A Morte Saíu à Rua

MortePrimeiro foi Herberto Helder. Choque violento. Grande, enorme, perda.

Fui amigo íntimo de Herberto Helder sem nunca lhe ter posto a vista em cima. Nem sequer numa foto. Conheci-o nos “Passos em Volta” e foi um universo que se abriu, mundos novos, ideias com imagens brilhantes e que me levaram pela mão até sensações que ainda não tinha descoberto em mim.

Achava fascinante a veemência da sua reserva à exposição pública. Mas não era um homem reservado, tinha as suas relações pessoais e profissionais e, quem o conheceu, descreveu-o como “convivial”. A minha conclusão é que Herberto Helder separava ferozmente a criação artística da chamada “Feira das Vaidades”. Mais uma razão para o admirar, como se a excelência da sua poesia não fosse suficiente.

Infelizmente, há muitos que fazem a mesma fronteira, mas ao contrário, a esses, à maioria, basta-lhes a “Feira das Vaidades”. Em vez da produção artística, contratam as revistas para fotografarem a sua casa, que na verdade é muitas vezes alugada a terceiros apenas para esse dia…

Ainda mal refeito desta perda, surge a notícia da morte de Manoel de Oliveira. Como se sabe, este realizador portuense era reputadíssimo além e aquém fronteiras, com um público fiel em França e um rol de prémios que não cabiam em nenhuma casa. Curiosamente, nunca aceitou a casa que lhe construiram…

Sou como a maioria dos que conheço: para mim Manoel de Oliveira era um criador respeitabilíssimo, que atravessou boa parte do século XX, o que significou uma presença desde os alvores do cinema português. Porém, nunca me tocou pessoalmente com a sua arte. Os seus filmes nunca me apertaram o coração. Nem era preciso. Não lhe falta público muito mais conhecedor que eu…

Ainda não tinha havido tempo para acolher estas perdas no mundo cultural português quando bate a notícia, forte, do falecimento do economista Silva Lopes.

Como imaginam, não sendo eu economista e mantendo mesmo uma relação muito avessa com números, não tinha uma consciência detalhada do papel de Silva Lopes como economista. Porém, tinha muito clara a convicção da sua autenticidade, da forma simples como falava na televisão, explicando as situações com imensa humanidade e, acrescente-se, humildade.

Pareceu-me sempre um homem que assumia a coragem de poder estar desalinhado em relação às “revoadas” de “sim-senhores” que a política portuguesa sempre gerou, mesmo quando os governos mudam e Portugal muda de visão, de ideologia de diagnóstico e de receitas. Lá estão eles: uns sempre de acordo, outros sempre em desacordo, mas uns e outros sempre alinhados segundo o padrão “aceitável” pelos papas do poder ou da oposição. Parece não haver dissonâncias.

Depois aparecia Silva Lopes, com a coragem de pensar e também de abrir a alma e partilhar o que pensava. Mais. Era um dos mais inveterados pessimistas, ou seja, não era daqueles que falava de facilidades, de esperanças, de receitas feitas. Invariavelmente assumia o seu pessimismo. Tudo seria sempre dificílimo. Depois, passada a tempestade, podia até reconhecer que afinal não tinha sido assim tão mau.

Além desta autenticidade, Silva Lopes foi dos poucos que passou pelas difíceis provas da prática. Dificílimas mesmo, pois foi ministro das finanças e diretor do Banco de Portugal durante crises comparáveis a esta que estamos a viver. Uma coisa era evidente: todos tinham confiança nele. Que economistas é que eu conheço em quem confie cegamente? Para mim só um: Manuel Torres, o tesoureiro da Gandaia.

Num prazo curtíssimo, pouco mais de uma semana, Portugal perdeu um poeta maior, provavelmente era o maior poeta português vivo, um realizador de cinema, maior, talvez fosse o maior realizador português vivo, um economista, maior, uma referência, respeitado por todos, talvez sendo o maior economista português vivo.

Agora já não se pode dizer isso e estes homens passam a comparar-se com toda a História do nosso país, todos os poetas, os criadores, os líderes de todo o nosso passado. Podemos lê-los, podemos ver e analisar a sua obra, podemos aprender com a sua experiência. E ficamos com a responsabilidade de continuar e a obrigação de tentar fazer melhor, porque já se abriram aqueles caminhos…

E agora? Irão para o Panteão?

 

Notícias da Gandaia

Jornal da Associação Gandaia

3 thoughts on “A Morte Saíu à Rua

  • 7 de Maio, 2015 at 20:48
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    Tive a felicidade de conviver bastante com o Herberto Helder. Ao contrário do que as poucas fotografias dele transmitem, era um homem que cultivava o convívio e tinha uma gargalhada fácil. Escusado será falar da sua inteligência de excepção e da sua arte, diria, única.
    Penso que o Panteão não seria um lugar que lhe agradasse ficar e os louvores, assumidamente, desprezava-os.

    Reinaldo

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  • 6 de Abril, 2015 at 14:45
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    Excelente texto. Parabéns Ricardo Salomão

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  • 5 de Abril, 2015 at 12:51
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    Excelente Texto, Sr. Ricardo.

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