É Só Uma Gracinha

gracinhaQue mais posso eu acrescentar a este texto da minha querida neta Inês…A sua sensibilidade apurada, autêntica, fica bem expressa nas suas palavras…só espero que gostem de ler:

A casa da minha avó já não existe. Era alugada a uma senhoria que tem 104 anos. Quarto por quarto, eu e os meus tios, pai, irmãos e primos, tivemos que a desmontar, eu já com uma barriga gigante, todos com o coração ainda apertado. Meses a fio, corredores fora, fomos separando cada papelinho, roupa, móvel e loiça daquela casa que era de todos e que parecia que existiria para sempre.
Um dia depois da minha avó morrer fui até lá e fotografei tudo o que pude exactamente como estava. Pedi ajuda ao Enrique, que apareceu ao lusco fusco e deixou a máquina absorver aquele restinho de luz que chegava. Queria conseguir parar o tempo, não mexi em nada. Os óculos ainda na mesa de cabeceira, porque não chegou a precisar deles naquele dia. A escova dos dentes no copo. O livrinho dos telefones na camilha. Tudo tal e qual ela deixou. Não me lembro de estar inconsolável. Isso veio depois. O nosso corpo conhece os limites. Sabia que não podia ficar inconsolável, estava à espera do bebé, o primeiro bisneto, que ela avisou que talvez não conhecesse.
No dia seguinte era Natal. Abri um presente que ela me deixou para o bebé. Uma fralda de pano com a oração do anjo da guarda bordada, “é só uma gracinha”. Arrepiei-me toda. O anjo da guarda dele soube logo eu bem quem era, mas obrigada pelo sinal avó, não fosse eu não saber como seguir.
Passaram-se uns meses. Nasceu o Vasco e por volta da mesma altura entregou-se a casa. Pedi para ficar com a cadeirinha de palha onde a avó e outras mães deram de mamar. Nessa cadeirinha, com muita paciência e algum choro, pedi aflita ajuda à minha avó do céu e lá ensinei o Vasco a pegar na maminha.
Das fotografias fiz um livro a que chamei só a morada que todos saberemos sempre de cor.
Agora passo no nº87 da Av. de Roma e acho inconcebível pensar que se tocar à porta ninguém vai abrir. Como assim não está ninguém? Foram à Sul América beber café talvez? Ah espera, já não existe a Sul América, está um Burger King no lugar. Se calhar estão na quinta. Pronto, é isso, é verão e foram todos supervisionar as vindimas.

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