O Padre Gonçalo

By  | 22 de Maio, 2019 | 0 Comments | Filed under: OPINIÃO, Reinaldo Ribeiro

Chove. A manhã nasceu triste e cinzenta neste domingo de Novembro.

A torre oitavada e revestida de azulejos do Convento de Santa Clara ergue-se altaneira por entre as brumas húmidas que cobrem a cidade do Funchal.

No interior da igreja, a luz penetra difusa pelos vitrais e cria juntamente com o ar frio e calmo, um ambiente que convida à paz e à reflexão.

Os fiéis, em silêncio, escutam as palavras que ressoam pela nave abobadada do templo onde o padre, na homilia, transmite a sua mensagem de amor pelo próximo:

– E Jesus disse: “Amai-vos uns aos outros, como a vós mesmos.” 

Os devotos compreendem o significado de tais palavras e sentem-se irmanados por um amor espiritual e profundo que lhes inunda os corações.

Na verdade, desde que este sacerdote assumiu a paróquia, após a morte do padre Fernando, as missas passaram a ser mais concorridas do que o eram habitualmente.

É um homem extremamente educado, de voz firme e macia, cujos olhos claros transmitem uma sensação de quietude e bem-estar, que obriga a olhá-lo de frente e a prestar atenção às suas palavras suaves e cheias de bondade.

O padre Gonçalo chegou ao arquipélago vindo do continente, em 1732, para ocupar o lugar deixado pelo velho sacerdote, que dedicara toda a vida ao pastoreio de almas nas mais variadas e longínquas igrejas espalhadas pelo universo colonial português.

Do alto do púlpito, enquanto faz a sua pregação, Gonçalo deixa que o seu olhar repouse sobre os fiéis oriundos dos mais diversos extractos sociais da ilha e que enchem completamente a igreja.

Lá está, contrita, sentada nas cadeiras do coro baixo, arrematadas por anjos esculpidos, a alta burguesia. É representada pelos homens e mulheres da Corte, mandatários de D. João V para administrarem o arquipélago de acordo com os seus reais desígnios e interesses, juntamente com os dignitários militares que preservam a ordem e a dominação territorial.

Logo atrás perfila-se a média e a pequena burguesia, representada pelos plantadores de cana-de-açúcar e pelos comerciantes.

No fundo da igreja amontoa-se a ralé, formada pelas mulheres do povo, pelos artífices e camponeses, pelos marinheiros e prostitutas, pelos vagabundos e pelas crianças rotas, sujas e ranhosas. 

Respira-se um ar carregado de cheiros fortes de corpos mal lavados, do mofo das roupas dominicais, de suor e das velas que queimam, ininterruptamente, nos castiçais espalhados pelos vários altares.  

O padre Gonçalo esforça-se para que a sua prédica seja entendida de forma diferente, de acordo com os ocupantes das cadeiras da igreja.

É uma missão ingrata a que se dedicou desde a sua chegada àquela paróquia há cinco anos, mas foi a única maneira que encontrou de dar algum conforto aos que ocupam o fundo da igreja, sem ferir as susceptibilidades daqueles que se sentam nas filas dianteiras.

Está convencido de ter atingido os seus objectivos pois sente o reconhecimento sincero através das manifestações de apreço que todos lhe dão.

As mulheres vão diariamente à igreja. Assistem à missa, confessam os seus pecados, imaginários ou não, limpam e arranjam o templo e cuidam dos paramentos eclesiásticos.

Os jovens sentem uma verdadeira veneração pelo padre. Ele reparte por eles os alimentos e as roupas que os paroquianos lhe enviam para distribuir pelos mais necessitados da comunidade. Também é ele quem lhes ensina as letras, as ciências e a filosofia que lhes permite compreender a mensagem de Cristo.   

Mas, acima de tudo, procura levá-los para os caminhos da Fé e do Bem e decifra-lhes alguns dos mistérios da Vida.

Dois dos rapazes são preferidos do sacerdote entre todos os que o rodeiam. Um deles, o José, é um menino ainda. Tem dez anos e é órfão de pai e mãe. Foi recolhido pelo padre nas ruas do Funchal, quando vagueava tiritando de frio, quase desnutrido. Sente amor por ele como se fosse pelo seu próprio filho.

O outro, o Manuel, também foi recolhido na rua e criado por duas irmãs velhas, ambas já falecidas. Tem agora quinze anos, acompanha o padre Gonçalo desde os onze e ajuda-o à missa demonstrando muita fé e dedicação pelos assuntos eclesiásticos.

Manuel é um rapaz inteligente, passa muito tempo a estudar os livros que o padre lhe empresta e demonstra já uma grande inclinação para o sacerdócio.

O padre Gonçalo, sempre que pode, dá longos passeios com eles pela ilha e aproveita para lhes aprimorar a educação. Hoje mesmo, se o tempo melhorar à tarde, sairá com os dois.

Esses passeios são todo o descanso semanal que se permite. Gosta de ficar, lá no alto, olhando o mar e elevando os seus pensamentos para Deus. Os rapazes acompanham-no e sentem essa paz e tranquilidade que os lugares ermos na montanha transmitem. Fazem-lhe perguntas, algumas delas delicadas e para as quais, muitas vezes, não tem resposta ou acha que não deve responder.

A cerimónia litúrgica está a chegar ao fim. O padre Gonçalo termina-a, dirigindo-se aos fiéis com palavras de amor:

– Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!

Os fiéis ajoelham-se, persignam-se com os olhos postos no altar e, reverentemente, dirigem-se para a porta da igreja.

Sentem-se com o espírito mais leve e com disposição de enfrentar mais uma semana de trabalhos e tentações de toda a ordem. A missa dominical permite-lhes reforçar a fé e até, de certo modo, demonstrá-la. Os tempos que correm exigem definição nas convicções e não basta apenas tê-la, é necessário também parecê-la.

O padre Gonçalo, acompanhado por Manuel e José, dirige-se então para a sacristia onde retiram os paramentos.

Pela janela entram agora uns tímidos raios de sol que desde logo iluminam o coração do padre. O seu passeio dominical será muito mais agradável sem a chuva incómoda, limitadora dos movimentos e cerceadora da alegria.

Em poucos minutos preparam um farnel e começam a percorrer o caminho estreito que os leva pelo meio de hortênsias, antúrios e orquídeas para um penhasco que cai a pique sobre um vale profundo, de uma beleza deslumbrante.

Para lá do vale e no recorte do U quea Naturezacaprichosa talhou nas rochas da montanha, espraia-se o mar sem fim, imensidão de azul esverdeado, limitado apenas pela difusa linha do horizonte que une o oceano e o céu, numa simbiose quase perfeita.

Mal chegam no alto, os rapazes pousam o cabaz do farnel sobre a erva verde, ainda molhada pela chuva da manhã e começam uma brincadeira de agarrar pelo meio das árvores atrás das quais se escondem até serem descobertos pelo outro.

Os seus risos juvenis e cristalinos enchem o ar e o padre Gonçalo é contagiado por eles acabando por aderir também à brincadeira.

A sotaina longa de sacerdote não lhe permite grandes correrias, por isso, ao fim de pouco tempo, senta-se sobre uma rocha e fica-se a olhar a paisagem soberba enquanto acalma o peito ofegante.

É um homem feliz.

Gosta de exercer o sacerdócio e de ajudar aqueles que andam perdidos nas trevas do pecado, a encontrar o caminho da Luz.

De vez em quando é acometido pelas saudades da mãe, já velhinha, e do seu irmão mais novo, que ficaram lá na aldeia. Pensa que nunca mais voltará a vê-los.

Estes dois rapazes, o José e o Manuel, são a sua família e o seu enlevo. Por vezes chega a pensar que nunca mais conseguirá separar-se deles.

Adora vê-los brincar, despreocupadamente, e quando exaustos pelas brincadeiras descansam as cabeças suadas no seu colo, passa-lhes ternamente a mão pelos cabelos e pelas frontes molhadas.  

– Paadreee!

O grito surgiu do nada e ecoou a caminho das profundezas.

Gonçalo levantou-se de um salto e correu ao encontro do José que, aterrado e ofegante, lhe apontou o abismo medonho.

Lá no fundo, estatelado sobre uma rocha, jazia o corpo de Manuel.

A estupefacção e a dor que o padre sentiu impediram-no de se movimentar e de tomar qualquer providência.         

Também nada que pudesse fazer iria salvar a vida do seu amigo. A queda foi enorme. Manuel era pouco mais que uma mancha escura sobre a pedra pontiaguda.

Alucinado, precipitou-se para a ravina, descendo-a agarrado às pedras, às raízes e ao mato.

Quando chegou perto do Manuel ficou transtornado.

O corpo estava horrivelmente mutilado e aquele rosto querido, quase-homem, mas ainda-criança, completamente irreconhecível.

O sacerdote com os olhos marejados de lágrimas e de ira, rasgou as próprias vestes eclesiásticas e chorou amargamente.

Era quase noite quando os homens, alertados por José, chegaram ao local para resgatar o corpo.

Gonçalo mantinha-se agarrado ao cadáver do amigo e blasfemava.

Toda a sua fé em Cristo, na Virgem Santíssima e nos Santos, transformara-se num ódio profundo e visceral.

Acusou-os de assassinos, de ladrões, de pactuantes com o diabo por lhe terem levado o seu amor, renegou toda a sua fé na Igreja Católica e escarneceu da Bíblia Sagrada.

Os homens ouviam-no boquiabertos e foram obrigados a usar a força para o separar de Manuel e para o arrastarem até ao Funchal.

*

Faz muito calor neste Domingo luminoso de Agosto.

A procissão dirige-se vagarosa para o Rossio. Na frente os dominicanos, vestidos de hábitos brancos seguem solenes o estandarte de S. Pedro Mártir. Atrás vêm os inquisidores, logo seguidos pelos sentenciados e todos eles são ladeados por guardas.

Passam por ruas que fervilham com a arraia eufórica que grita toda a espécie de impropérios aos que vão morrer.

São onze os sentenciados, uns vestidos com sambenitos de baeta amarela pintados com uma cruz vermelha, outros vestem samarras pintadas com diabos ou labaredas vermelhas.

Entre eles, gritando impropérios e blasfémias, segue o padre Gonçalo. Passou três anos nos cárceres da Inquisição antes de ser julgado. Foi acusado de vários crimes e por todos foi condenado à morte na fogueira: assassinato, sodomia e heresia.

As chamas alteiam-se já por baixo dos penitenciados. Os gritos e urros de dor ecoam pelo Rossio e sobrepõem-se ao barulho da populaça ululante.

Alguns dos sentenciados desfalecem sufocados pelo fumo negro e morrem ainda antes das chamas lhes lamberem as vestes. Outros vivem o suficiente para sentirem o cheiro acre da sua própria carne queimada.

O padre Gonçalo deixa descair a cabeça quando as labaredas começam a devorar-lhe a cruz pintada no peito.

  Morreu por amor ao próximo.

Reinaldo Ribeiro

Abril de 1995

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