Arte-Xávega, uma denominação com 120 anos

Tal como nós, e muitos outros antes de nós, temos defendido, a denominação correta é Arte-Xávega, com hifen, uma vez observada a existência de duas denominações no território nacional: Arte, no norte, e Xávega, no sul, para uma mesma técnica de pesca de arrasto para terra.

Foi com base no trabalho do comandante Baldaque da Silva, em 1892, que se deu base à denominação conjunta “Arte-Xávega”, a qual exprime uma realidade, mantendo as suas identidades particulares e diversas especificidades locais e regionais. A grande obra “Estado das Pescas em Portugal”, mantém, ainda hoje a sua importância.

Transcrevemos aqui o artigo do Professor Carlos de Sousa Reis, da Faculdade de Ciências de Lisboa, publicado na Revista da Armada nº 349, Janeiro de 2002 e também disponível na Internet numa página de Caxinas (ver clicando aqui).

“Estado Actual das Pescas em Portugal” – 1892.

«Podemos, sem grande margem para dúvidas, considerar a obra do Comandante e Engenheiro Hidrógrafo Alberto Baldaque da Silva, publicada em 1892, como o suporte ao forte incremento que o sector das pescas sofreu a partir dessa data, e que, consubstancia, de certa forma a ideia de recuperação do atraso existente em Portugal em domínios como o conhecimento científico e técnico que incluía o das pescas, e que tardava em chegar ao país, após a revolução industrial.
A obra legada pelo Comandante Baldaque da Silva, enquanto Oficial da Armada e Engenheiro Hidrógrafo é muito diversa mas, salvo melhor entendimento, é no domínio das pescas que este oficial consegue obter a maior notoriedade, integrando nessa extensa obra, sob o título “Estado Actual das Pescas em Portugal”, de índole informativa e descritiva de aspectos tão diferentes como a biologia, etologia e ecologia de muitas das espécies exploradas nas nossas águas e no exterior pela frota Portuguesa, bem como aspectos relacionados com a tecnologia de artes e métodos de pesca, e ainda a tipificação das embarcações de pesca mais utilizadas, para além de notas importantes sobre a sociologia e economia das pescas portuguesas.
Neste contexto, o autor da presente obra como membro da então Comissão Permanente das Pescarias, faz alarde dos seus conhecimentos em inúmeros pareceres que terão seguramente contribuído para o desenvolvimento subsequente verificado no sector das pescas em Portugal. Outro aspecto de grande relevo é o facto desta análise exaustiva ter, certamente, contribuído de forma decisiva para relançar o sector no século seguinte a esta informação.
A recolha exaustiva de dados ao longo da costa Portuguesa durante uma década, permitiu também uma caracterização das principais comunidades piscatórias, incluindo as estruturas de apoio como portos e varadores, tanto marítimos como fluviais, levando a que a edição da obra em apreço, que ainda hoje é referência obrigatória, fosse ordenada para publicação pelo então Ministro Conselheiro H. Barros Gomes.
A época em que é editada a presente obra coincide também com o interesse manifestado pela temática das pescas e pela investigação oceanográfica do qual é o expoente máximo em Portugal na altura, o Rei D. Carlos e a sua equipa de colaboradores, que colocam o seu saber, empenho e meios materiais, na recolha de dados e informações científicas sobre alguns dos mais importantes recursos de pesca em Portugal, como era o atum na costa algarvia e ainda experiências de pesca de arrasto de profundidade.
A obra em questão contempla um importante acervo das relações sociais da pesca, conjugadas com aspectos antropológicos e etnográficos, associados às espécies exploradas e às técnicas, métodos e embarcações de pesca mais utilizados. De realçar um importante conjunto de ilustrações de espécies, bem como de artes e embarcações de pesca que constituem um espólio único de informação, sem o qual ter-se-ia perdido seguramente a noção da sua forma e características funcionais. Para além destes, há ainda que destacar as descrições de grande rigor técnico de aspectos hidrográficos da costa portuguesa, incluindo rios, sistemas lagunares e lagoas costeiras, o que revela um elevado grau profissional do autor neste domínio da sua especialidade. De igual forma, as informações relativas às espécies objecto de exploração pesqueira são também muito interessantes e permitem traçar um quadro da situação à época, sendo de destacar as descrições relativas à pesca do bacalhau onde são abordados técnicas e métodos de pesca então utilizados, bem como o cenário internacional que se vivia no nordeste atlântico.
Pena é que passados mais de cem anos não tenha existido ainda, no panorama nacional, obra semelhante, que permitisse e fundamentasse decisões com base em informações técnico-científicas suficientemente amplas e multidisciplinares, com particular relevo para a integração das componentes sociológica e económica, para além, obviamente, de um actualizado conhecimento do estado dos recursos marinhos explorados e ainda um aprofundado conhecimento da biologia das espécies existentes nas nossas águas.
Por tudo isto julgamos que seria muito oportuno que se promovesse uma profunda análise multidisciplinar e inter-disciplinar do sector das pescas em Portugal, a fim de ser equacionado com rigor os sucessivos períodos de crise ou sucesso de segmentos sectoriais e perspectivar esta importante actividade socioeconómica, não esquecendo quanto é deficitária a balança comercial de produtos do mar em Portugal, o que poderá justificar uma maior e melhor aposta neste sector.
O “Estado Actual Das Pescas Em Portugal”, com a sua vasta informação, com os desenhos da actividade piscatória e com mais de uma centena de reproduções de belíssimas aguarelas das espécies marítimas constitui ainda hoje uma referência obrigatória no domínio das Ciências do Mar pelo que se recomenda vivamente a sua consulta na Biblioteca Central da Marinha.»
Biblioteca Central da Marinha – Professor Carlos de Sousa Reis – Faculdade de Ciências de Lisboa.
Artigo publicado na Revista da Armada nº 349, Janeiro de 2002

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