Riqueza, pobreza e discriminação

Tentei recorrer aos serviços do nosso Centro de Saúde há alguns dias para descobrir que deixou de existir o serviço de atendimento permanente qutreasure-cheste funcionava todas as tardes dos dias úteis. “Já não há” disse-me o funcionário, acrescentando: “acabaram em todo o concelho”.

Não tenho médico de família, pelo que se quiser ser visto por um médico com rapidez, resta-me o serviço de urgência do Hospital Garcia da Horta, em Almada e o respetivo pagamento da famigerada “taxa moderadora” de 20,00 €, fora os custos de deslocação que, como todos os caparicanos sabem, são desmesurados no nosso caso.

Curiosamente, como funcionário público, desconto para a ADSE, o que me dá acesso a alguns Hospitais particulares de Lisboa a preços mais baixos do que a própria taxa moderadora nos hospitais públicos. Ainda mais curiosamente, numa clínica aqui da Costa, há um médico (não a Clínica) que tem acordo com a ADSE, e poderei recorrer a ele, igualmente a preços mais baixos do que a Taxa Moderadora.

Faz sentido? Para mim não.

Pior, continuamos a pagar portagem para entrar em Lisboa – e ter acesso, por exemplo, aos hospitais – no que configura claramente, na minha modesta opinião, uma taxa discriminatória e completamente inaceitável, que condena a Margem Sul a este imposto ilegítimo, uma vez que, como se sabe, já pagámos essa ponte há muitos anos. Porquê manter então a taxa? Porque precisamos de dinheiro, ou melhor, porque “eles” precisam de dinheiro. Ora, ora, não há eles, ou não faz sentido haver (mas que os há…)

Finalmente – como se não chegasse, o nosso Garcia da Horta é o Hospital Distrital – a 800 metros de Lisboa – de um distrito que chega a Grândola e que, sobretudo, abrange uma zona densamente povoada na margem sul. Qualquer cidadão que, como eu, tenha necessidade de recorrer aos serviços de urgência pode ver um hospital castigado pela sobre utilização, com uma sala de espera com bancos partidos, faltando, portanto, lugares sentados para os doentes. Toda a margem sul tem de recorrer a este estabelecimento hospitalar e ainda não foram construídos os hospitais prometidos, nomeadamente no Seixal.

É assim que se condenam partes da população à pobreza, à doença, neste caso. Isto é pobreza a aumentar.

Os mais politizados dirão que a margem sul é vermelha e portanto paga esse preço. Realmente o comportamento de diversos governos é algo suspeito nesta clara discriminação. Porém, ouvimos também o mesmo argumento, por exemplo, na relação da Câmara de Almada, no inverso das cores políticas, mas com o mesmo argumento de discriminação em relação à Costa por não ter afinidades políticas. Dá que pensar.

Um amigo e colega da Gandaia, o nosso Presidente da Assembleia, referiu publicamente um fato claro: Cascais tem combóio há mais de meio século. Será por acaso?

Almada e a margem sul sempre teve uma matriz popular. A Costa da Caparica, apesar de atrair extratos de classe média e, antigamente média alta e alta, sempre teve também essa matriz popular. Uma das características – quase anátema – das formas culturais e artísticas populares é essa espécie de “menorização” em comparação com as das elites, seja na literatura, na arquitetura, etc.

Pessoalmente não sou militante, nem simpatizante nem apoiante de qualquer partido político. Porém, não tenho menos direitos políticos que os outros, e apoio os projetos que me parecem melhores. O problema é que os partidos já não apresentam projetos. Atiram umas palavras de ordem meio vagas mas que entram no ouvido e pronto, vão fazendo o seu percurso à força do mediatismo do candidato. Para piorar as coisas, após as eleições ninguém se sente vinculado a nada a não ser ao que lhe der na real gana em cada situação.

Isto também é pobreza e da pior. Pobreza de ideias.

Estamos a seis meses das eleições autárquicas e não sabemos de candidatos e muito menos de projetos. Ora são esses projetos que podem inverter esta situação que era preocupante, passou a assustadora e é agora aterradora. Seria em torno de projetos, de ideias sólidas e concertadas que nós, simples cidadãos, poderíamos participar e levar por diante as iniciativas que levassem a atingir esses grandes objetivos.

Aparentemente, as forças políticas só querem o nosso voto para serem eleitos. Depois querem que mais nada aconteça, que mais nenhuma pergunta seja colocada e sobretudo, que nenhuma responsabilidade seja pedida. Nada de projetos.

Mais pobreza, portanto.

Desde que a Gandaia foi criada temos sido acusados de sermos sociais democratas, comunistas, socialistas… Pois a Gandaia não é nada disso. Mas eu sou. Graças aos meus amigos comunistas, sou comunista também. Graças aos meus amigos socialistas, sou também da mãozinha e graças aos meus amigos do PSD, sou também das setinhas. Mais, que a Gandaia tem outras convicções além das político-partidárias, sou também homosexual graças aos meus amigos militantes gay que também participam nas nossas atividades e nos expõem as suas razões, e também sou mulher e luto pelos seus direitos, sobretudo pelo fim da violência doméstica. Sou também agricultor e cidadão sénior. Sou tudo isto e serei mais ainda, porque todas estas posições são essenciais para uma sociedade mais rica e, objetivamente, têm-me enriquecido substancialmente.

Seremos ricos, não por termos um carro alemão espadalhado e vivendas no algarve mas porque temos esta riqueza de compreensão da realidade. Seremos ricos se pudermos dar aos nossos filhos o bem estar de viver num mundo em paz e harmonia com aqueles que não são como nós e que, por isso mesmo, nos permitem ser mais do que aquilo que pensamos, que nos fazem pensar e compreender para além da nossa natureza.

Seremos cada vez mais ricos se pudermos dialogar e chegar a consensos com aqueles que pensam e vivem de formas diferentes das nossas, não porque eles passam a ser como nós, e então são “aceitáveis”, mas porque aumentam as fronteiras do nosso possível, nos iluminam a compreensão do que não estava ao nosso alcance.

Somos ricos porque discutimos acaloradamente opiniões diferentes e depois bebemos um copo e desejamos tudo de bom a todos. Ou não bebemos o copo, mas continuamos a desejar saúde e sucesso a quem não pensa como nós. Somos ricos porque ao adormecer, recordando alguma coisa que nos disseram, pensamos “caramba, nunca tinha pensado nisto!”

A Gandaia sempre defendeu que a Costa da Caparica não pode deixar de ser rica. Com este território, temos de nos esforçar para estragar o que temos. Bastava ter outra atitude. Concertar, consensualizar, ter iniciativas integradoras, falar e, sobretudo, ouvir.

E depois ir à praia, bater um papo com os vizinhos, fazer uma sardinhada, ou simplesmente gozar o azul do céu (é grátis).

 

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