Carta aos Meus Filhos

Meus filhos

Ao Rui e à Susana

Como pai, alimentei o desejo de vos falar de tantas coisas du­ran­te a vossa infância e adolescência e, afinal, por um motivo ou outro, quase nunca o fiz, embora consi­de­rasse ser essa a minha obrigação.

Agora, que atravesso o Outono da minha existência, e embora já seja um pouco tarde, resolvi fazê-lo, não obstante ainda me sentir inseguro, sem saber bem por onde começar. No entanto, é forçoso que esta “nossa conversa” acon­teça – ainda que se limite a um sim­ples monólogo escrito numa carta.

Penso que falar sobre a vida talvez seja um bom ponto de partida. E porquê? Porque, na minha opinião, a vida é tudo, e é total­mente abrangente e dominadora, pois compre­ende aqui­lo que fomos e somos, o que pensamos, o que sentimos e o que faze­mos. Ao con­junto destes factores que nos ocupam a mente e o corpo desde o nasci­mento até à morte, chamamos viver.

A nossa existência já é, sem dúvida, um acto com­plexo e difícil de cumprir pois independe totalmente da nossa von­tade. Por muito que a tentemos moldar à nossa própria manei­ra, poucos ou nenhuns resultados alcançamos porque ela é escor­regadia, mutante, inapreensível e está sempre a passar. Tal como um rio, a vida corre seguindo os acidentes do terreno, precipi­tando-se aqui em fantásticos turbilhões num estrépito espu­moso ou preguiçando acolá em lentos remansos, mas tal como a água que nele corre nunca é a mesma, também cada nosso amanhã nos traz um novo amanhecer. Poucas vezes temos a oportu­nidade e a convicção necessárias para escolher e se­guir um determi­nado caminho, limitamo-nos a seguir-lhe o curso.

Insensível e dissimuladamente, somos quase sempre coa­gidos a refrear ou a emendar os nossos passos devido aos obstáculos que nos surgem pela frente e às restrições que nos são impostas, sejam estas motivadas pelas leis dos homens, pelos acasos, pelos valores morais incutidos pelas reli­giões e pela cultura, pela nossa própria hesitação e incer­teza, pelas necessidades, ou, ainda, devido a essa força imaginária e poderosa a que chama­mos des­tino.

Quando nos desviamos do per­curso ideali­zado, elimina­mos de nós mesmos o livre-arbítrio, princípio fundamental que conduz ao nosso bem supremo e inalcançável: a liber­dade. Sempre que assim agimos, violenta­mos o nosso que­rer ou desejo e passamos a vaguear por cami­nhos ínvios, quantas vezes contrários à nossa consciên­cia. Imagino que, provavel­mente, já sentiram este descon­forto.

Os poetas, frequentadores de outras atmosferas e amantes do belo dirão, no seu permanente devaneio, que viver é apre­ciar com des­lumbramento um novo amanhecer ou um novo crepúsculo, ou­tros, mais pragmáticos que eles, acharão que viver é a fatali­dade de cumprirmos o nosso inevitável destino. Talvez os primei­ros, sonhadores por excelência, estejam mais próximos da pleni­tude da vida, mas só eles têm disso cons­ciência, já os segundos, afirmando a sua razão, sentem-se mais próximos da realidade.

Na verdade, a vida é como um jogo, inevitável e desco­nhecido, contra um adversário incons­tante e às vezes espan­toso, cujo único objectivo é a busca da felicidade. Aparente­mente, esse jogo parece não ter regras ou, se elas existem, são totalmente aleató­rias e tão imprevisíveis que nós, os participantes, nunca podere­mos prever a jogada seguinte. Contudo, é com encan­to que neste jogo, algumas vezes, des­co­bri­mos os misterio­sos desígnios que a Natureza nos reservou.

Metaforicamente, direi que a vida é como uma íngreme es­ca­daria, cujos degraus galgamos a correr no seu início; depois, quando a impetuosidade da juventude diminui, passamos a vencê-los com mais parcimónia; finalmente, com o avançar da idade, a escadaria vai ficando mais e mais difícil de subir, até que chega o momento em que, relutan­temente, somos força­dos a admitir que não conseguimos transpor nem mais um degrau. Então, ali fica­mos, derrotados, olhando tris­te­mente o caminho percorrido e sem coragem para enfren­tar os restantes degraus que ainda restam vencer. Nesse momento, a vida aproxima-se, apressada e inexora­velmente, do fim. Mas esta é uma fase que não vos deve preocu­par, pois ainda estão muito longe de a alcançar.

No entanto, e apesar de tudo, é preciso lutar incessante­mente no sentido ascensional e continuar a estabelecer objec­tivos. Somos motivados pelos desejos que irrompem dentro de nós, pois eles são o motor que nos faz olhar em frente e nos fazem caminhar pela senda da vida na busca da sua realiza­ção.

Quando, por motivos vários nos desinteressamos de perse­guir os nossos sonhos, empobrecemos. Cada desejo enri­quece-nos mais do que a posse, sempre falsa, do objecto do nosso desejo.

Pois bem, podemos dividir a nossa existência em fases dis­tintas: a idade da inocência, a idade da afir­mação, a idade da razão e a do declínio. Natural­mente vive­mos cada um destes períodos de um modo distinto.

No primeiro, somos ainda tão jovens que julgamos que o mundo tem a nossa idade e a nossa pureza e entregamo-nos com candura às vontades alheias. É a idade da inocência, do deslumbra­mento e a da mais virginal curiosidade, em que não existe futuro. Curiosamente, nesta fase, os pais são dominados por um sentimento misto de orgulho e vaidade pois sabem que é através deles que o seu filho se define aos olhos do mundo.

Meus filhos, posso dizer-vos que esta foi a fase em que a vossa presença encheu completamente de ternura o meu coração e em que a paternidade se manifestou em mim na sua maior intensidade. Jamais esquecerei os vossos risos cristali­nos e os vossos titubeantes primeiros passos; a surpresa que experi­mentavam ao verem um pássaro levantar voo quando o tentavam apanhar; a vossa frustração por não conseguirem segurar a água do rio que corria livre entre as pedras da mon­tanha e se escapava por entre os vossos dedos; o encanto de sentirem os raios do sol do entardecer a incidir-vos nos olhos brilhantes; a descoberta da vida num carreirinho de formigas quando observavam com curiosidade a sua rotina laboriosa; a alegria incontida e conta­giante de correrem atrás de uma bola; a vossa excita­ção quando, encavalitados nos meus ombros, corríamos pelos prados com a brisa a levantar-vos o cabelo e sentindo as vossas mãos, num desespero feliz, segurarem-se à minha cabeça; ou, então, o susto tranquilo que experimenta­vam quando, ao cavalga­rem nos meus joelhos, eu fingia que o cavalo tropeçava e os seus cavaleiros caíam desam­pa­ra­da­mente entre as minhas pernas entreabertas.

Estas recordações, que me transmitiram felicidade, pro­vam-me que entre pais e filhos há uma corrente simbiótica de afectos e de cumplicidades que surge no nosso íntimo, nascida num lugar incerto, mas que eu julgo lo­ca­lizar-se entre os sen­timentos e a alma. À falta de outra designa­ção, chamo-lhe a fonte do amor, pois é daí que brota, num movi­mento per­pétuo, o puro mel do carinho, do amor e da amizade.

Com o decorrer do tempo, o vosso carácter come­çou a for­mar-se com os exemplos que viam quer no pai, quer na mãe ou naqueles que os acarinhavam. Julgo que esse é o momento mais delicado e mais importante no crescimento de uma crian­ça, mas também é aquele em que os pais estão mais sujeitos ao erro.

Entretanto, imperturbável, o tempo continuava o seu curso e, gradual­mente, vocês, meus filhos, foram deixando para trás a infância luminosa e entraram com a energia natural no mundo da adolescência.

Nos recônditos do vosso íntimo surgia agora o entendi­mento das coisas, havia uma insuspeita vontade própria a impor-se e uma neces­sidade de afirmação perante o mundo que explodia nos vossos peitos como um vulcão no seu início.

Ambos tiveram sonhos, mesmo muitos sonhos, sem sabe­rem ainda que a vida é, ela própria, um sonho. E, enquanto alimen­tavam um projecto ou um devaneio, crescia em vós uma con­tagiante alegria de viver.

Essa foi a fase das manhãs triunfantes em que a palavra derrota não existia, porque sentiam que a vitória era o vosso desígnio e que esta dependia exclusivamente do vosso querer e da força ilimitada da vossa juventude.

Os conhecimentos académicos que a escola vos ia providen­ciando aliavam-se ao sentimento crescente da camaradagem e ao da ami­zade mais sólida que existe entre iguais. A amizade é fun­da­mental, pois nós só nos tornamos nós próprios graças aos outros e também porque o eu é um material poroso e não uma caixa fechada.

Surgiram, então, novos gostos, novos hábitos, novos prazeres e até uma certa rebeldia que se manifestava contra o quotidiano fami­liar. Sem o notar estavam a moldar o vosso carácter e a cons­ciência que o comanda. E esta é a forma mais alta da razão. É a razão dentro da razão.

As vossas realizações enchiam-me de um justificado orgu­lho e eu, feliz, intimamente sorria. 

Gostaria de ter acompanhado mais e melhor esta fase da vossa vida, mas, como me aconteceu muitas vezes, fui incapaz de o fazer. Construí sonhos grandiosos, impossíveis às vezes, porém, contra a minha vontade, o imponderável deles sempre me fez deslizar.

Mas continuemos a nossa viagem pelos caminhos da vida. No fim da adolescência dá-se uma grande transformação e os nossos pensamentos ganham uma nova roupagem, mais sóbria, porque são eles que fazem a transição da adolescência para a ida­de adulta. É a partir daí que outros valores, até então ignorados ou desva­lo­rizados surgem, como por encanto, e se impõem como parte importante do nosso carácter.

Contudo é com os erros e fracassos que experimentamos na luta pela afirmação, e que só a vivência nos dá, que nos tornamos adultos responsáveis. É a altura em que se volta a recuperar os sonhos, desta vez não tão fantasiosos, mas com os quais nos sentimos capazes de mudar o mundo.

Um dos valores que se impõe como fundamental é o da responsabilidade. Sentimos que ao criar a nossa própria famí­lia, passamos a integrar um núcleo mais alargado da socie­dade que nos estava vedado, ou seja, o dos adultos.

Passamos, com alguma arrogância, a questionar toda a or­gânica que move as sociedades e, para isso, procuramos ex­pandir as fronteiras do nosso conhecimento e da nossa cultura. Ao fazê-lo escancara­mos as portas de um mundo novo e descobrimos que somos tão adultos como aqueles que as go­vernam, os quais, até então, julgávamos superiores.

O factor trabalho tem aqui um papel preponderante. Com denodo, procuramos afirmarmo-nos dentro da nossa profissão e queremos ser reconhecidos por isso. É com espanto primeiro e com vaidade depois que percebemos que, afinal, somos nós os construtores da humanidade. Que o nosso trabalho é o mo­tor que faz movimentar o mundo e que nós somos peças im­por­tantes da sua engrenagem.

Neste período da vida há um ciclo que se completa: perde­mos o despreocupado estatuto de filhos e passamos a assumir um outro, muito mais responsável, o de pais.

Este é o período que vocês, actualmente, atravessam.

Com o amadurecimento, que o tempo se encarrega de nos trazer, descobrimos novos valores, prazeres e sentimentos.

Penso que é nesta fase que passamos a sedimentar a ami­zade pela frequentação de amigos que partilham os mesmos gostos e vivências; o conteúdo das nossas conversas evolui para campos mais elaborados. É, então, que introduzimos a palavra passado, fruto das nossas próprias experiências: passamos a discutir assuntos da política – e descobri­mos que a nossa vida, é, essencialmente, um acto político; a cultura passa a ter um peso específico que, até então, na maior parte das vezes, não tinha; surge o questiona­mento das reli­giões que até aí se limitavam a ser uma crença, ou não; a própria sociedade, com todas as suas incongruências, passa a ser analisada e, sem darmos por isso, somos dominados por uma espécie de angústia que surge da constatação das enormes diferenças sociais que dividem a humanidade; é neste período que compreendemos aquilo que os ardores da juventude não nos permitiram questionar.

Com o passar do tempo, cada vez mais procu­ramos o enten­dimento das coisas e a sedimentação dos conhecimentos adquiridos. É quando, com uma curiosidade já madura, passa­mos a cultivar o espírito e ensaiamos os primeiros passos na vã tentativa de descobrir o que existe para lá do tempo. Chamo a esta a fase da razão.

Depois, quando vemos os raios do ocaso esmaecerem-se no hori­zonte, desinteres­samo-nos cada vez mais do mundo mate­rial e já não procuramos as alegrias do futuro.

A partir daí instala-se, definitivamente, a noção de como a existência é curta, estéril e sem sentido. Olhamos para trás e a memória, essa consciência implacável inserida no tempo, mostra-nos os acertos e os erros que praticámos e até os actos que não tivemos a coragem de assumir e que julgáva­mos es­que­cidos. Sentimos um relativo orgulho com algu­mas das nossas realizações e encaramos as outras, menos conse­guidas, como necessárias à caminhada.

Nessa análise diria, com convicção, que a quase totalidade dos nossos sonhos, ou objectivos, fica invariavelmente por realizar. E, muitas vezes, uma frustração real, dolorosa, inva­de-nos o espírito e a grande dúvida existencial impõe-se: Afinal para que vivemos?

Porém, neste ponto, pouco adianta obter respostas. O de­sin­teresse e a apatia já se instalaram no íntimo de cada um. Esperamos apenas que o sofrimento não acompanhe o inevitá­vel grand finale.

Digo-vos isto com algum conhecimento de causa por que já che­guei a uma altura da vida em que me abandono, com fre­quên­cia, aos meus demónios ou ao meu génio e sigo uma lei miste­riosa que tanto me ordena que me destrua como que me trans­cenda.

Filhos, falemos agora de algumas particularidades.

Existem dois princípios básicos, intima­mente ligados, que segui­mos afincadamente ao longo da existência: a busca da felicidade e a fuga ao sofrimento.

Quanto à felicidade, que eu defino como um sentimento tranquilo, contente e seguro da inocência, as emoções que lhe estão associadas confundem-se facilmente com o prazer. No entanto, a sua permanência em nós é sempre fugaz, porque a felicidade é mutante, temperamental e, absolutamente, indivi­dual. A felicidade pressupõe o desejo que temos de paz, de bem-estar e de uma certa har­monia com o mundo. É como uma fonte na montanha de onde brota, ininterrupta, uma torrente de sorri­sos doces.

O outro princípio, que temos sempre em mente, e que é consequência do desejo que temos de felicidade, por ser o seu contrário, é o da fuga ao sofrimento. Porém, para a encetar­mos precisamos de saber, antes de mais, qual a sua natureza, a sua origem, a sua cessação e qual o caminho que conduz a essa cessação. Não é uma meditação fácil, pois exige um esforço enorme de alheamento do contexto material em que estamos inseridos, isto é, precisamos transcendermo-nos, mas, paradoxalmente, torna-se necessário ultrapassar esse dese­jo egoísta de felicidade que nos domina. Os seguidores dos ensi­na­mentos de Buda parecem ser aqueles que mais se preocu­pam com a questão do sofrimento.

No entanto, há outros aspectos da vida que julgo igualmente importantes e que quero aqui falar-vos.

Penso que as relações humanas são essenciais para que possamos ter uma vida harmonicamente conseguida.

Essas relações baseiam-se em sentimentos que vão diver­gindo uns dos outros de acordo com a idade em que os experi­mentamos.

Assim, na infância, o nosso espírito está im­pregnado do amor que recebemos dos pais e parentes. E como ele é intenso e natural. Os amigos começam por ser uma extensão da família, mas, ao compreendermos que são diferentes da famí­lia, o amor que sentimos por eles muda e começa a transfor­mar-se no embrião da amizade.

Na adolescência descobre-se a atracção pelo sexo oposto e aí há uma nova surpresa: o sentimento que cresce em nós é diferente do experimentado com a família e com os amigos e chamamos-lhe amor.

Só mais tarde alcançamos o intenso e profundo significado da palavra “Amizade”, um sentimento que nasce da conjugação de desejos e gostos comuns e que é um artifício social, sem qualquer significado espiritual. Devo dizer-vos que a verdadeira amizade procede a nossa escolha de uma liberdade voluntária, nos antípodas de uma servidão paralelamente qualificada. Eu sou mais favorável à ternura, quando envolve a amizade, do que propriamente ao amor.

Considero que há valores morais que devem estar sempre no primeiro plano do nosso comportamento. Aquele a que dou mais importância é o da Verdade.

Tendemos a considerar, em primeiro lugar, a nossa verdade em detrimento das verdades individuais que os outros também têm. Este é um erro comum que deve ser compreendido para poder ser corrigido, pois como escreveu, com muita objectividade, António Machado, um poeta espanhol: “A tua ver­dade? Não, a Verdade, essa vem comigo buscá-la. A tua guarda-a para ti”.

Sabemos que não podemos desembaraçar-nos da ideia da verdade e não a podemos trocar pela ideia da eficiência. A Verdade paira sempre acima de tudo e, quanto mais a procura­mos, mais íntegros nos tornamos.

Outro assunto a que dou muita importância é o do nosso comportamento em relação aos nossos semelhan­tes.

Ao longo da vida tenho observado que nós temos a propen­são para catalogar as pessoas em categorias distin­tas, de acordo com o modo como são, pensam ou agem em relação a nós próprios. Eis, sem ser exaustivo, alguns desses aspectos que acabam por ser factores de divisão em vez de união: família, credos religiosos, estatuto social, profissão, idade, ideologia, origem (econó­mica e geográfica), cor da pele, cultura, etc.

Procurei sempre um bom relacionamento com todas as pessoas, independentemente, do rótulo que lhe tivessem cola­do. Julgo que fiz a opção correcta, livre de pré-julgamentos, pois permi­tiu-me conhecer pessoas fascinantes que, de outro modo, teriam sido descartadas antes mesmo de ter tido a oportuni­dade de as conhecer.

Considero que a grande riqueza da vida está, precisamente, no convívio com os outros, na troca de saberes, na miscigenação de culturas, na curiosidade que temos das coisas e na descoberta do nosso semelhante. Como pai, tomo a liberdade de vos aconselhar a reflectir sobre este aspecto.

A sociedade moderna, materialista, ao impor o conceito da ‘viagem para lugares exóticos’ esqueceu, deliberadamente, que nesses ‘paraísos’ existem pessoas com modos de vida com­pletamente diferentes. E, no entanto, deveriam ser elas e não a paisa­gem o maior motivo de interesse para o turista.

Na minha deambulação pelo mundo verifiquei, quase sem me aperceber, de que o relacionamento com os outros era apenas um dos caminhos para a ambicionada felicidade, mas que, acima de tudo, era indis­pensável entender a palavra “felicidade” como re­com­pensa e não como um fim.

Meus filhos, apesar da carta já ir longa ainda quero falar sobre mais um ou dois assuntos que considero rele­vantes.

Um deles tem a ver com o lugar em que nos colocamos na sociedade. Refiro-me à nossa posição em relação ao espectro político ideológico em que os homens se dividem na socie­dade e que tem tudo a ver com a nossa orientação moral.

Para simplificar as coisas costuma-se fazer uma separação entre esquerda e direita, porém, esta, é uma divisão débil que não traduz com objecti­vidade a razão que respeita os dois campos.

A posição de esquerda aceita ou suporta a igual­dade social e preocupa-se com os cidadãos que são considera­dos em desvantagem em relação aos outros, partindo do prin­cípio que há desigualdades injustificadas que devem ser redu­zidas ou abolidas. A posição de direita, geralmente, está des­provida dessa aspiração igualitária, pois preocupa-se mais com os valores tradicionais, a defesa intransigente da lei e da ordem, a restrição do poder do Estado, e está associada ao liberalismo.

Sem me alongar direi que fiz a opção pela primeira, isto é, procurei sempre ver o Homem como um igual, sem restrições e, acima de tudo, alimentei o desejo de o ver livre como uma águia no céu sabendo, no entanto, que a nossa liberdade é uma utopia, um sonho ainda longe de se realizar.

É, tal como a felicidade, apenas um caminho que traçamos na nossa consciência. Nessa caminhada conseguimos soltar algumas grilhetas que nos oprimem, no entanto, outras logo surgem para as substituir e nós nunca nos sentimos totalmente livres. Creio que essa plenitude só é alcançada na absoluta solidão do nosso pensamento.

Outro assunto, para mim fundamental, que também vos quero transmitir relaciona-se com a “Cultura”. Muitas vezes temos a tentação de associar a cultura apenas aos conhecimentos académicos. Penso que não podíamos ser mais limi­tativos! O conceito de cultura é muito mais abrangente do que isso, pois, abrange ainda as crenças, as artes, a moral, as leis, os cos­tumes e tradições, além de todos os outros hábitos e capacidades que adquirimos como membros da sociedade.

A cultura é criação. Não só recebemos a cultura dos nossos antepassados como também criamos elementos que a reno­vam. A cultura é um factor de humanização. Só nos tornamos homens porque vivemos no seio de um grupo cultural. A cul­tura é um sistema de símbolos compartilhados com que inter­pretamos a realidade e que conferem sentido à nossa vida de seres humanos.

Dentro dos componentes gerais da cultura destaco, como preponderantes para a formação da nossa consciência, o meio social em que vivemos, o conheci­mento que vamos adqui­rindo com o tempo, a curiosidade e a própria arte. Nesta, reconheço-lhe uma função mágica, a neces­sidade humana de a criar e até a sua paradoxal inutili­dade.

Creio, firmemente, que é na leitura dos bons livros, que está um dos adubos mais importantes para a cultura frutificar, pois, além de ser o meio que mais nos permite aproximar da liberdade total, também nos alarga os horizontes do nosso mundo interior.

Como é evidente, há muitos mais aspectos da vida que não mencionei aqui, por considerar que essa seria uma missão impraticável. Numa idade em que as forças já me abandonam, quando o rio da minha vida se aproxima do vasto oceano onde se vai diluir, tenho consciência de que não realizei grande parte das coisas que imaginei fazer, assim como aquilo que pensei dizer-vos vai ficar inevitavelmente incompleto.

Meus filhos, não quero terminar esta carta, que foi surgindo ao sabor do acaso, sem dizer que procurei ser pai, da melhor maneira que pôde e soube. Mas, nessa minha tentativa, errei muito, muito, e esses erros, que lamento, foram fruto da minha própria ignorância e inexperiência, agora impossíveis de corrigir. No entanto, olhando para vocês, vejo honestidade e integridade, “virtudes” fundamentais num ser humano e ficarei feliz se algo do que aqui escrevi puder servir-vos de orientação para que trilhem os vossos próprios caminhos com a esperança de um amanhã melhor.

Resta-me, finalmente, dizer-vos, com toda a sinceridade que em mim existe, que o meu coração sempre transbordou com o amor que um pai pode ter pelos seus filhos.

Reinaldo Ribeiro

11AGO2014

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