Mário Baldé

By  | 18 Fevereiro, 2016 | 0 Comments | Filed under: Ana Marques, Notícias, OPINIÃO

umaruTalvez seja tempo de vos dar a conhecer um sujeito, a quem os habitantes da Costa Da Caparica se habituaram a ver ano após ano, no mais emblemático Centro Comercial dessa localidade, o senhor Mário Baldé.

Tem como todos nós afinal, uma historia de vida que neste caso merece ser registada pela capacidade que lhe é inerente de fazer face aos infortúnios da vida sem que a vontade de a viver o melhor possível em perpetuo clima de amizade com os que com ele convivem esmoreça.

O Mário Baldé, nasceu na Guiné, mais propriamente na cidade de Novo Lamego, hoje Gabu, em 1952, filho de Fernando Baldé e Yoba Baldé, tem mais um irmão e duas irmãs, o pai comercializava gado, indo ás quintas em redor escolhendo o que lhe parecia em melhores condições e qualidade e vendia essencialmente para os quartéis Portugueses que nesta altura existiam nas ex colónias, visando combater os rebeldes que se insurgiam contra a ocupação Portuguesa naquele território,

Por todo o País abundavam jovens vindos do Continente engajados pelo Governo da altura na pessoa do senhor presidente Américo Tomás e o primeiro Ministro António Salazar, que obrigava todos os mancebos a fazerem serviço militar com ou sem vontade nos Países ocupados há Séculos pelos Portugueses, estávamos numa altura da história em que em quase todos esses Países grupos de homens armados e dispostos a mudar o curso da História se rebelavam contra esta ocupação pretendendo a completa independência grassando uma guerra que parecia interminável e em que pereciam ano após ano jovens de qualquer ideologia cor ou raça numa obrigação tirana para o combate entre iguais.

O Mário ( nascido ) Português, frequentou a escola primaria até concluir a quarta classe na sua cidade natal, tendo então a família se mudado para Bissau, aos 16 aos, ingressou no mundo laboral começando por ser empregado de mesa e mais tarde chefe, do restaurante de um hotel chamado Sol e Mar, por volta dos 20 anos foi chegada a altura de ser integrado nas forças armadas Portuguesas, fez o habitual juramento de bandeira e teve a possibilidade de escolher qual a especialidade que mais o atraia, a escolha recaiu para o comando de operações especiais tendo em vista o facto de poder estar mais perto da família.

Este curso tinha a duração de 6 meses durante os quais a impressibilidade era a palavra de ordem, não tinham hora de acordar, não tinham qualquer tipo de folga, dormiam nas casernas e eram amiudada mente surpreendidos a qualquer hora da noite pelos mais graduados, estando o Mário ás ordens do tenente-coronel Marcelino da Mata, que lhes ordenavam subitamente que se levantassem e vestissem em cinco minutos e se tal não acontece-se não se coibiam de atirar uma granada para o dormitório que podia ou não atingir alguns deles ferindo-os seriamente, o Mário conta que pelo menos três dos seus companheiros perderam a vida numa dessas incursões noturnas, não me parece que o dia a dia destes jovens fosse de alguma forma facilitado antes pelo contrário, mas também me parece que seria pratica usual, embora eu tenha as minhas duvidas sobre os efeitos morais legais e educativos de tal medida.

Acabado o curso, a missão destes jovens era a de se embrenharem no mato, procurando entre a densidade do capim e arvoredo os rebeldes do PAIGC, liderados por Amilcar Cabral que pretendiam tornar Guiné independente pese embora a opinião da maioria dos Guineenses que segundo o Mário só a desejava de uma forma parcial.

Cumpriu três anos ao serviço do exercito e entretanto aconteceu o 25 de Abril, abrindo portas a um sério problema para os que tinham nascido sob o domínio Português e a quem lhes era dado agora a escolher que País e nacionalidade desejavam pertencer, muitos deles viveram durante algum tempo indecisos até que começaram a ver prender e até matar companheiros seus , foi o caso do Mário que reparando no que se passava á sua volta optou por partir para Portugal, fugindo a um destino muito incerto e perigoso.

Comprou um bilhete de avião e com o auxilio de um amigo do pai que o foi buscar ao aeroporto e o instalou num hotel, tratou logo a seguir de se dirigir ao posto de comandos da Amadora ( associação de comandos ) em S.Sebastião para tratar da sua nacionalidade, contou também com a ajuda de antigos companheiros de armas que se juntaram para o ajudarem a nível monetário e na procura de emprego, tendo trabalhado em diversos locais como : fábricas e bombas de gasolina na qualidade de segurança de vigia.

Um dia o Alferes Domingos Pereira Dos Santos seu amigo, propôs-lhe vir ver um terreno que tencionava comprar na Costa Da Caparica, para um futuro e inovador Centro Comercial e o convidou a ser seu subordinado auferindo desde logo e durante toda a construção do mesmo um ordenado, e um apartamento para viver , que mais tarde viria a comprar aquando do seu casamento, tinha como obrigação verificar como iam correndo os trabalhos, que demoraram entre 3 a 4 anos, assim que a obra ficou concluída e pronta a inaugurar ficou com as chaves, tornando-se o braço direito deste amigo, empregador e especialmente benfeitor, que nele depositou toda a sua confiança.

Aqui nasceu o seu filho, anos mais tarde acabou por se divorciar, ficando ele a tomar conta integralmente da criança que criou neste centro, o dono deste espaço morreu prematuramente, aos 42 anos,  tendo passado o mesmo para outras mãos, mas o Mário foi ficando, se ajeitando, moldando-se a esta nova forma de vida, que lhe proporcionava muito prazer e bem estar.

Sendo ele um homem muito afável, sempre pronto e disposto a ajudar todos os frequentadores do referido Centro e habitantes dos apartamentos, assim como qualquer caparicano, num trato sempre cordato, prestativo, simpático de bom ouvinte e acima de tudo com uma postura sempre muito calma e racional, pouco dado a grandes variações de humor ou atitudes mais agressivas ou vingativas, foi granjeando amigos, que faz questão de perseverar já lá vão 30 anos, onde, como em qualquer local,  frequentado por muitas e diversas pessoas, já muitas vezes teve de usar de toda a sua habilidade e sentido de justiça para solucionar alguns distúrbios e conflitos.

O que agora pretendo aqui ressalvar em relação a este homem , é a sua capacidade de adaptação, a sua verticalidade e frontalidade que durante toda a sua vida, fez com que todos os que com ele conviveram, independentemente da sua cor e raça, se tornassem seus verdadeiros amigos e tomassem a iniciativa de o ajudarem a construir uma vida decente, neste Pais que escolheu para viver,ele próprio e com muito orgulho afirma, nunca se ter sentido descriminado em nenhuma ocasião, pela sua cor e origem e diz também,  que se sente como o verdadeiro dono deste Centro Comercial ( O Pescador) que ainda é o principal foco das atenções de moradores e veraneantes da Costa Da Caparica… e ri-se espontaneamente, humildemente, com um brilho de orgulho no seu olhar que não foge nem erra perante os que com ele conversam

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