Uma Papoila Erótica…

papoila

Cresciam pelos trigais, pela borda dos caminhos, pelos pousios, pelos montados destas planícies do Sul. Nós também nascemos e crescemos, como as vermelhas papoilas, por estas paragens transtaganas, onde o Sol nasce primeiro.

À medida que o nosso corpo se desenvolvia também a nossa mente, a nossa descoberta da sexualidade começou também nesses verdes anos. Pequenas descobertas, adquiridas por ouvir os mais velhos falar ou pelo nosso instinto de humanos, de seres vivos que, como todos os animais, faz parte da sua existência… Qualquer pequeno insecto, ave ou mamífero, nasce, cresce e vive para se reproduzir, para dar continuidade à grande cadeia da Vida… da manutenção da espécie a que pertence. Nuns a aprendizagem é muito rápida e, com poucas horas, tornam-se adultos e, de imediato, machos e fêmeas procuram-se para o acasalamento… são animais com vidas muito curtas, que não podem perder tempo. Nos seres mais evoluídos, como os grandes mamíferos, e entre eles o Homem, tudo é mais demorado… tudo isto a propósito de uma simples e bela papoila de que vos quero falar.

São recordações de uma infância, já muito longínqua, mas que não se perderam no tempo… tempo das brincadeiras de miúdos que íamos descobrindo os estímulos sexuais, o sexo como novidade, sem maldade nem desvios estranhos… o início do erotismo. Uma simples flor vermelha e linda aos nossos olhos, servia para imaginarmos nela uma mulher… Quando, ainda em botão, antes de abrir para o Sol, fazíamos dela uma boneca, uma mulher de saias vermelhas, rodadas, com ares de cigana andaluza… pelos ombros, a servir de casaco, as duas sépalas verdes que cobriam as pétalas, estas da cor dos poentes vermelhos, das tardes primaveris da nossa juventude. Do meio das pétalas tirávamos o ovário que ia servir de cabeça da imaginada dama, depois de espetado no pedaço de pedúnculo que ficava junto ao cálice da flor… mas os estames negros, brilhantes, ficavam lá, por baixo das pétalas, da saia vermelha, como os pelos púbicos de uma mulher… era assim a nossa imaginação fértil a funcionar, nas nossas mentes, puras, mas a querer descobrir os corpos despidos, proibidos, para os nossos olhos. Hoje os tempos são outros e, para ver nú integral e tudo o que se relacione com sexo, basta um simples click no computador.

A estória das belas papoilas, por nós humanizadas, aconteceu connosco à cerca de setenta anos. Hoje foi para muitos só uma boa lição de botânica. O estudo da flor, com as suas componentes, sempre interessantes de conhecer, para aqueles que se interessam pelo seu estudo… e uma recordação de infância, para o autor desta foto e deste testemunho que, os mais novos, possivelmente não conheciam… mas, por favor, não destruam as lindas papoilas e admirem os campos vermelhos, que ainda conseguirem encontrar… « Na brancura da cal o traço azul / Alentejo é a última utopia »… como escreveu o poeta Manuel Alegre.

 

António José Zuzarte. Costa da Caparica, 21 de Maio de 2014.

2 thoughts on “Uma Papoila Erótica…

  • 5 de Abril, 2015 at 12:56
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    Muito Bom, parabéns amigo Zuzarte.

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  • 19 de Março, 2015 at 22:49
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    Mais um texto de grande qualidade, carregado de poesia, do nosso amigo António Zuzarte. Só um poeta, que já o era desde miúdo, é capaz de ver numa papoila todo um corpo feminino, carregado de erotismo – e manter, setenta anos depois o mesmo romanticismo, algo ingénuo que tinha então! Parabéns António Zuzarte, continue a brindar-nos com os seus trabalhos…

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