Sobre Mário da Silva Neves

By  | 16 Setembro, 2014 | 0 Comments | Filed under: A Região, Ana Marques, OPINIÃO, Personalidades

MSN 350Vou-vos falar um pouquinho sobre o pintor e escritor caparicano Mário da Silva Neves.

Nasceu na Costa da Caparica em 1931, junto à Igreja velha, numa casa de madeira onde abundavam casas feitas em colmo, filho de uma vendedora de peixe em Belém, o pai exercia a profissão de “cabaçeiro” o que segundo percebi consistia em ir à praia ver o peixe que chegava nas redes, calcular o quanto podia valer no mercado e comprar cestos enormes de pescado que depois vendiam a quem tinha bancas de peixe nos mercados.

O Mário criança, adorava a praia e jogar à bola, à época feita de trapos e descalço. Chegada a idade de ingressar na escola primária foi em Pedrouços que o fez devido ao facto de a mãe aí exercer a sua função de vendedora de peixe.

Passavam normalmente o inverno, época de muitos temporais na Costa da Caparica, numa casa alugada em Cascais e Pedrouços, nesta altura o pai comprava o peixe nas “enviadas” dos galeões, que eram barcos pequenos que transportavam o peixe dos galeões em alto mar até às docas. As férias da escola passava-as com a avó, que vendia água fresquinha tirada do Poço da Bomba, em grandes bilhas de barro com uma cinta de rama de cana no gargalo, aos veraneantes na praia com uma concha e um só copo, que depois de cada uso era passado por água limpa.

Quando frequentava a 4ª classe já se encontrava a residir na Costa da Caparica permanentemente e por volta dos 13/14 anos começou a trabalhar como ajudante de cozinheiro na Casa dos Pescadores, o que afirma ter apreciado bastante.

O mar que desde cedo o fascinou sem mesmo saber porquê levou-o a juntar-se aos pescadores para com eles trabalhar, começou como rapaz “do giro” a tirar a água do barco, depois “rapaz da corda”, significava dobrar e “encolher” as cordas, passou mais tarde a partir com eles mar dentro como remador. Quando fala sobre isto os olhos dele perdem-se nas memórias de um amor pelo mar que lhe é difícil descrever, utilizando palavras tais como “o mar cantava para ele”, via nele cores e nuances que mais ninguém via, chegando a vê-lo vermelho sangue, considera-o como um ente com uma personalidade própria e vincada sentindo um grande respeito por um ser que às vezes pode ter muito mau feitio.

Algum tempo depois ingressou num atelier de arte chamado Art Graft, do senhor J. J. Leite, cujo trabalho era essencialmente fazer anúncios para casas comerciais e afins com técnicas artesanais que incluíam pintura e desenho de letras.

Este contacto com vários materiais de pintura despertaram nele o desejo de começar a fazer quadros seus, cujo tema era essencialmente o mar e que ia vendendo a turistas estrangeiros.

A sua mestria nessa área levou-o a abrir com mais dois artistas uma galeria de arte. Também reproduzia quadros de grandes artistas conhecidos para além dos da sua autoria.

Passou conjuntamente a trabalhar na CUF como pintor de letras. Sempre muito curioso em relação a qualquer tipo de arte, ingressou num grupo de teatro amador chegando a ser ator principal, experimentando e gostando também de cantar fado para o qual descobriu ter uma aptidão natural, nunca deixando de jogar à bola.

Descreve-se a si mesmo como um rapaz muito namoradeiro sendo normal vê-lo sempre acompanhado por bonitas mulheres estrangeiras. Ri muito ao recordar a inveja que muitos outros tinham das suas conquistas amorosas tendo ganho algumas raivas de estimação.

Um dia um fadista ao ouvi-lo cantar, convidou-o a fazê-lo num clube em Campolide, o que fez com agrado e bom desempenho, levando o fadista a convidá-lo para cantar no Rádio Clube Português, que tinha um dia específico para que amadores pudessem mostrar o seu talento. É com muita tristeza e revolta que conta que nunca o conseguiu, porque vivendo num tempo de ditadura em que tudo o que se cantava tinha de passar pela censura e ser aprovado através do carimbo, ele nunca o conseguiu e como tal nunca cantou nessa estação de rádio.

Chegou a altura de cumprir serviço militar e foi em Cascais que o fez, durante um ano e pouco, voltando a trabalhar na CUF e decidindo entretanto aprender línguas estrangeiras. Toda a sua vida foi pautada por uma necessidade inexplicável de experimentar todas as formas de arte.

Decidido a aprumar os quadros que já começara a pintar, ingressou na Escola de Arte, na Sociedade Nacional de Belas Artes. Como não tinha completado o sétimo ano não teve direito a uma bolsa de estudo, somente no material necessário. Concorreu a várias exposições, tendo exposto obras suas nomeadamente em galerias em Lisboa e Estoril.

Achando que o que ganhava em Portugal não provia as suas necessidades, contactou a Embaixada do Canadá tentando emigrar para esse país onde já tinha alguns conhecimentos, da primeira vez foi o pedido rejeitado porque só havia vagas para agricultura e os caminhos-de-ferro e ele tinha-se candidatado como pintor da construção civil: para a área pretendida não havia vagas. Voltou uma segunda vez, candidatando-se como soldador tendo entretanto tirado o curso na Ar Líquido. O cônsul disse-lhe que tinha de ter pelo menos um ano de experiência com um documento a atestar que era essa a sua profissão. Foi trabalhar durante esse tempo, findo o qual já com o referido documento, lhe foram abertas as portas para emigrar para aquele país.

Lá chegado, procurou ajuda entre a comunidade portuguesa para conseguir alojamento tendo no início apenas conseguido trabalhos esporádicos, tais como lavar pratos e apanha da minhoca e numa plantação de tabaco, nunca esquecendo a sua verdadeira paixão de pintar quadros conseguindo vender algumas obras.

Em Portugal já tinha conhecido uma senhora por quem se interessou com bastante intensidade, esquecendo de alguma maneira a sua vontade de namoriscar e conquistar outras mulheres, e resolveram casar através de procuração, viajando depois ela para o Canadá onde viveram durante largos anos.

Com 18 anos, para além de tudo o que já fazia também foi jogador de futebol em vários clubes como amador, o que continuou a fazer no Canadá.

Com o passar dos anos já devidamente instalado nesse país, pintando escolas e os seus quadros que os canadianos muito apreciavam, tendo feito várias exposições com o aval do cônsul e conseguindo bastante reconhecimento do público em geral, sendo-lhe atribuídas algumas medalhas de reconhecimento.

Crescem nele as saudades da sua terra natal que nunca esqueceu e decidiu fazer um livro que contasse toda a história da Costa da Caparica, suas origens, usos e costumes. Para isso e durante cinco anos, planeou-o com muito cuidado, fazendo pesquisa na Torre do Tombo, em Setúbal, visitando igrejas e ouvindo histórias dos naturais desta vila, esse primeiro livro teve o título de “Costa Minha” pago em grande parte por ele com uma pequena ajuda da Junta de Freguesia da Costa da Caparica. Mais tarde lançou o segundo livro sobre o mesmo tema com o nome de “No Areal do Tempo”.

Sempre fascinado por tudo o que à arte diz respeito propôs-se a escrever poemas essencialmente sobre o mar, os pescadores, o que fez com alguma facilidade lançando outro livro com o título “Trovas da Costa” que contou com o apoio do Presidente da Junta de Freguesia da altura, o senhor António Neves.

Nesta conversa que tive com ele sobre todos estes assuntos e a sua vida reparei nas imensas ocasiões em que interrompia a sua linha de pensamentos perdendo-se nas imensas recordações da sua amada Costa, que relembra com um amor sem medida juntamente com imensa revolta que sente ao contemplá-la agora como uma terra com um potencial sem par e condenada a um amontoado de lojas de bric-à-brac, a frente de praia despersonalizada de hoje, a falta de biblioteca, de hospital, de galerias de arte e muitas outras ideias que o assolam visando fazer desta terra um local de eleição para quem a visita.

Hoje, já com 80 anos e com uma lucidez invejável assim como a sua memória dos factos, ainda tem na manga um projeto com toda a certeza referente à Costa e que por agora se abstém de revelar, diz ele que já recebeu medalhas no estrangeiro que foram a prova de reconhecimento de si e do seu trabalho, não pretendendo recebê-las em Portugal, mas sim que o recordem como um verdadeiro Caparicano, completamente apaixonado pela terra. oferecendo o seu contributo, para que muitos outros a conheçam melhor e com a sua ajuda a melhorem.

About 

Designer Gráfico

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


* Copy This Password *

* Type Or Paste Password Here *

AGENDA

Loading...