A Magia da Montanha

O seu olhar de leitor perdia-se na contemplação interior da paisagem descrita no livro que andava a ler. À medida que avançava na leitura, parecia-lhe que um pintor ia reproduzindo numa tela as imagens ocultas nas linhas que o autor tinha escrito. A nitidez das cores e os silêncios eram parte integrante da sua imaginação e um complemento da escrita.

Esta capacidade de ver as imagens descritas em textos não lhe era original. Recordou-se de ter lido um livro, ainda na juventude, que o impressionou viva­mente, em que o autor fazia uma descrição tão pormenorizada do sertão no Nordeste do Brasil, que ele ficou com a sensação de conhecer bem aquela região do mundo, onde nunca tinha ido, mas como se lá tivesse vivido a vida inteira.

Desta vez, a paisagem não era a do semi-árido sertão brasileiro, muito pelo contrário, era a de uma arbori­zada encosta nos Alpes Suíços.  

O seu pintor imaginado, mas omnipresente, deveria ter a centelha do génio, pois o quadro que continua­mente pin­tava, tanto reflectia o realismo de Millet, a turbulência de Goya, a luz e os fumados de Turner, o impres­sionismo de Monet ou a expressão e a abstrac­ção de Van Gogh.

Era surpreendente como o estilo de uns fixava a beleza da Natureza e a impressão que esta produzia, enquanto o estilo de outros reflectia uma perturbação interior e uma análise pormenorizada e codificada dos sentimentos mais íntimos das personagens que povoavam o enredo da narrativa.Tudo ali merecia uma observação atenta.

Ele olhava a encosta de uma mon­tanha, parcial­mente coberta de neve e de cumes ocultos pelas nuvens, uma floresta de abetos onde,numa clareira ampla se erguia um edifício imponente cercado por um jardim muito bem cuidado.

Ao fundo do vale podia ver-se uma aldeia de telhados branqueados pela neve, de cujas chaminés evoluíam ténues espirais defumo azulado. Numa pequena colina, sobranceira ao casario, erguia-se a torre de uma pequena igreja e até se podia imaginar ouvir o ecoar do seu sino de bronze derramando no seio límpido do ar o cadenciado das horas. 

Segundo o autor, naquele recanto do mundo tudo era perfeito: o bucolismo da paisagem, o silêncio, a quietude e o ar, puro e frio, impregnado do odor benfazejo dos pinhei­ros da mon­tanha que, como um bálsamo da natureza, purificava os pulmões.

Um caminho de saibro, como uma homenagem ao espaço, ligava a aldeia àquela construção. Serpenteava entre o verde viçoso de um pra­do, por colinas suaves, bosques de pinheiros e até atravessava uma ponte de madeira sobre um ribeiro. Podia-se percorrê-lo devagar e com prazer, pois cada trecho seu era dotado de um sentido e convidava a uma pausa, em que até se podiam sentir os aromas campestres, tão rica em detalhes era aquela descri­ção.

No entanto, o leitor também era invadido por uma sensação indizível, sem saber se esta emanava do edifício ou da montanha. Era como uma energia, talvez mágica, que, de algum modo, o angustiava e atraía.

No primeiro capítulo do livro, o autor descreve os motivos que levaram até ali a personagem principal. Um dos quais era a visita a um primo com tuberculose e internado naquele sanatório, o outro era o seu próprio desejo de aproveitar a estadia para descansar e afastar-se do mundo do trabalho que lhe arrasava os nervos e o esgotava. Não obstante o seu respeito, religioso e inquestionável, perante o trabalho ele preferia dispor de tempo livre, sem entraves, sem o duro peso dos sacrifícios, o tempo intacto que ele poderia moldar a seu bel-prazer, um tempo não compartimentado.

Iria permanecer ali duas ou três semanas num ambiente muito mais saudável do que o da cidade onde vivia, coberta pelo fumo expelido pelas chaminés industriais.

É com curiosidade que, através da leitura, se entra no sanatório. Tudo está limpo e bem cuidado, de modo a proporcionar o máximo de bem-estar aos doentes que nele estão internados. Conhecem-se os aposentos, a rotina e percebe-se que aqueles que ali vivem estão rodeados de um conforto só possível para a bolsa de uma burguesia endinheirada, apesar de todos serem pacientes com problemas pulmonares.

O autor vai apresentando cada um dos ocupantes do sanatório com uma descrição detalhada, embora de uma forma profunda e absorvente, deixando de lado, no entanto, toda e qualquer forma de representa­ção.

Ele não se limita a nomeá-los, a identificar a sua nacionalidade ou no que ocupavam antes a sua vida. Não, ele analisa e descreve os seus sen­ti­mentos, num contraste de linhas claras e obscuras,como numa abstracção, no que é absoluta­mente necessário.

O leitor, seguindo sempre os passos da personagem e, na posição privilegiada de observador ou de voyeur, imiscui-se no quotidiano do sanatório na descoberta íntima daquela nova realidade. Assim, gradualmente, vai tomando conhecimento das alegrias e dos dramas psicológicos de cada um dos pacientes, bem como das suas idiossincrasias mais íntimas.

O tempo vasto do sanatório é ocupado com conver­sas entre os doentes, que vão do banal ao erudito, e que têm os seus momentos mais importantes durante as refeições, na sala de jantar, ou após estas, nos curtos passeios no jardim sombreado pela monta­nha.

É dessa forma que verifica que o sanatório é um microcosmo da Europa no período conturbado um pouco anterior à Grande Guerra.

Estão lá pacientes de várias nacionalidades, ligados apenas pelo débil fio da esperança de cura para uma doença que lhes é comum.

A personagem principal passa a interessar-se bastante por vários temas, como política, trabalho, guerra, arte, religião, filosofia, cultura em geral e começa a amadurecer as suas ideias e até a rejeitar antigas convicções.

Num ambiente em que a tuberculose rouba muitas vidas, ele repara na fragilidade humana sempre sujeita a sucumbir sob a força poderosa e inevitável da morte, mas também da forma como as pessoas reagem à sua inevitabilidade. Se uns lutam por todos os meios para a evitar outros preferem antecipá-la a aguardar que ela chegue. Estes últimos são os que prezam mais a sua liberdade e querem ser, de algum modo, os decisores  últimos do seu próprio destino.

O leitor, atento, nota que as cores que o seu pintor imaginário utiliza nos quadros que faz são cada vez mais sombrias.Agora é o estilo de Goya que se impõe, com referências evidentes à moral, ao estranho e ao bizarro da alma humana.

Mas também repara que a personagem, de uma forma quase imperceptível, começa a desligar-se do tempo, esse resvalar de momentos indivisíveis que aprisionam a humanidade com o seu carácter ilusório, e que o afasta da sua própria carreira profis­sional.

Os meses e os anos em que vai permanecer no sanatório levam-no a analisar, com uma minúcia exagerada, a própria subjectividade da passagem do tempo e a esquecer-se da sua vida anterior.

Igualmente nota em si um processo de desligamento de tudo o que seja exterior àquele seu novo mundo na montanha,incluindo a sua própria família, cujas lem­branças se vão progres­siva­mente esfumando, a ponto de passar a considerar os seus parentes como “gente da planície”,segundo as suas palavras.

Então, mergulha nas profundezas da introspecção procurando descobrir o seu próprio eu, ou aquele outro em que sente estar a transformar-se. No fundo, ima­gina estar a conquistar a liberdade daquilo a que ele próprio chama de “uma vida normal”.

Sente-se atraído pela doença, em particular pela tuberculose, e quer conhecer-lhe os mecanismos e as ambiguidades, ao mesmo tempo que tenta decifrar o insondável mistério da morte.

Tal é o seu empenho nestas pesquisas que a elas se entrega totalmente, sem se preocupar com o mundo exterior. O seu universo passa a cingir-se apenas ao sanatório e até as suas saídas não vão além do jardim.

O envolvimento que tem com os hóspedes é tão intenso que o seu relacionamento ultrapassa o da simples curiosidade. Não admira, pois, que se apaixone por uma misteriosa e encantadora russa, sendo ela um dos motivos para que ele permaneça no sanatório. Mesmo naquelas condições o amor floresce e acaba interrompendo, de algum modo, a insistência com que, até então, discutia a doença e a morte.

O leitor, vê-se de tal modo envolvido no enredo do livro que nem se apercebe que as duas ou três semanas que a personagem tinha previsto passar no sanatório acabaram por se transformar,afinal, em sete longos anos. O que se passava na ‘planície’ só lhe chegava pelos relatos que os novos pacientes lhe traziam.

Convenceu-se de que se abandonasse aquele mundo seria como uma deserção ou uma traição perante as responsabilidades e deveres que tinha para com os habitantes do seu ‘reino’ e perante a sua amada. O seu próprio primo abandonou o sanatório e regressou à ‘planície’, mas ele permaneceu lá, sob o pretexto de também estar doente e precisar de mais tempo para se curar.

Ele tinha ido para a montanha para evitar a ordem e a disciplina, a mediania e o utilitarismo que a planície lhe tinha imposto até então. Como poderia agora trocar a liberdade e a volúpia, a eternidade e a genialidade alcançadas pelo trabalho e o progresso?

No contacto com a doença e a morte ele desce ao reino das trevas e dos mortos e pensa ter encontrado ali algo desagrado e transcendente, além da sublima­ção da matéria e da vida.

Naquele ambiente de estagnação e decadência que se simboliza pela ausência ou supressão do tempo, a que a montanha coberta de neve imprime um carácter mágico, espiritual e de sonho, ele descobre que o lugar do Homem é entre a loucura e a razão, e que a morte e a vida são complementares, não excludentes.

O seu mundo de esquecimento é alterado com a morte da mulher que ama e pelo espantoso ruído que o trovão da guerra que ecoa pelos céus da Europa.

Ele que, de modo voluntário, foi prisioneiro de uma letargia e de um sonho, liberta-se da magia que a montanha exerce e dela é expulso.

Volta para a planície, para onde sabe que não mais pertence.

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