A Azeitona

« A azeitona já está preta…é tempo de armar aos tordos».

Vivemos numa região de bom azeite. A sua utilização na cozinha alentejana e mediterrânica é hoje, mais do que nunca, promovida devido às suas qualidades para a saúde.

A oliveira, que produz a bela azeitona negra que, por sua vez, nos dá o bendito azeite, é a primeira desta cadeia que tem sofrido transformações constantes.

A sua forma de cultivo, as variedades existentes, os métodos de colheita dos seus frutos, passando depois pelos lagares modernos que hoje conhecemos, todo este mundo novo por que hoje passa o belo líquido doirado que nos chega à mesa, tem acompanhado a evolução que os homens têm através dos anos.

A memória dos mais “velhos” ainda recorda como as coisas se passavam aqui há uns tempos atrás. Este poema, escrito por um anónimo desconhecido, há já muitos anos, representa bem o ciclo da bela azeitona preta:

« Chovem pérolas negras
em frias manhãs de sol sem cor.
A oliveira se queixa,
Não se queixa sem razão.
Que lhe roubam a azeitona
E lhe deitam rama ao chão.
O rancho canta,
enquanto a planta
chora passiva a sua dor.
– Vamos! À mão! Sem bater!
Bem basta o que basta.
A dor tem de ser mais nossa,
porque é nosso todo o querer.
E cantai, moças, a vossa canção,
que a mosca não deu
e o fruto está são.
Assim, negras, uma a uma,
caíram as pérolas todas,
cheias, gordas, lustrosas,
naquelas manhãs de bruma.
Agora moê-las!
Depressa e sem tulha.
E ei-las, brilhantes como estrelas,
mas pretinhas como a hulha,
já na galga, / quase em lama,
olhos de oiro a luzir entre o joio
no tormento do seu drama.
Depois, calor certo.
O preciso.
Se não,
fica oiro no joio encoberto:
Prejuízo.
Calor. Calor e pressão.
Milhares de quilos de peso,
seguido e gradual,
separam o principal
que dentro andava preso.
A força irradiante faz o resto.
O filtro aclara,
o tempo dá brilho.
Assim se nasce modesto,
bom, perfumado como a xara,
doirado, da cor do milho. ».

O ditado popular: “ Deus dá a azeitona, mas o lagareiro dá o azeite, “ assim como a poesia que transcrevemos em cima, mostram bem como a azeitona é merecedora desta crónica, neste Portugal do Sul, onde a açorda só se faz com azeite… e onde: « O azeite e a verdade vêm sempre ao de cima», como diz o nosso Povo.

Monforte, 5 de Janeiro de 2009.

António José Zuzarte.

One thought on “A Azeitona

  • 14 de Janeiro, 2021 at 16:36
    Permalink

    Amigo
    Esta crónica só podia vir de alguém ligado à terra e ao mundo natural.
    Por falares em azeitonas lembrei-me de uma quadra popular:
    Verde foi meu nascimento
    Mas de luto me vesti
    Para dar a luz ao mundo
    Mil tormentos padeci.
    Abraços

    Reply

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