Modificação da Voz

A Modificação da Voz

Na juventude, e navegando nas águas da exuberante poesia romântica, ele citava com frequência um poema de Yeats, onde este dizia, com toda a liberdade que a poesia confere, que “existimos entre as nossas duas eternidades”. Este verso fazia-o pensar no mistério do que ele teria sido antes de nascer e no que ele viria a ser depois de morrer. Enquanto não desvendava esse enigma, limitou-se a aceitar como um dogma a existência dessas duas eternidades.

Curioso, apreciava a composição da vida que conhecia: o nascimento, sempre envolto em misteriosas brumas que só os poetas podem dissipar; a existência, ou seja, a própria vida, indiferente e seguindo o seu curso inexorável; e, finalmente, a morte, mergulhada nos profundos e obscuros abismos da derradeira incerteza.

Com o avanço imparável da idade e com a aproximação do fim do seu já longo caminho, ele não sentia medo de enfrentar o desconhecido, pois sabia que o medo na velhice é a solidão na margem do azul infinito, porém, com surpresa, começou a ficar incomodado com a estranha sensação de que iria morrer sozinho, longe de todos, sem testemunhas.

Curiosamente, esse pensamento também o fazia sorrir, pois apercebia-se de que andava angustiado sem motivo, na medida em que desconhecia totalmente qual a diferença entre morrer sozinho e morrer acompanhado.

Ele justificava a si mesmo aquela angústia pela vida solitária que levava desde a morte da sua mulher e da distância geográfica que o separava dos filhos e da família. Não que ele quisesse estar acompanhado no momento da morte, pois sabia que a fronteira entre a vida e a morte é mais permeável do que se acredita e que qualquer instante é o ideal para ela ocorrer com o determinismo que a caracteriza. Pelo contrário, em vez de desejar estar rodeado de pessoas a lastimar o seu destino, ele até gostaria de estar sozinho quando isso acontecesse, pois pensava que a morte é a extrema solidão e ele acalentava o desejo de confirmar essa teoria.

Por vezes, mergulhado no caos dos seus pensamentos, imaginava que a morte é como um sonho que precisa da solidão para se desenvolver livremente e que, quanto mais o homem se concentra, mais apto está a sonhar amplamente no momento irrepetível em que deixamos esta vida e atingimos a suprema liberdade.

Porém, a insidiosa dúvida persistia e, durante as longas noites ele questionava-se: seria que a morte lhe exigia a certeza do luto de outros, mesmo sabendo que isso era uma demonstração excessiva de egoísmo, ou seria que a irreparável constatação do afastamento definitivo de tudo o que foi o adubo da sua vida, era aquilo que tanto o incomodava?

 No desenrolar dos seus dias sempre iguais, a solidão desolava-o, mas, para seu espanto, as companhias também o oprimiam. Habituara-se a viver só e a deixar que os seus pensamentos surgissem em total liberdade, sem qualquer tipo de sujeição. Sentia, até, a necessidade da solidão, da grande solidão interior, de ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, de estar só, como a criança está só.

Gradualmente, aquele estranho receio de morrer sozinho foi desaparecendo. Talvez, para isso, tenha contribuído o resgate na memória do pensamento de um antigo e sábio povo africano que, do alto da sua cultura ancestral, afirmava: nós não morremos, nós passamos a viver no espírito dos que nos amam.

Foi, então, que ele reparou que tinha começado a monologar em voz baixa, como se receasse o eco, o vazio do eco ou a crítica da mitológica ninfa.

A solidão tinha-lhe modificado a voz.  

Reinaldo Ribeiro

04JAN2020

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