No meio da coisa

By  | 19 Outubro, 2012 | 0 Comments | Filed under: No Meio da Coisa, por Jorge Esteves, Notícias, OPINIÃO

No meio da enchurrada de informação e contra-informação, comentários, debates, decretos, impostos e austeridade, saídos quer dos tecnocratas do governo, quer da oposição ou de comentadores ditos indeppendentes, com vista a uma baldada explicação da crise económica, tanto a nacional como a global que assola o sul da Europa, mas a que não escapam também os países do norte e centro europeus, nem os Estados Unidos, há algo que ninguém ousa pronunciar: fala-se nas ‘bolhas’ do imobiliário, responsabiliza-se o povo por ter gasto fortunas a comprar casa, automóveis e viagens em pacote mas, não se fala no que subjaz por baixo de tudo isso, ou seja o petróleo, ou melhor, a falta dele. Neste texto procuro deitar um brevíssimo olhar à dependência do ocidente em relação aos combustíveis fósseis, a sua deplecção e as consequências que já se fazem sentir.

A civilização ocidental, do fast-food, do hiper-mercado, do drive-in, dos suburbios, dos low cost, do alargamento da esperança de vida até aos cem anos e para lá, e da ecónomia de mercado, só foi possível graças à descoberta dos combustíveis fósseis que permitiram a fácil deslocação de pessoas e mercadorias através do globo desde a Revolução Indústrial até aos nossos dias. Primeiro o carvão e mais tarde o petróleo e os seus derivados, possibilitaram o crescimento económico dos últimos 200 anos, uma benesse que permitiu pôr na mêsa uma alface produzida a 4000km de distancia; que permitiu milhares de quilómetros de auto-estradas; mega-cidades nos suburbios onde antes havia boa terra agrícola; o desaparecimento de profissões manuais; a perda de valores éticos, tudo em nome do ‘progresso’ e claro, do lucro. Em 200 anos vendeu-se o futuro da humanidade em proveito dos interesses de elites económicas. Desbarataram-se as reservas naturais dos combustíveis fósseis e milhares de hectares de floresta que levaram milhões de anos a formar, como se elas fossem infindáveis. Toda esta destruição com o objectivo da produção em massa. Onde andam os geólogos, os cientistas, que não alertam nem denunciam a avareza das companhias petrolíferas e dos grupos económicos? E os governos, democráticamente eleitos? Quer uns, quer outros, seria ético e esperado que o tivessem feito a tempo de evitar a catástrofe.

Segundo estudos geológicos, o pico da curva da produção global do petróleo, aconteceu na década de 70 e actualmente estamos avançados no lado descendente da curva. As reservas que existem são de difícil exploração, quer pela profundidade a que se encontram quer pelas impurezas do crude, o qual aparece misturado com pedras e lamas, as quais durante o processo de purificação danificam os equipamentos das distilarias. Por outro lado, os locais onde se encontram, seja no Ártico ou em países árabes inimigos do ocidente, são de difícil acesso e comportam riscos elevados de perdas de vidas humanas. Também o preço de extracção iria encarecer o produto final tornando-o pouco atraente para a exploração liberal-capitalista. Em regra, as explorações petrolíferas são abandonadas quando chegam a 50% do seu total, por não serem económicamente viáveis. O que se passa com o ptróleo passa-se também com o gás natural e com o carvão, os quais são igualmente combustíveis fósseis.

Na tentativa de não alarmar o mundo e proseguir o delírio económico global do crescimento sem fim, tem sido divulgado que as energias alternativas podem substituir os combustíveis fósseis, possibilitando a continuação do actual estilo de vida ocidental. Tal expectativa não parece que alguma vez se concretize. Sem desvalorizar o contributo das energias alternativas, elas mesmas estão dependentes do petróleo ou do gás natural. Por exemplo, as turbinas utilizadas para a produção de energia eolica, assim como as células para a captação de energia solar, dependem dos derivados do petróleo. Para além disso, a eficiência das energias renováveis não se iguala à dos combustíveis tradicionais. O uso de veículos movidos a energia solar tem provado ineficiente, tanto pelo peso das baterias ou pelo seu raio de acção. A célula combustível poderá ser uma solução mas não num futuro próximo, além do que também depende de outras energias para separar o hidrogénio da àgua. As biomassas, não têm o rendimento dos combustíveis fósseis e mesmo a energia nuclear necessita do petróleo: a construcção de centrais nucleares bem como outras mega construcções só foram possíveis devido à abundancia de petróleo.
Desta maneira, à medida que o petróleo barato vá acabando, sentir-se-ão restrições e quebras no abastecimento em quase todas as áreas do consumo e dos serviços. Com o tempo as mega estruturas como auto-estradas e edifícios deteriorar-se-ão por falta de manutenção e a circulação de veículos de combustão interna sofrerá um tremendo decréscimo devido ao elevado preço dos combustíveis. Isto afectará quem habitar nos grandes suburbios, distantes das zonas urbanas de produção,como acontece nos Estados Unidos, onde se desenvolveram enormes áreas suburbanas e onde os habitantes chegam a deslocar-se mais de 200klm diários para chegar aos seus empregos e voltar. No mínimo gastam 100klm numa ida e volta, ao Wall-Mart mais próximo, uma vez que não existe comércio local. Todas as mega-estruturas distantes dos centros urbanos sofrerão com a depleção dos combustíveis, uma vez que as empresas de transporte e abastecimento não poderão continuar a assegurar os serviços. A agricultura de grande escala e o uso de pesticidas e adubos com base no petróleo terão de ser esquecidos.

Dito isto, parece-me que é o nosso comportamento individualista e competitivista, fomentado por séculos de liberalismo económico, a nossa relação com o ambiente, que terão de ser alterados, nas presentes condições sociais, políticas, económicas, energéticas e ambientais, que ir-se-ão agravar, à medida que as reservas de petróleo diminuam. Provavelmente seremos forçados a viver uma vida mais local e comunitária, prescindir de automóveis e apostar em meios de transportes colectivos, numa primeira fase autocarros e posteriormente uma rede de eléctricos; incrementar o uso de bicicletas; favorecer o consumo de produtos locais e evitar a todo o custo produtos industrialisados. A agricultura orgânica e de subsistência terá de ser re-implementada. Muitas profissões esquecidas estarão de volta e muita gente terá de buscar actividade na agricultura e pecuária, na conservação de alimentos, em arranjos e na manutenção de equipamentos e ferramentas daí que o ensino terá de ser mais práctico e utilitário.

Em conclusão, parece-me que face a um cenário de restrição energética, o tão esperado crescimento económico em que assenta a ecónomia de mercado, não vá acontecer nos próximos milénios e a humanidade irá regredir, segundo os padrões economicistas em vigor.
Em relação a Portugal, devido às nossas dimensões e a sermos um país com tradições agrícolas, parece que teremos vantagens em relação por exemplo aos EUA. Mais, o uso indescriminado de tractores agrícolas nomeadamente em terrenos acidentados, onde tradicionalmente a agricultura era de subsistência e feita em leiras ou escada, só tem servido para o empobrecimento dos solos. Por isso penso que teremos algo a ganhar com o fim do petróleo. No caso específico da Costa de Caparica, temos sorte porque dispomos quer de uma larga orla marítima quer de hortas e terrenos cultiváveis. Também os nossos edifícios são relativamente baixos e a população bastante concentrada o que facilitará a mobilização e organização, a qual terá vantagens se seguir os padrões de trabalho das comunidades ‘Amish’. Parece-me que estamos perante um enorme desafio de alteração de comportamentos mas, se soubermos aproveitar e adaptar-nos à mudança, teremos vantagens de que carecem outros povos e a possibilidade de uma sociedade mais justa.

Bibliografia

Kunstler, J.H. (2006) O Fim do Petróleo, ed. Bizâncio.

http://peakoilportuguese.blogspot.pt/2005/08/uma-explico-pormenorizada-do-pico-do_15.html

http://ecen.com/content/eee4/adepleca.htm

http://www.csmonitor.com/Environment/Energy-Voices/2012/0926/The-impact-of-declining-oil-exports

http://www.oildecline.com/

http://www.energybulletin.net/stories/2009-12-11/forecasting-permanent-decline-global-petroleum-production

http://ngm.nationalgeographic.com/ngm/0406/feature5/fulltext.html

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