A Rua 15

By  | 12 de Maio, 2013 | 2 Comments | Filed under: A Região, Locais de Interesse, Notícias

P1080196Antes de mais, e como é muito característico nas comunidades de pescadores, os nomes são decididos pelas próprias comunidades. As alcunhas são aqui uma coisa muitíssimo mais especial. A autoridade é a comunidade, não o Registo Civil. Ora a nomeação das pessoas e coisas é a primeira instância dessa autoridade, o poder que os homens têm acima de todas as coisas, a começar pela sua relação com a natureza. Não é falta de respeito, muito pelo contrário, mas no mundo dos homens…

Ora isto para dizer que a Rua 15, a mais tradicional da Costa da Caparica, chama-se, para todos os outros efeitos, Rua Mestre Adrião. Porém, para quem sabe, é a Rua 15 e pronto.P1080198

A Rua 15 tem este aspeto característico que se pode ver à direita. Com muitos edifícios que são a evolução natural dos palheiros originais que transformaram os nossos areais e dunas, primeiro na localidade referida nos mapas como Cabanas da Costa e depois na nossa Costa da Caparica. Cá na terra, uma terra de alma popular, chamavam-se barracas e não se pensava mais no assunto, que era coisa de gente que não tinha dinheiro para mais e tinha muito mais em que pensar. Porém, agora que a cultura popular ganhou tantos direitos como a erudita, essas construções vernáculas ganharam direitos, até ao nome. Mas, como já dissemos, isso é para todos os outros efeitos.

P1080192Aqui na Rua 15 a vida passa como sempre passou, muita luta, trabalho e tradição. Uma das tradições é o fogareiro à porta fazendo o cheiro do almoço viajar longe e acender estômagos que nem sabem de onde lhes vem o apetite. É a simplicidade, essa força que atraíu tanta e tanta gente a esta terra. Simplicidade e autenticidade, como o peixe, o mar, os homens e a fominha do almoço que tarda.

Mas a Rua 15 tem também um artista, o João Manuel, artista de muitas artes, da música à pintura. Como os nossos leitores se recordarão, Manuel Joaofoi graças a ele que pudemos chegar ao que se pensava ser um Meia-Lua tradicional e referimos num artigo anterior (ver aqui). Ora este artista que podemos ver aqui à direita é também assim uma espécie de alma da Rua 15 e uma alma tão grande que acaba por transbordar para toda a terra.

É ele quem organiza as festas do S. João – na Rua 15, claro está – patrono da Costa da Caparica e que, por essa razão, acabam por ser as festas da terra porque mais ninguém tem uma alma tão grande assim.

Em tempos anteriores, quando ainda havia os magros tostões para isso, era também o João Manuel quem transformava o chafariz da Praça da Liberdade na gruta de Natal, com presépio completo, vaquinha e burrinho incluídos, sem polémica, simplesmente com toda a tradição.

P1080206Uma outra tradição muito peculiar desta rua são as pinturas no chão, pinturas que têm o condão de falar diretamente do amor de quem as pintas para os sentimentos de quem as lê. São mistérios e milagres da tal autenticidade. Coisas a que ainda há quem ligue, quem sinta e quem valorize. Não se compram em boutiques, são simples monumentos da vida, como aquele que aqui mostramos à esquerda.

Qualquer visitante que por acaso ou por indicação aqui chegue, fica logo elucidado, sem qualquer possibilidade de engano. Aqui ama-se o chão que se pisa, reconhece-se o seu valor, não é uma coisa anónima e anódina que podia ser noutro qualquer local.

Não outro local como a Rua 15.

O que pode escapar aos visitantes é a importância que as pessoas, a sua história têm para a história de todos nós, para a diferença dos sítios sem histórias, os sítios planos e chatos. Escapa-lhes porque não conhecem as pessoas, não sabem ver para lá das faces, como na foto dos moradores da Rua 15 aqui por baixo. Quem os veja, pode não saber do Manuel João ao centro, e da sua alma, pode não saber da Adelaide Pataquinho, à esquerda, cuja avó trouxe todos os bebés da Costa da Caparica à vida, quando ainda não havia parteiras nem médicos, só luta e trabalho, nem o Quim Cavalinha, à direita, grande e famoso Arrais, que é a nobreza dos homens do mar, nobreza que tem de ser ganha, não cai de pai para filho.

Para aqueles que atravessam as nossas ruas, cegos pelo desejo da banhoca, distraidos pelas quinquilharias penduradas nas lojas, nem sabem, nem sonham as coisas que a Costa da Caparica tem para contar…

AmeliaManuelQuim

 

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Jornal da Associação Gandaia

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2 Responses to A Rua 15

  1. msantos@sapo.pt 24 de Maio, 2013 at 10:38

    a sra á equerda não se chama Amélia Pataquinho… chama-se Adelaide…

    cumprimentos

    • Coord. 27 de Maio, 2013 at 10:29

      Tem toda a razão! Neta da famosa Adelaide Capote. Foi erro. Muito obrigado pela correção!

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