Luísa Costa Gomes

By  | 21 de Outubro, 2019 | 0 Comments | Filed under: Notícias

A PESSOA E A PERSONALIZAÇÃO

Ainda sou do tempo em que passávamos grande parte da nossa vida online a eliminar do computador os cookies e os ficheiros temporários. Para os mais antigos que ainda estão comigo aqui nesta frase, um cookie é um registo da identidade do computador no website visitado, que permite recolher os dados voluntariamente fornecidos pelo utilizador em troca de serviços gratuitos online como as pesquisas e os anúncios. Alguns cookies, diz o site da BBC, podem ser mais sofisticados, registando quanto tempo se passa em cada página, em que links se clica, até as preferências do utilizador relativas à cor e layout das páginas. Todos estes dados podem ser vendidos a empresas ou instituições e usados de forma sistemática na criação de “bolhas-do-filtro”, que fecham o utilizador no seu próprio mundo de consumos, fantasias, desejos, crenças, crendices, superstições, convicções, preferências e opiniões, privilegiando o hábito e a semelhança e mostrando-lhe exclusivamente o que ele quer ver: reconfirmando o que ele julga saber e formatando assim a realidade exterior de modo a parecer-se cada vez mais com um sonho ou um pesadelo do seu próprio espírito. A quase totalidade das inimagináveis fortunas de empresas como a Google ou a Facebook provêm desta transacção entre o que o algoritmo acha que queremos ver e o que nos querem vender. Chegaram enfim ao seu momento de obsolescência os velhos informadores humanos, os espiões encartados ou desencartados como os vizinhos ou os empregados domésticos. É a primeira vez, ao que se saiba, na História do Mundo, que as pessoas comuns oferecem a uma larga plateia de desconhecidos imagens, opiniões, rasgos de sentimento, indignações momentâneas e toda uma panóplia de dados que depois são recolhidos, estatisticamente tratados e vendidos aos anunciantes. O “indivíduo” histórico, reinante desde finais do século XVIII, dá a vez ao “divíduo”, um monte de “dados-sombra” constituído por pedacitos e bocaditos de informação distribuídos por massas, amostras, mercados e bancos de dados. Fez-se algum barulho a propósito desta invasão da privacidade, sobretudo depois do escândalo da Cambridge Analytica et al., as empresas congeminaram um estratagema simples – “este site utiliza cookies, ou quer, ou não entra” – e ficou tudo mais claro do que dantes. A Web funciona assim e é assim que funciona – não há pesquisas grátis e a venda de dados tornou-se a moeda corrente da rede. Esse momento da História recente em que eliminávamos os cookies e o histórico das pesquisas para não corrermos o risco de sermos alvo de anúncios, perseguidos ou indevidamente vigiados online, ou por pura e simplesmente acharmos que temos o direito à privacidade, deu lugar a uma cultura do exibicionismo do eu de múltiplas causas e origens. A “personalização” dos serviços, iniciada pela Google em 2009, permite-lhe por exemplo “capturar os dados dos utilizadores e os seus registos, as histórias que postam e adaptar pesquisas prévias a resultados de pesquisa em tempo real, mesmo que não se esteja ligado a uma conta da Google. Este enviesamento do motor de pesquisa retém os dados do utilizador como algoritmos que extraem, reúnem, filtram e monitorizam o nosso comportamento online, oferecendo sugestões para pedidos de pesquisa subsequentes. Em troca dos nossos dados recebemos publicidade feita por medida, fazendo com que tudo se ajuste bem, e tornando-nos produtos para os anunciantes”. A “personalização” acaba por ser o contrário da “pessoa”, que não é vista na sua possível singularidade, mas como uma fonte de dados que apaga justamente a sua individualidade como um todo integrado e dinâmico. Tenho, no entanto, algum pejo em lutar por um direito à privacidade do indivíduo, que a grande maioria dos meus contemporâneos parece ter enjeitado ao viver na absoluta denegação da realidade da sua vida online. Argumentos comuns são, “eu não vou ao Facebook”, ou “sou uma pessoa séria e não tenho nada a esconder”. A verdade é que o que nos dá jeito pode não ser o melhor para nós, e acomodarmo-nos ao estado das coisas pode ter consequências a médio prazo. Ainda não nos apareceu nenhum Trump, nenhum Bolsonaro, nenhum Boris Johnson. Mas vêm aí surpresas. E fingir, à direita ou à esquerda, que elas não têm nada a ver connosco, pode ser confortável, mas não é seguramente sensato.

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