Alentejo Doutros Tempos

Chegavam ao fim as colheitas e as debulhas dos cereais e era hábito, na casa de meu Avô materno, fazer uma pescaria num dos pégos das ribeiras próximas. Meu Pai, após a morte de meu Avô em 1945, continuou a tradição. Com todos os empregados da pequena casa agrícola lá iam comemorar essa data, como mostra a foto. Com uma pequena rede apanhava-se o peixe para fazer uma boa sopa e uma fritada para beber uns copos e viver esse dia mais alegre, neste Alentejo onde vivíamos e que trago sempre na alma.

Ao escrever esta pequena crónica recordo como os tempos eram outros e como a fauna, que habitava esses pégos das ribeiras, era muito diferente da que hoje se encontra. Com a introdução de espécies exóticas, como o achigã, as carpas, o lagostim de água doce e agora o peixe gato e mais algumas que não recordo, as espécies autóctones, como o barbo, o bordalo, as pardelhas e as enguias, desapareceram dos nossos rios do interior. As enguias devido principalmente à construção de barragens. Até as rãs que, aos milhares, coachavam nesses lugares, para nós idílicos quase não se encontram. Nessas águas, dos anos 40 e 50, despoluídas de pesticidas e outros produtos mais ou menos poluentes, vivemos momentos felizes, de rara felicidade, pois aí aprendemos a nadar, a conviver com amigos da nossa idade e a aprendermos com os mais velhos os segredos da Vida e da Natureza.

António José Zuzarte, Costa da Caparica, 6 de Fevereiro de 2020.

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