Uma das raras fotos de Casey Gordon, publicada originalmente em ‘O Século’

DE CAVALO PARA BURRO

Completamente perdidos neste folhetim, os Latin Quarter – uma das primeiras ‘bandeiras’ do festival – passaram dez dias em Lisboa com expectativas contraditórias. Primeiro alojados num hotel de quatro estrelas, tiveram de sair deste pelas traseiras por não verem a conta paga, passaram depois para uma residencial e acabaram por dar um concerto na discoteca Loucuras para pagar despesas. “De cavalo para burro”, escreve o BLITZ. “Estamos numa situação financeira quase desesperada. Começámos a perder dinheiro logo à partida porque [no aeroporto de] Heathrow [em Londres] tivemos de comprar quatro bilhetes que não estavam pagos”, afirma Mike Jones, um dos fundadores da banda, à jornalista Célia Pedroso.

A pergunta impõe-se: como é que os Latin Quarter se viram nesta ‘embrulhada’? “Os organizadores foram a Londres procurar bandas adequadas ao festival. Como o nosso single ‘Nomzamo’ estava a ser muito passado em Portugal, convidaram-nos. Achámos que era o tipo ideal de festa para tocarmos e o Steve [Skaith, vocalista] quando cá esteve em julho, em férias, adorou Lisboa, convencendo-nos de imediato a vir”. Jones aponta ainda uma das razões do fracasso: “foi um erro encomendar um PA tão grande, já que é o mesmo que usa no festival de Glasgow, que tem capacidade para 70 mil pessoas”.

Não seriam os Latin Quarter a acender a luz neste buraco negro. Num artigo assinado no ‘Expresso’ a 12 de setembro, Manuel Falcão faz alusão a “figuras e interesses obscuros”, apontando dois nomes: o norte-americano “natural de Nova Iorque” Casey Gordon e “a outra figura mais destacada da associação, Maria José Campos”, que havia sido uma ativa apoiante do PCTP/MRPP. “A única organização com ligações partidárias mais notórias que surgia a apoiar abertamente a Associação Artlântico era a Associação Popular Ribeiro Santos, cujos pontos de contacto com o PCTP/MRPP se tornaram conhecidos ao longo da sua história”, acrescenta o ‘Expresso’. Realçando que as ligações políticas ao festival não param em Portugal, nota Falcão que a maioria dos grupos britânicos escalados “faziam parte da Red Wedge, uma associação de músicos mais ou menos ligados à ala esquerda dos trabalhistas e que haviam constituído uma plataforma comum de ação contra a politica do Governo de Thatcher”. Na semana seguinte, no mesmo jornal, o PCTP/MRPP faz saber que não existe “qualquer apoio ou ligação sua” ao malfadado festival.

A organização do Artlântico apressa-se a levantar o dinheiro proveniente da venda dos bilhetes nas lojas onde os mesmos foram adquiridos. Alguns lesados dirigem-se à sede da organização, onde ninguém os atende. A Rebel, empresa contratada para a montagem da estrutura do palco, queixa-se de que recebeu da Artlântico um cheque de 600 mil escudos (3000 euros) sem provisão, avança o ‘Expresso’. Conhecidas eram também as dívidas às gráficas onde foram impressos os cartazes e o jornal de promoção do festival anunciando a festa.

Maria José Campos, parceira de Casey Gordon na 'aventura' Artlântico, nas páginas do 'Sete'

Maria José Campos, parceira de Casey Gordon na ‘aventura’ Artlântico, nas páginas do ‘Sete’

E DEPOIS DO ADEUS

Na sua edição de 13 de janeiro de 1988, o semanário ‘Sete’ noticia que “o norte-americano Geoffrey T. Gordon – que se tornou conhecido em Portugal como Casey Gordon, o mais notório elemento da Associação Artlântico – foi ouvido pela Policia Judiciária, no âmbito do processo-crime instaurado àquela organização”. A questão principal: onde está o dinheiro? Segundo o ‘Sete’, a associação Artlântico recebeu mais de mil contos [5 mil euros] de empresas que aceitaram apoiar a organização do festival” e ainda o produto da venda de bilhetes para os espetáculos nunca realizados, a maior fatia do pecúlio. O montante dos patrocínios deverá, no entanto, ter sido substancialmente superior ao indicado, uma vez que várias entidades e empresas preferiram ocultar à imprensa o valor dos seus investimentos no Artlântico.

Nota de rodapé, a prometida ida a Londres dos Afonsinhos do Condado também não aconteceu. Em dezembro de 1987, era o ‘Jornal de Letras’ a dar voz à resignação da banda portuguesa: “o Casey Gordon foi ver-nos ao Loucuras e gostou muito, mas como o Artlântico, Londres também ardeu. E foi pena porque teríamos sido o primeiro grupo português a sair com publicidade prévia, com tudo muito definido”.

Em junho de 1988 o ‘fantasma’ do fiasco Artlântico ainda está presente aquando do adiamento de um evento de um dia chamado Festival Rock Benfica, no Estádio da Luz, construído em torno da disponibilidade de Bryan Adams para um concerto em Portugal. Com os ingleses Stranglers a saírem da ‘ementa’, o semanário ‘Sete’ termina uma notícia deste modo: “… é que toda a gente se recorda, ainda, daquilo que aconteceu com o Artlântico no ano passado: de adiamento em adiamento até ao cancelamento final”. Bryan Adams tocou mesmo, mas no final dos anos 80, Portugal estava visivelmente ‘queimado’ com festivais (tanto que num balanço geral da década, um ano depois, o mesmo semanário atribui ao Artlântico o triste estatuto de um dos “males da década”, numa lista que inclui a série “Dallas” e os lenços mentolados).

Entrevistado por ‘A Capital’ em abril de 1989, Andrew Ranken, baterista de sempre dos Pogues, admite que esteve em Lisboa dois anos antes, destacado pelo grupo para “apalpar terreno” em relação ao Artlântico. “Gostei muito das pessoas e do clima, gostei do vinho e da comida, e percebi que aquele falhanço nem sequer tinha a ver com a organização dos portugueses”, recorda.

Em 1990, um evento com mote semelhante tem lugar no Estádio de Alvalade, em Lisboa. “Depois do falhanço de que todos se lembram com o Artlântico, Sons de Mar – Música pelos Descobrimentos é a oportunidade derradeira para se provar que eventos deste género podem e devem funcionar em Portugal”, sublinha o vespertino na sua edição de 13 de setembro. A memória guarda este evento como aquele que acolhe o primeiro concerto de David Bowie em solo português (a 14 de setembro de 1990). Rádio Macau, Marisa Monte, Ban ou Tubarões são outros nomes em cartaz.

Dois anos depois, a Costa de Caparica recebe, por fim, um festival. Chama-se Maré Viva, conta com Legendary Pink Dots, Yo La Tengo, Stan Red Fox e More República Masónica no cartaz, mas chama pouco público. Com memória fresca, ‘A Capital’ recorda o “fiasco da iniciativa Artlântico” e fala de um “buraco negro por explorar”.

Artlântico: a história de um escândalo. Capa do 'Sete' de 9 de setembro de 1987. Lá dentro, um trabalho assinado por António Macedo e Viriato Teles

Artlântico: a história de um escândalo. Capa do ‘Sete’ de 9 de setembro de 1987. Lá dentro, um trabalho assinado por António Macedo e Viriato Teles

VISTO À DISTÂNCIA

Ouvido em abril de 2019, Manuel Falcão realça que “o Artlântico remete para uma altura em que toda a atividade relacionada com festivais estava muito incipiente”. Em 1987, “era praticamente um lago no meio deserto e foi a essa miragem que muita gente se agarrou. Era uma oportunidade de fazer cá alguma coisa que normalmente não existia”, sublinha o primeiro diretor do BLITZ.

“Quando ele [Casey Gordon] chega e começa a falar das coisas, não parecia uma fantasia. Havia contactos com alguns promotores ingleses – não era uma efabulação total. Verificou-se, porém, que não tinha recursos nem a capacidade de fechar contratos que inicialmente se pensou que tinha”, recorda Falcão. “Algumas pessoas portuguesas trabalhavam com ele e acredito que essas pessoas achavam que aquilo seria possível. Vilar de Mouros tinha acontecido e, ao princípio, era uma impossibilidade”, continua. O atual diretor-geral da Nova Expressão considera, porém, que “a partir de certa altura, começaram a entrar na entourage nomes que já levantavam suspeitas, associadas a coisas que não corriam bem, e que quiseram pôr-se à boleia do acontecimento”.

“Eu continuo a achar que ele não era um vigarista nato. Era mais um idealista que achou que conseguia juntar esforços do que propriamente alguém que quisesse utilizar [o festival] em proveito próprio. Não tinha o financiamento, o know how do mercado da música e contactos suficientes junto dos agentes para que isto pudesse funcionar. Tinha uma ideia, um desejo, mas não tinha mais nada”, remata.

Abel Montenegro recordava, em 2009, a sua experiência num festival onde, no final da adolescência, investiu as suas “míseras poupanças”. É dele a perspetiva do melómano, do comprador de bilhete – do ‘festivaleiro’, porque não? “A organização agradecia aos espectadores que dançassem nas dunas toda a noite. A compra antecipada dos bilhetes para três dias custou-me 2.950$00. Eu, o Rui Jorge e o Fernando Paulo colocámos a mochila às costas e lá fomos para a Costa de Caparica”, recorda aquele que, nas décadas seguintes, viria a ser uma das faces do bar O Meu Mercedes É Maior do Que o Teu, na Ribeira do Porto.

“Quando lá chegámos, soubemos que a organização tinha transferido o local para os jardins em frente da Torre de Belém. Chegados a Belém, reparamos que existia uma grande azáfama no sentido de desmontar o palco e os gradeamentos que limitavam o espaço do festival, e depressa a palavra ia-se espalhando: o festival tinha sido cancelado. Nunca mais soube nada sobre este assunto, nem o nome dos responsáveis que ficaram com os meus três contos. A desilusão foi transformada em três dias de praia e aventuras bem-dispostas”. Já tínhamos o Atlântico, a arte ficaria para depois.

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