Artesanato Marinho

By  | 9 Junho, 2015 | 0 Comments | Filed under: Ana Marques, OPINIÃO

ArtMaritNo largo da Costa Da Caparica, onde normalmente acontecem as maiores manifestações de cultura, como por exemplo, mostras de produtos regionais, diversas formas de artes orientais, ranchos etnográficos, feiras do livro, festivais diversos e nomeadamente bancas de venda de artesanato, é o coração de um conselho instalado à beira-mar, com o Atlântico e as estações do ano a comandarem a maneira de garantir o sustento de várias famílias e o afluxo de não residentes a aumentar consideravelmente, transformando uma pacata cidade quando o Inverno se instala com os seus ventos quase ciclónicos e uma humidade que sobe da maresia de um mar cheio de humores, numa fervilhante cidade onde se falam vários idiomas e a cor toma conta de todos as ruas.

E foi num passeio já habitual por esta zona, admirando as diversas formas de arte manual, que me deparei com uma banca que me atraiu particularmente, pela originalidade das peças expostas.

Curiosa, dirigi-me a um senhor que se encontrava sentado por detrás da banca e entabulei conversa, no intuito de tentar perceber como lhe tinha surgido a inspiração para tão belos trabalhos em conchas e um pouco da história da sua vida, até chegar a esta forma de ocupar os dias garantindo algum dinheiro extra.

Chama-se José Manuel Paiva, nasceu na Covilhã há 66 anos, com a idade de 16 anos os seus progenitores separaram-se, obrigando a mãe a tornar-se empregada doméstica em Lisboa, os 5 filhos deste casamento ficaram a viver com a avó, encarregando-se a mãe de mandar vir para Lisboa um de cada vez conforme as posses até se voltarem a reunir, cedo começou a trabalhar para ajudar no orçamento familiar, começando por o fazer numa mercearia onde pernoitava, com um horário de trabalho das 8 da manha às 21 horas, ganhando à época 70 escudos e refeição, que diz medíocre e não suficiente para as energias despendidas, gozava somente da tarde de Domingo como folga, mais tarde e sempre tentando melhorar a sua condição económica entrou no mundo da restauração, na idade onde todos os mancebos se tinham de apresentar nas forças armadas para cumprir serviço militar nas ex-colónias, ele não o fez na data aprazada, tentando de alguma forma fugir a esta obrigação que não lhe agradava, mas reconsiderando as consequências de tal atitude, punível no regime vigente, apresentou-se no meio dos anos 70, sendo destacado para Angola onde lhe foi confiado serviço de secretaria, disse-me que nunca disparou contra nenhum ser humano, limitava-se a fazer inspeções pelo mato e a matar animais com uma arma, para serem confecionados na messe para todos os militares, como por exemplo a Pacaça, género de boi ou vaca selvagem que eram mortos em emboscadas noturnas, debaixo dos holofotes e com muita mestria, porque se por acaso só ferissem o animal corriam um sério risco de que ele investisse enlouquecido, pondo a vida deles em risco, entretanto adoeceu com umas febres que levavam a crer que tivesse contraído paludismo, uma doença que afetou e deixou sequelas em muitos soldados portugueses, sendo necessário internamento numa enfermaria do mato, mais tarde foi transferido para o hospital em Luanda, transferido mais tarde para o hospital da Estrela em Portugal, chegando os médicos à conclusão de que não padecia de Paludismo, mas de uma outra doença que ainda hoje desconhece o nome.ArtMarit1

Sanada a enfermidade recomeçou a sua vida normal, empregando-se num supermercado sendo novamente a restauração o passo seguinte e onde permaneceu por largos anos, casou, nasceram 2 filhos e enviuvou, nas vezes que frequentava as praias e nos seus passeios pela beira-mar, foi recolhendo conchas e outras cascas variadas de moluscos, começando como hobby a trabalhá-las sem ter tido nenhuma aprendizagem, experimentando vários tipos de materiais, confecionando peças decorativas que foi juntando ao longo dos anos, ao fim de anos, e com uma casa que já não comportava tantos objetos decorativos, surgiu a ideia de os expor e vender, começou pela Ericeira onde a sua arte teve êxito, e desde essa altura percorre várias cidades costeiras, vendendo autênticas obras de arte marinha, perguntei-lhe se os ganhos eram um justa contribuição para as imensas horas despendidas com cada peça, e como já esperava, a resposta foi negativa, ninguém dá o justo valor a este e outros trabalhos manuais que tantas horas e imaginação requerem, sem o recurso a nenhuma ferramenta ou técnica avançada, sendo ainda hoje ele próprio que recolhe, em diversas praias, as conchas que tão generosamente o mar deixa, nos imensos areais deste País com uma belíssima e enorme frente costeira.

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