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O Segredo

Para ela, a sua rua tinha-se tornado um local hostil. Os risos que antes ali ouvia não ecoavam mais na sua presença.

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Reparou que os seus vizinhos, amigos e até familia­res evitavam-na quando ela passava. Primeiro ficou surpreendida, depois triste.

Não os criticava nem culpava por esse comporta­mento. Ela tinha absoluta consciência dos seus actos, porém sabia que seria a sua própria derrota se ela começasse a culpar os outros por aquilo que eles apenas imaginavam.

Eles comportavam-se do mesmo modo que a multi­dão em fúria, isto é, seguiam o incitamento da insidiosa e anónima difamação. Tinham abdicado de pensar por si mesmos e passaram a repetir apenas o que tinham ouvido. A partir daí, ela foi irreme­dia­vel­mente condenada.

Desde criança que a consideravam uma rebelde ou alguém que afrontava as convenções da tradição e da moral. Isso incomodava-os porque, naturalmente, a rigidez dos costumes em que a sociedade se alicerçava nunca permitiria que os seus postulados, tal como os severos mandamentos bíblicos, fossem negados ou contrariados.

Foi ainda na adolescência que ela se descobriu diferente. Percebeu que no seu íntimo crescia uma bravia necessidade de afirmar a sua personalidade, que a impelia, de forma obstinada, para uma revolta contra muitas das convenções estabelecidas.

Paralelamente a essa necessidade de afirmação agi­gantava-se também um desejo incontrolável de liber­dade que florescia, selvagem, no seu peito. E ela sentia-o correr por dentro, como a água de um rio impetuoso comprimido entre margens abruptas, sufocando-a como se lhe faltasse o ar.

Nesses momentos, imaginava-se um pássaro que voava livre pelos céus, sem gaiolas nem fronteiras, nem constran­gimentos ou censuras. E como era agradável essa sensação de liberdade!

Embora bela, sorridente e comu­ni­cativa, ela isolava-se com frequência nos recantos mais profundos do seu íntimo. Aí encontrava o espaço adequado para a libertação total da sua personalidade, que julgava dupla, mas com quem podia sem receio partilhar o seu segredo que permaneceria inviolável. Embora esse segredo fosse como uma ferida aberta no peito que dói, que dói sempre, ela procurou sará-la encontrando um meio inteligente de não o revelar revelando-o apenas para si mesma.

Paradoxalmente, na sua individualidade existiam múltiplas personalidades, com as quais ela gostava de conviver, mas que se envolviam em perma­nente conflito com o seu próprio eu.

Foi quando descobriu que o teatro lhe permitia ser essas personagens e que, através delas, representava-se essencialmente a si própria, sem medos, nem tabus ou censuras. 

Envolvendo-se de alma e coração no mundo da arte teatral e possuindo uma notória aptidão para a repre­sentação, ela conseguiu assim rea­lizar-se e revelar-se de muitas e variadas formas. Exprimindo-se em liberdade, vivendo, amando, e sem recear ser criti­cada julgou ter encontrado ali o seu lugar no mundo.

A sua filosofia de vida, então, mudou. Só lhe interes­sava a novidade do incerto futuro; o seu presente era efémero e trazia-lhe poucas alegrias. No entanto, ela estava decidida a apagar o seu passado, como se tivesse de viver uma segunda vida.

Nuvens de tristeza toldavam-lhe o semblante, sem lágrimas, quando se afastava definitivamente da hostil rua da juventude. Iria para longe, para muito longe, para que a sua ausência inco­modasse mais do que a sua presença.

Caminhava altiva, sem rancores nem remorsos, e decidida a enfrentar com determinação os seus próprios demónios e a ocultar do mundo a sua exclusiva verdade.

Esse era o seu maior segredo.

Reinaldo Ribeiro

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