Ler, como e onde

Reconheço que cada um de nós leitores tem uma forma ideal de o fazer. Contudo, devido a factores circunstanciais essa forma ideal não se ajusta à vida de todos os dias.

Ao longo de vários anos, li nos transportes públicos. Perdendo diariamente 2 horas nos autocarros, aproveitei esse tempo morto para ler. Apesar dos solavancos e do som dos comentários dos companheiros de viagem, lia. Desde sempre andei acompanhada por um livro. Se por um acaso saísse de casa sem ele, sentia-me desprotegida. Sem saber o que fazer, ora olhava o relógio, ora a ponta dos sapatos da menina do lado, ou vinco das calças do vizinho da frente. Sentia-me uma nódoa. Incomodada.

Li em todos os transportes colectivos: nos pequenos trajectos de metro, muitas vezes de pé; na travessia do Tejo, balançando ao som das ondas e em viagens de comboio. De todos os transportes elejo este último como o mais apropriado para a prática da leitura. Embora, não a sinta como ideal.

Na adolescência gostava de ler na cama. Eram noites longas dedicadas aos grandes romances, aos clássicos, que “devorava”. Muitas vezes às escondidas da mãe, que não queria disponibilizar a biblioteca, por não achar conveniente a uma jovem, certo tipo de leituras. Lembro-me que entre os autores que constavam da lista negra, encontravam-se Eça, Balzac, Zola, Henry Miller, entre outros. Ah, já me esquecia Freud e Marcuse, também eram objecto de censura. Claro que estes foram os primeiros a serem lidos às escondidas em maratonas noctívagas. Actualmente a leitura na cama não me seduz. No Inverno as mãos enregelam, ao passo que no Verão a luz do candeeiro propícia a entrada de mosquitos.

Ler refastelada no sofá, também não me apraz. Utilizo o sofá para ver televisão. A informação dada em imagens, entra-nos pela casa dentro já trabalhada. Por outrem. Somos como que “afagados” por estas imagens que nos chegam prontas a consumir, sem exigirem muito de nós. Entramos nas imagens e na história, sem darmos conta. O esforço intelectual que é exigido à leitura, não se compadece com o estar comodamente sentada. O livro merece mais.

Há ainda a possibilidade do livro digital, o que não me agrada, preciso da sua presença física, de manuseá-lo, do seu odor.

Ler na praia é uma dura tarefa. Tão dura como a luz a que nos expomos em dias de estio à beira mar. E, para incautos há ainda a possibilidade, do livro que levamos apanhar um banho, numa onda imprevista. Foi o que aconteceu ao Abade C, do Bataille, que após uma desagradável banhoca, apresenta as marcas de sal, e folha hirtas.

Voltando aos tempos de juventude, anterior ao 25 de Abril, era a época em que se estudava nos cafés. Entre uma bica rapidamente arrefecida e nuvens de fumo, estudava-se um pouco, discutia-se literatura e, sobretudo conspirava-se contra a ditadura. Os cafés eram lugares de encontro de colegas, amigos e camaradas. Morando em Lisboa, fazia o roteiro dos cafés da Av de Roma. Começava no Vavá, onde se encontrava o pessoal do cinema e da música, o Fernando Lopes era um habitué, era fácil encontrar o Tordo ou o Paulo de Carvalho. Seguia-se a Trevi e depois a Roma. Esta última onde se encontrava a malta que frequentava o Técnico. Os encontros para estudar eram na parte de trás da pastelaria, onde éramos recebidos por espessa nuvem de fumo. Sentados à mesa entre sebentas e livros proibidos, falava-se em surdina, olhando de soslaio para as mesas dos lados, tentando identificar algum informador da Pide. Na rotina do final da década de 60 e princípio de 70, outros cafés serviram de albergue aos meus devaneios literários – o Helsínquia na Av da Igreja onde encontrava o José Gomes Ferreira de farta cabeleira branca e pequenos olhos perscrutadores e o casal que pertencia ao coro da Academia dos Amadores de Música e que me deram a conhecer Lopes Graça e as suas Cantigas Heroicas. As mesmas que hoje em dia parecem ter sido descobertas, nas últimas manifestações contra a crise que nos assiste.

Os cafés foram para mim sinónimo de transmissão de conhecimento, do dealbar de um projecto de identidade. Apesar de não ter frequentado os mais afamados como a Brasileira, o Monte Carlo ou o Café Gelo, onde fervilhavam tertúlias, muitas vezes programáticas. Tal como Lisboa dessa época a Europa “é feita de cafetarias, de cafés…Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da <ideia de Europa>”[i]

Pelo que foi dito, o local que hoje em dia posso e gosto de utilizar para ler é o café. Mais propriamente a esplanada. A esplanada frente ao mar. O movimento e o barulho das pessoas não prejudicam a concentração. O poder olhar o mar entre páginas, ajuda a refletir no que se acaba de ler. Assim, procuro uma esplanada, mesmo de Inverno, não há frio que entre num bom agasalho. O pior nesses dias é a chuva. Aí tenho que entrar no café, escolhendo um que tenha boa luminosidade. Privilegio as manhãs, com a sua luz coada, sem a dureza da luz pós meio-dia. Escolho as esplanadas, pelas suas mesas e cadeiras. A cadeira deve ter um espaldar que acompanhe as costas. A mesa deve ser quadrada para poder apoiar os braços, o livro, o bloco notas, o café e o lápis previamente afiado e pronto a sublinhar, ou tomar alguma nota precisa.

E tu como preferes ler?


[i] Steiner, George A Ideia de Europa, Gradiva, Lisboa, 1ª ed, 2005, p. 26.

2 thoughts on “Ler, como e onde

  • 26 de Novembro, 2012 at 3:02
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    Cara Teresa, com efeito os cafés de Lisboa eram locais de tertúlias tanto literárias como outras, muitas outras. Na primeira metade da década de 70, vivia muito perto da Brasileira do Chiado, (havia uma outra), mais precisamente numa república na rua Ivens, onde vivíamos estudantes, jornalistas, militares, artistas e onde, entre tinto barato e muito fumo, ‘conspirávamos’ alegremente contra o sistema. Por acaso, no serão de 24 de Abril de 1974 houve uma dessas tertúlias que aconteciam espontânea e frequentemente e não raras vezes acabavam em orgias. Nesse tempo ninguém tinha a preocupação de ser politicamente correcto, (continuo a não ter, graças a deus). Adoptávamos um ar decadente do existencialismo parisiense de finais de 50, de mistura com o já estafado movimento hipie de princípios de 70, do qual tínhamos as músicas e os trapos comprados nos porfírios, mas que nem imaginávamos como viria a ser aproveitado pelo main stream.
    Apesar de tudo, olho para esse tempo com alguma nostalgia, pela inocência que tínhamos e pelos ideais que abraçávamos e lutávamos.
    Saudações

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  • 20 de Novembro, 2012 at 12:42
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    Minha cara amiga, é com grato prazer que li a tua coluna. Fizeste-me recordar algumas passagens da minha juventude, antes e após 25 de Abril, o Abril inesquecível…,.
    Pois bem eu ao contário de ti, adoro ler na cama, antes de adormecer, de manhã aos fins de semana, agora que já não há “pestinhas” … de volta de nós e particularmente nos dias de chuva e frio no sofá com uma boa mantinha.
    Obrigada pela tua partilha e empenho, faz-nos falta seres como tu, bem hajas…

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