Armagedão

By  | 18 Junho, 2015 | 0 Comments | Filed under: Ana Marques, OPINIÃO

ARMAGEDAOEla já nada percebia de si mesma, sabia somente que hoje ainda tinha acordado, olhado a manhã que tinha nascido esbranquiçada, com nuvens rotas de água ausentadas, que o sol, com o seu jeitinho maroto de menino irreverente, escarafunchava e teimosamente fazia questão em dar risadas, perante o mau-humor matinal, de quem pouco dormiu e que sem relógio, sabe que tem por obrigação mais um dia em que tem de acender a luz e iluminar este planeta, que dizem azul, redondo e estranhamente só, no imenso universo negro, onde gravitam astros, cometas, planetas, estrelas, poeiras, buracos negros e mistérios que em vão todos pretendem descobrir.

Sabia que tinha na face um olhar de interrogação, na boca um trejeito de consternação e um corpo vergado ao peso de tanta interrogação.

Abrira os olhos repentinamente e mais de repente ainda, tinha saltado da cama, com aquela sensação estúpida, de ter o coração fechado nas mãos de um carrasco, que se prepara para a realização da sentença de um juiz desaguisado com a humanidade, a saliva tinha fugido entre os dentes, que cerrara no limbo de um sono, com um sonho de catástrofe iminente e irreversível.

Mas porque raio ao raiar da manhã, enroscadinha no edredom de quadrados cosidos ao acaso, com restos de saias e vestidos fora de moda, num aproveitamento que, para além da economia, lhe dava verdadeiro prazer confecionar, tencionando dormitar num alheamento de horas, noção de tempo e espaço, se tinham instalado no cérebro como num filme a três dimensões, que arrepia, assusta e sobressalta por conter imagens sofridas, mesmo sabendo de antemão, que são produto de alguém com imaginação fértil, aquele sonho em que se viu numa casa a que não podia dar o nome de lar, com uma criança ao colo, apática, desamparada, pálida, sem o choro natural de quem sofre, parecendo não se importar com a vida que lhe fugia pelos olhos e lhe molhava os cantos da boca, e uma outra que desesperadamente, fazia questão de se aninhar nas suas pernas, tremendo, num mutismo conformado de susto sem remédio, reparando numa outra senhora presente, que sabia conhecer e que sempre lhe parecera pessoa muito segura nas suas convicções, tendo como característica principal, certezas inabaláveis e inalteráveis, o que fazia com que quem com ela privava, ficasse aniquilada e desmembrada da sua personalidade, e que nesta manhã que era quase noite, num céu que parecia uma mortalha de chumbo, com estacas de ferro, que se desprendiam em vermelho-raiva e feriam de morte o chão, que deixara de ser de alcatrão e brita, sendo antes um rio raivoso, com pressa de desaguar num mar que ainda não avistara, se mostrava receosa tendo mesmo num segundo de pânico procurado refugio num casinhoto de alta tensão.

Sentia-se desesperadamente impotente, perante as forças da natureza, que lhe pareciam dizer em brados de coisa cansada de tanta orgia humana desperdiçada, num planeta que há muito pedia tréguas, que o grande Armagedão profetizado por tantos profetas adivinhadores e intuitivos, tinha resolvido marcar presença sem anúncio prévio, naquela manhã vinda de uma noite, onde a lua se manteve no seu lugar, acompanhada pelas estrelas que se mantiveram fiéis e com o mesmo brilho de sempre.

Um estrondo paranormal sacudiu tudo o que na terra era mortal, vegetal e mineral, fazendo-a oscilar entre o bater do coração que se preparava para a fuga do inevitável e a razão que ainda lhe dizia que a esperança só morre quando o corpo vira pó, bem escondido de olhares alheios numa cova solitária, e segurando a criança num braço retesado pela tensão e a outra arrastada pelos membros inferiores, que se recusavam a ceder e a ajoelhar, dirigiu-se à janela da frente, sabendo de antemão, que a sua intuição não a tinha abandonado como neste momento desejaria.

Vagueavam pessoas, no meio de um negrume espetral, confusas, perdidas, chocando nos obstáculos sem capacidade de discernir, nem digerir a terrível realidade, nas avenidas a água corria solta, gorda, gulosa e avermelhada, cobrindo corpos decepados num último estertor e as crianças, senhores, sempre as crianças, para onde quer que ela olhasse, o horror feito gigante Adamastor esbofeteou-lhe a face, a certeza de que afinal podia haver um fim para todas as coisas que sempre supôs como garantidas tomou-a de assalto e não gritou, esperneou ou fugiu, aconchegou a criança que molemente a olhava, encavalitou a outra no braço livre e chorou mansamente, como água de lagoa ou chuva sem raiva e num esforço supremo de incredulidade acordou, mas olhou a manhã clara, cheirou a brisa campestre, pisou o chão de azulejos pretos e vermelhos, com a alma coberta de hematomas e nódoas violáceas, com a certeza de que este pesadelo matinal era fruto de um mundo onde correm velozmente, como o vento entre os pinhais, notícias que lhe dizem diariamente, que a humanidade se atreve a cometer contra semelhantes e o planeta em geral atrocidades que vão para além de qualquer imaginação mais profícua, perdendo-se em metamorfoses físicas e deixando de se achar em metamorfoses espirituais, dizendo ao coração que não deve olhar em seu redor e somente no eu individual, escondendo-se em objetivos estupidificantes numa veleidade onde impera uma correria louca para usufruir da vida mais do que ela acha necessário e sem se aperceberem vivem apavorados com futilidades esquecendo que o amanhã é uma noção de tempo que se calhar nem chegará

Se ela não se percebia, nem ontem nem hoje e quem sabe amanhã, era porque também não percebia porque se entregava a pensamentos que, unanimemente, todos achavam inúteis e a faziam sentir desfasada dos seus irmãos de sangue, tendo a perfeita noção que era humana, falível e mortal, mas com toda ela vivendo num mundo paralelo, numa dimensão onde sozinha era dona e senhora num reino desabitado, sem portas, janelas ou grades e por isso viajava entre dois mundos que estranhava.

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