O Meu 25 de Abril

350Abri um olho e espreitei o relógio: oito horas já. Mmmm a minha mãe esqueceu-se de me acordar e tinha mais uns momentos de preguiça na cama. Já à porta do próximo sonho a realidade chamou-me: a minha mãe esquecer-se de me acordar? Impossível! Algo diferente deveria explicar a situação.

Levantei-me e fui até à cozinha onde a minha mãe esvoaçava entre fogão armário e frigorífico numa azáfama impossível de seguir sobretudo tão cedo na manhã. De imediato me mandou para a cama, “não te preocupes…”

Estava cada vez mais alerta, ou estaria a sonhar? Pedi explicações. Não era assim que se mudavam num repente – ainda por cima logo de manhãzinha – os hábitos que se lutava para impor na juventude. Para a cama? perguntei, incrédulo.

Ela finalmente parou olhando para mim. Claro que me conhecia de ginjeira, se me desse a novidade, quem me segurava? Mas também não podia deixar de dizer, estava por todo o lado. Resignada confessou: “há uma confusão qualquer… militares na rua, revo…” zás, aí ia eu a correr, sem dar tempo ao fim da palavra, revolução, claro! Estava à espera daquilo mesmo desde 16 de março, dia em que o meu irmão se casou. Estava clarinho como água, pensava eu abrindo já a porta enquanto abotoava a camisa, calçava os sapatos, vestia as calças e não penteava o cabelo, tudo ao mesmo tempo.

“O pequeno almoço, gritava a minha mãe” não chegava para me parar, claro, mas depois “olha o teu pai…” aí o caso era diferente… lá voltei. Tomei o pequeno almoço enquanto ouvia a marcha militar surfando nas ondas e coiso e tal, o comunicado do Comando Central do MFA, tudo na rádio que deveria estar a emitir coisas românticas e bem humoradas mas requentadíssimas, desinteressantíssimas, soporíferas, como tudo desejava ser no meu país. Dizia a voz na rádio para os cidadãos ficarem em casa. Atalhava logo a minha mãe: “vês, vês?”. Eu ouvia, mas não via nada daquilo. Era coisa normal, não ver nada do que me diziam que estava à frente do meu nariz. Pelo contrário, via com muita nitidez coisas completamente diferentes, e dizia o que via, e todos me respondiam logo, “shhh cala-te, isso é perigoso…” e olhavam para um lado e para outro, pois era sabido que havia bufos e pides por todo o lado, talvez mesmo debaixo da cama, atrás das portas ou mesmo nas gavetas.

Pequeno-almoço terminado ainda mais depressa do que o costume e a desculpa certeira, inabalável e rigorosa: Vou ali já venho. Fui, mas quando voltei, já o país era outro. Mas nessa altura ainda não sabia.

Fui a pé a todo o lado. Militares no centro, mas que eu olhava com a sensação de que estava perante um filme. Eles em posição de combate e o povo nas calmas a olhar, tipo no teatro. Eles bem diziam, “cuidado, vão para casa…” Era o ias. Nisso o povéu estava muito mais avançado que os militares. Estava tudo acabado. Também estava tudo por fazer, mas o regime estava liquidado, não tinha hipótese. Aquilo tinha já mudado de mãos, até os militares iam percebendo isso aos poucos.

Nós, o pessoal, sabíamos isso logo que acordámos com as marchas militares. Ainda se falava na rua de ser uma Kaulzada ou coisa do género, mas eram temores antigos a morrerem na praia do futuro.

Menos de uma semana depois, no primeiro de maio, fiz obrigação minha empurrar os amigos escadas abaixo para a primeira grande manifestação. A primeira e maior manifestação da minha vida, explosiva de energia, esmagadora de sentimentos.

Foi um mundo inteiro a abrir-se radiante e enérgico, com as possibilidades todas escancaradas perante os jovens que esperavam entrar no exército estupidamente colonial já no ano seguinte.

Ainda por cima, proibidos de falar sobre isso, como se fosse uma coisa tenebrosa, discutir com os amigos como seria isso de repentinamente estarmos numa savana longínqua de G3 na mão a evitar minas antipessoais. Eu e o Pedro Gamboa fomos até expulsos do Capa-Rica, na rua dos Pescadores, por estarmos a falar nessa realidade que nos esperava dali a pouco. “Desculpem, mas não podem falar dessas coisas aqui” dizia-nos o circunspecto patrão, conferindo se não estaria nenhum bufo nas imediações. Deveria estar, estavam sempre.

Foi assim, de repente, que tudo mudou.

Explicar como tudo era antes é impossível. Ou se vive aquela tenebrosa opressão em que nada nos era permitido, em que o futuro não nos pertencia, em que o medo era companhia inevitável, ou por mais palavras que junte, nunca se vai compreender. Era mau, muito mau mesmo.

Resumindo, sobre o 25 de abril: estava a dormir, e acordei.

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