Onde é que eu estava no 25 de Abril?

By  | 22 Abril, 2014 | 0 Comments | Filed under: LINHA GERAL, por Pedro Gamboa, escritor, OPINIÃO

25abril 350Onde é que eu estava no 25 de Abril? Eu digo-vos, em 26 pontos:

1 – estava num país que mantinha há 13 anos uma guerra colonial; logo injusta e criminosa.
2 – num país que tinha uma polícia política feroz que prendia, torturava e eliminava os opositores do regime.
3 – num país onde os partidos políticos estavam proibidos e, portanto, os que havia eram clandestinos e eram alvo de perseguição implacável (ver ponto 2).
4 – num país onde não havia sindicatos livres e independentes e onde os trabalhadores e os cidadãos não se podiam congregar para lutar pelos seus direitos e por uma vida melhor (ver ponto 2 e 3).
5 – num país onde não havia direito à greve (ver pontos 2,3 e 4)
6 – num país em que os cidadãos eram arbitrária e sistematicamente vigiados pelas polícias e pelos bufos do regime, com escutas telefónicas, violação de correspondência e devassa da vida privada (ver pontos 2, 3 e 4).
7 – num país onde os cidadãos estavam proibidos de se reunir livremente (ver ponto 2, 3, 4 e 6).
8 – num país onde os cidadãos estavam proibidos de se exprimir livremente e não havia liberdade de imprensa (ver pontos 2 e 3 e 6 e 7).
9 – num país onde a censura se estendia à criação artística e à fruição da arte com proibição de livros, filmes, canções, pintura, escultura e muitos outros produtos do trabalho intelectual e artístico (ver ponto 6, 7 e 8).
10 – num país onde apenas uma minoria tinha direito ao voto e onde as eleições não eram livres, não passando de uma fraude qualquer acto eleitoral (ver ponto 3).
11 – num país onde a Saúde não era um direito, onde não havia Serviço Nacional de Saúde e que exibia os mais altos níveis de mortalidade infantil do mundo ocidental.
12 – num país em que não havia igualdade de direitos.
13 – num país em que a interrupção voluntária da gravidez para além de ser “pecado” era crime (ver pontos 11 e 12).
14 – num país onde as professoras primárias e as enfermeiras tinham que requerer às chefias autorização para se casar (ver ponto 12).
15 – num país onde as mulheres casadas, para se ausentarem do país, tinham que ter autorização dos maridos (ver ponto 12).
16 – num país onde a homossexualidade era crime (ver ponto 12).
17 – num país onde o divórcio era proibido.
18 – num país onde os cidadãos estavam proibidos de visitar grande número de países em todo o mundo, expressamente averbados nos passaportes.
19 – num país em que estava proibida, ou muito restringida, a emigração, mas que vivia em grande parte das reservas dos emigrantes.
20 – num país em que o ensino não era um direito e só era obrigatório até à 4ª classe, o liceu só era frequentado pelos filhos da classe média e o ensino superior estava reservado a uma suposta elite que só o era por razões económicas e de apelido e que nunca foi o que uma elite deve ser.
21 – num país com uma percentagem de analfabetismo superior a 30% (ver ponto 20)
22 – num país em que os “gorilas” da polícia entravam e circulavam livremente nas universidades, intimidando e espancando estudantes, professores e funcionários
23 – num país onde os seus jovens varões eram conduzidos em rebanho para uma guerra destruindo o seu futuro e o futuro dos povos colonizados (ver pontos 1, 20 e 21).
24 – num país em que o papel das autarquias era uma fraude, uma farsa e onde as mesmas não passavam de instrumentos directos do regime junto das populações.
25 – num país onde na maior parte das aldeias e em grande parte das vilas não existia electricidade, água canalizada, nem saneamento básico (ver ponto 24).
26 – num país submetido aos interesses dos monopólios internacionais, que eram protegidos e acarinhados em detrimento do povo.

Esta lista de 26 pontos é uma pequena amostra de onde eu estava no 25 de Abril. Podia ter feito uma outra infinitamente maior e mais tenebrosa. Mas, assim de repente, foi o que me ocorreu. O esquecimento destes factos, por quem quer que seja, indicia, no mínimo, falta de carácter. Se o esquecimento for colectivo, é porque nos tornámos num povo sem carácter.

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