A MÚSICA

A MÚSICA

Quando sente o peso da solidão, ele procura o refúgio na música, pois encontra nela, simultaneamente, consolo e prazer.

Sim. A música é a grande fuga da realidade que lhe permite criar um mundo paralelo, quase puro, onde reina a beleza e a harmonia.

Ele gosta de se sentar na penumbra tranquilizante da sua sala a ouvir uma sinfonia – a composição musical que mais lhe agrada. Nesses momentos, todo o seu corpo e todos os seus sentidos, bem como aquilo a que os românticos chamam de alma, ficam impregnados com a suavidade da música e, então, ele sonha.

Leu num dos seus livros que os Gregos antigos, cultores do pensamento filosófico e amantes do belo, chamaram à música, ‘a arte das musas’. Ele não podia estar mais de acordo.

Muito antes dos Gregos, já os homens primitivos observando as aves canoras e escutando-as nos grandes silêncios da Natureza intocada, ficaram encantados e sensibilizados com os seus trinados e procuraram imitá-las. É bem possível que a música seja o fruto dessa imitação antiga e que a voz humana tenha sido o seu primeiro instrumento musical.

Nos seus permanentes monólogos interiores, ele muitas vezes questiona-se: mas, afinal, o que é a música? A definição mais simples e facilmente identificável que encontra é aquela que diz que a música é uma combinação de sons e de silêncios, numa sequência simultânea ou em sequências sucessivas e simultâneas que se desenvolvem ao longo do tempo. Neste sentido, a música engloba toda a combinação de elementos sonoros destinados a serem percebidos pela audição.

Naturalmente, ele sabe que também se pode definir a música como uma forma de linguagem que se utiliza da voz, de artifícios como o assobio, e de instrumentos musicais, para expressar algo a alguém. A música é uma forma cultural, uma linguagem universal, e não se conhece nenhum agrupamento humano que não possua mani­fes­tações musicais próprias. No entanto, durante muito tempo, e nas sociedades ocidentais, acreditou-se que o conceito de música se referia apenas à música europeia.

No isolamento em que vive, ele permite-se a liberdade de pensar amplamente em assuntos que, até então, pouca atenção lhe tinham despertado.

Era o caso da música. Limitava-se a ouvi-la e a gostar de a ouvir. Um dia, deleitado a ouvir as suas sinfonias, pensou que outras pessoas gostavam de géneros musicais totalmente diferentes e que isso se devia porque, também a eles, a música lhes transmitia as maiores sensações de prazer.

Sentia que a emoção se manifestava individualmente, porém, reconhecia que quando se reúnem pessoas num concerto para escutar o mesmo género musical, que os sensibiliza da mesma forma, então a emoção que a música transmite deixa de ser individual e passa a ser colectiva.

Deslocando-se pela geografia musical do mundo, com todas as suas imensas variedades, ele deduziu que o género musical que mais se difundia em cada sociedade estava intimamente ligado com o grau de cultura que cada povo recebia.

Na sua constante viagem pela memória, recordou-se de um distante fim de tarde africano. Ele estava sentado na varanda da sua casa e deslumbrava-se com a beleza sempre repetida do quente e colorido ocaso, quando escutou no aparelho de rádio uma música que ele desconhecia e que o sensibilizou.

No final, o locutor disse o nome da música, que ele tratou de anotar num papel. Pensou que quando tivesse oportunidade, iria procurar o disco e comprá-lo.

Mais tarde, quando deambulava pelas ruas de uma grande metrópole de um continente ainda mais distante, ele parou em frente de uma loja de discos. Do interior escutava-se uma música que o fez estremecer. Entrou imediatamente na loja e perguntou que música era aquela. O simpático vendedor satisfez-lhe a curiosidade dizendo que era a Ouverture 1812, de Tchaikovsky. Com um súbito tremor, ele tirou da sua carteira um pedaço de papel e comprovou que aquela música era a mesma que tinha ouvido naquela tarde em África.

Aquele disco foi, sem dúvida, a sua iniciação nos encantos da música clássica e nela ele encontrou um mundo, digamos, diferente, de transcendência, de alegria, de paz e da harmonia universal.

Mesmo nos momentos mais escuros da sua existência, ele não se acabrunha e socorre-se da música para lhe iluminar os caminhos. E ele deleita-se então escutando As Quatro Estações, de Vivaldi, a 9ª Sinfonia, de Beethoven, ou o poema sinfónico Die Moldau, de Smetana, entre outros. Porque a música é bela, a música é arte, a música afaga-lhe os sentidos, e ele viaja, sonha e o seu espírito, antes sombrio, resplandece.

Talvez a música seja a arte das musas, mas não foi certamente com as suas lágrimas que as emoções que ela propicia foram geradas.

Reinaldo Ribeiro

 

16JUN2022

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