O Pe. António Vieira, a Lei de Gresham e a diferença entre o que é e o que parece ser

padrevieiraNuma sessão de homenagem da minha Universidade a uma colega tristemente desaparecida precocemente, Mafalda Ferin Cunha, uma outra colega, Isabel Seara, citou o célebre Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real, em Lisboa, em março de 1655.

A citação foi: “Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo.”

Esta diferença entre o dizer que faz ou é, e o fazer ou ser realmente, é, como se vê, uma polémica antiga e, também de há muito considerada como um problema essencial da governação, responsável para o que naquela altura se classificaria como “o desconcerto do mundo”.  Sentimento que tão bem viria a caracterizar o Barroco e que agora nos parece, de novo, tão familiar.

Ora esta diferença constitui assunto de reflexão de longa data, motivadas pelos problemas que a mentira provoca na coisa pública. O Padre António Vieira, na altura, focava este problema dos que apenas “se dizem” dos que são, de fato. Como se sabe, o famoso pregador resolveu mesmo pregar aos peixes por considerar que os homens e mulheres já não queriam ouvir, até porque ser e fazer, realmente, dá trabalho e é muito exigente…

Ainda há poucos anos um universitário, que hoje é Presidente da República, apresentou este mesmo problema, mas com outra abordagem – a Lei de Gresham – aplicando-a aos políticos da altura, concretamente ao seu colega de partido e na altura primeiro ministro, Pedro Santana Lopes.

Esta lei chama a atenção para dois tipos de moeda, a boa e a má, sendo esta má moeda aquela cujo valor real não é aquele que diz ser. Ora a Lei afirma que ambas não podem coexistir num mesmo sistema, a má moeda acaba por expulsar a boa moeda. É natural, se conseguíssemos uma nota de 10 euros pagando apenas cinco, parecia um excelente negócio… só que depois, mais tarde ou mais cedo, tudo perderia o seu valor e o que parecia um ganho terminava sendo uma perda terrível.

Esta é sempre a armadilha das facilidades aparentes. É também o “isco” que qualquer vigarista usa nos seus truques, a proposta do lucro fácil. Obter ganhos rapidamente e sem esforço.

Podíamos imaginar que esta Lei de Gresham era coisa relativamente recente, descoberta da economia, da revolução industrial e do capitalismo, mas não, não é.

A Lei de Gresham foi proposta em 1858, por Henry Dunning Macleod, mas o seu nome evoca Sir Thomas Gresham (1519–1579), um financeiro inglês da Dinastia Tudor. Ainda mais antigo que o nosso Padre António Vieira. Há ainda quem apresente esta lei como sendo de Copérnico, e mais antigas ainda, como, por exemplo, Nicole Oresme (1320 ou 1325 –1382) que foi Bispo de Lisieux e conselheiro do rei Carlos V de França, e mesmo antes, constituindo já uma nota na comédia “As Rãs”, escrita no século V antes de Cristo por Aristófanes, o mesmíssimo autor com que o Teatro na Gandaia se estreou.

Infelizmente, esta questão mantém toda a atualidade, não faltando quem se apresente como sendo aquilo que não é, se vanglorie de fazer aquilo que nunca fez, diga o que nunca aconteceu e prometa o que sabe que nunca poderá cumprir.

Pior, como parece haver falta de peixes na nossa costa, também não adianta muito tentar falar com eles.

Resta-nos a simplicidade do bom senso, tão antigo como estes mesmos problemas, que nos aconselha a desconsiderar as aparências e a valorizar os atos, ter em conta a realidade objetiva e o trabalho efetivamente realizado e verificável e não as promessas e a retórica fácil.

Quando era criança, lembro-me muito bem da história dos dois caminhos da floresta que o herói tinha de escolher: um parecia muito bonito e fácil, prometendo chegar rapidamente e sem custo ao nosso destino e o outro, difícil e trabalhoso, que fazia depender de nós o sucesso da missão. O primeiro, acabava por se revelar num percurso de problemas e desgraças, o segundo, tornava o herói mais forte e, era precisamente essa escolha que fazia do personagem o herói propriamente dito.

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