Teatro e as Máscaras

By  | 27 de Março, 2019 | 2 Comments | Filed under: OPINIÃO, Reinaldo Ribeiro

Ele desconhecia quase tudo sobre as artes cénicas, os seus mistérios, os seus fulgores e os seus objectivos.

Quando ia ao teatro era induzido, geralmente, pelo nome do dramaturgo: Aristófanes, Shakespeare, Beckett, Lope de Vega, Tenessee Williams, Cervantes, e tantos outros. Eram autores consagrados, cujos textos ele conhecia e cujas representações gostava de ver mas que, quase sempre, tinha dificuldade em interpretar. Não que ele fosse incapaz de o fazer, mas porque havia uma imensa preguiça no seu espírito que se satisfazia mais com a similaridade entre a representação e o real observável e que o levava a evitar tudo o que se ocultasse nas sombras do perceptível e que o obrigasse a considerações mais metafísicas.

Para um melhor entendimento ele preferia textos mais explicativos, como são as peças de teatro da juventude, pois aquelas que ele assistia não se mostravam tão explícitas quanto ele desejaria.

E, no entanto, ficava deslumbrado com as mensagens que estas lhe transmitiam, principalmente na sua vertente literária, embora também as julgasse, tantas vezes, inócuas ou excessivamente metafóricas, ausentes da realidade.

Além disso, ele sentia-se pouco seduzido pela introdução de novas ideias, pois isso obrigava-o a um esforço intelectual para o qual não se sentia vocacionado e, nesse sentido, até se considerava ser um pouco conservador.

Foi, pois, de um modo surpreendente, motivado por conversas com uma amiga do meio artístico, que ele começou a compreender a mecânica fascinante que move o teatro.

Com alegria e saber, ela explicou-lhe então que o teatro era, acima de tudo, amor à arte, dedicação total e o conjunto dos esforços de um colectivo.

E logo acrescentou que no teatro tudo começa com um texto escrito ou como uma ideia. Que, o encenador desenvolve a sua ideia ou reescreve o texto adaptando-o ao teatro da forma como os imagina. Mas são os artistas que materializam esse desejo.

– E quem são os artistas? – perguntou ele.

– São pessoas que têm um amor inexcedível à arte e para a produzirem, quantas vezes, sacrificam a sua vida pessoal. – respondeu ela.

Ele mostrou-se surpreendido, pois sempre tinha visto os artistas como simples representadores de papéis, que agiam como marionetas. Choravam, riam, sofriam, espantavam-se, imprimiam inflexões variadas de voz, dançavam, cantavam, morriam e renasciam, e por tantas outras manifestações artísticas, atributos que eles exibiam e dominavam sempre que a cena assim o exigia. Mas nunca tinha olhado para eles pelo seu lado verdadeiramente humano.

Esse era um novo enfoque que o forçava a uma abordagem totalmente diferente sobre o teatro e sobre os seus intervenientes.

Foi a partir dessas conversas, ao reconhecer o ser humano que está no palco, que ele verificou que o artista quando representa transcende-se, usa máscaras, atrás das quais esconde os seus próprios dramas, as suas frustrações, as suas alegrias, o seu verdadeiro eu.

O artista, com as técnicas próprias da sua arte, transporta para o seu quotidiano, usufruindo das vantagens que as mesmas lhe permitem, toda a sua capacidade de representar, isto é, de parecer aos olhares alheios aquilo que pretende que os outros vejam. E isso é-lhe vantajoso, porque consegue criar uma imagem ilusória de si próprio.

Enquanto artista, deve adoptar em palco um comportamento, quantas vezes, em total desacordo com a sua própria realidade, sempre com o intuito de melhor brilhar. Deve também optar por uma conduta que lhe permita esconder-se a si mesmo, como se fosse o segredo de quem é, com o intuito primeiro de se proteger.

Foi com estas divagações que ele concluiu que o teatro é a arte da simulação e da dissimulação permanente, porque se simula uma personagem e se dissimula o artista que a representa.

Igualmente verificou que os resultados das actuações de um bom artista de teatro trazem-lhe um sucesso e uma ‘alegria’ muitas vezes efémeras, mas também podem provocar-lhe uma alteração duradoura no próprio comporta­mento, por viver demasiado tempo vidas que não são a sua. Por outro lado, quando o artista, pelo seu esforço e qualidade, assume a personalidade da personagem que representa e passa a vivê-la intensamente, pode aniquilar-se e até perder a sua própria identidade e liberdade.

Quando o artista é realmente grande na arte de representar surge, na vida real, um problema para os seus interlocutores pois nunca sabem se estão a falar com o próprio ou com uma personagem. E, inevitavelmente, acaba por pairar a dúvida se, naquele momento, ele será rosto ou máscara?

O teatro é um mundo estranho, permanentemente ofuscado por uma neblina que impede de ver a luminosidade da transparência e que, na verdade, aponta para uma certa hipocrisia. É como um jogo, cujo objectivo é desvirtuar a verdade através do constante engano subliminar. Poder-se-ia até dizer, com excessiva dureza, que o teatro é, antes de mais, traição. Que o uso e abuso da máscara é essencialmente uma dramaturgia do oculto e da revelação.

A grandiosidade do teatro está na revelação de uma verdade mas, paradoxalmente, isso acontece num espaço a que se convencionou chamar Palco, um lugar de permanentes ilusões.

No entanto, é no palco que os dramas e as paixões surgem sob a luz propícia metamorfoseados pelo esforço inegável dos artistas usando as suas próprias máscaras.

Reinaldo Ribeiro, 13 de janeiro de 2019

 

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Jornal da Associação Gandaia

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2 Responses to Teatro e as Máscaras

  1. Antonio José Zuzarte 2 de Abril, 2019 at 14:44

    Amigo e companheiro, mais uma vez adorei ler os teus escritos. Fico sempre mais informado, sensibilizado pela tua forma de abordares qualquer tema. Em resumo GOSTEI.

  2. Antonio José Zuzarte 31 de Março, 2019 at 22:16

    Obrigado amigo e companheiro por mais este belo texto de reflexão…

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