Geopolítica e DAESH

300No passado dia 21 de junho a Res Pública dedicou-se à Geopolítica (clique para ver a notícia) com uma conferência de Andrade da Silva sobre o tema.

Aqui publicamos o artigo de Andrade da Silva que serviu de base À conferência e ao debate de forma a que o extenso auditório do Notícias da Gandaia possa acompanhar este tema da maior importância e atualidade…

 

DAESH  UM QUASE NADA, OU UM QUASE TUDO?

 

Agradeço o convite do Reinaldo para estar aqui, hoje, convosco, a fim de pensarmos, em conjunto, enquanto cidadãos de Portugal, da Europa e do mundo, numa realidade internacional, europeia e nacional complexa, que só nos pode desassossegar e, muito, para não ser alarmista, mas de facto, devo dizer – muitíssimo, por causa, mesmo, do sossego de muitos outros, que pode ser trágico.

Teremos de nos desassossegar totalmente, com toda a serenidade, para desassossegarmos, sobretudo, o governo, o Presidente da República, o Parlamento e a Nação para esta realidade – DAESH  – e as ameaças à paz mundial que crescem com grande perigo no Médio Oriente, onde, o DAESH  pode ser um peão. Será,  mas  pode querer e acreditar que é um cavalo, torre ou bispo ou um conjunto destas peças para darem um cheque mate a esta nossa sociedade-civilização que associam à ideia milenária de infiel, indigna e ocupante de um território sagrado – o Califado.

Ideia que, como instrumento, é fundamental, para combater no terreno por objectivos bem mais materiais: poder político e económico sobre uma vasta área territorial com importantes jazidas petrolíferas, de modo, a constituir-se num Estado – Nação com um povo, fronteiras, forças militares, enfim, um estado, como outros que sobre massacres emergiram, não tão longe no tempo, como isso. Há um século, a Turquia com o massacre de um milhão de arménios, assim se constituiu. Contudo, neste momento, esta pretensão  do DAESH está a ser fortemente contrariada no terreno operacional, pela estratégia militar, porém, estamos no princípio da inversão da progressão bastante vitoriosa deste DAESH, digo,  deste, porque outros poderão emergir.

Todavia, nesta abordagem não nos podemos esquecer do que Eduardo Lourenço nos diz, vivemos todos nos arredores do país – Mundo – os EUA, que, segundo o mesmo autor, são seguidos pela China, tendo-se esquecido de referir a Rússia. Parece que, de facto, os EUA são o país- mundo, que detém a máxima violência incontornável e incontrolável por todos os outros, e, mais acentuadamente, por nós, Portugal, já, periferia dos arredores.

Seja como for,  temos de ter presente que a China, e mais decisivamente a Rússia – que quer ganhar o seu estatuto de país – mundo –  jogam um papel determinante quer quanto às pretensões do DAESH , mas, sobretudo, às suas  próprias, acerca  do domínio do bem superlativo – o petróleo, que traz em guerra fria, alguns já dizem, quente, a Arábia Saudita e o Irão que, com Israel,  são  autores regionais  principais nos acontecimentos que têm, desde há bastante tempo, ali, lugar. Sendo que a Arábia Saudita desempenha o máximo papel de destabilização de toda aquela zona, como o fez com  a dita primavera árabe, a qual só podia resultar no que resultou – destruição da Líbia, instalação de um estado de forte ambivalência no Egipto, etc.

Contudo, deste desastre esperado e previsto por alguns, nunca escutados, fica uma herança muito positiva – um rasto de libertação da mulher que terá provavelmente as maiores consequências no futuro. Caminho de libertação  reforçado, ainda, mais, pelo papel das milícias femininas curdas  na guerra contra o DAESH  que, para além da sua bravura operacional, vão buscar aos fundamentos da estratégia assimétrica, um forte motivo de perturbação aos jihadistas. Segundo a IDEIA que os motiva, também, morrer pela arma de uma mulher será motivo para não verem a face de Alá, o que ou  os endiabrará mais na luta; ou o sucesso do ataque daquelas pode, naturalmente, acelerar as deserções e a desmotivação de combater, até que seja encontrado o antídoto. Este facto associado aos insucessos actuais na guerra aberta, tanto pode estimular a deserção como os comportamentos de mártir. O futuro próximo nos  dirá…

O Irão neste xadrez é muito importante, na medida em que a aproximação dos EUA resultar no controlo da sua produção do armamento atómico, passando a  ser  um perigo contido que, no entanto, poderá vir a ser desequilibrado se as alianças entre os poderosos não for EUA – Rússia, mas Rússia – China com exclusão dos EUA, e, obviamente, que este país – mundo, e, ainda, porque, segundo Eduardo Lourenço, este Estados Unidos são Polifemo, que sem o surgimento de um Ulisses, não aceitaria/á esta ou outra exclusão e fará a guerra, preventiva (preventiva que já fez no Iraque, com a cumplicidade da Inglaterra, Espanha e Portugal. Mas porquê Portugal? Para Durão Barroso ser o sr. Europa? E nós consentimos, silenciosamente, tudo isto, mas quem somos? Será que nos reconhecemos, e nem recorro à arqueologia dos 900 anos, mas aos feitos de há cem anos, ou mais próximo de há 40 anos?) ou outra para ser sempre o pais da máxima violência incontornável e, muito provavelmente, incontrolável, que tem usado, nomeadamente, neste vasto campo de guerra como uma  geoestratégia assimétrica  de criar os monstros, as guerras e ficar fora delas, foi assim, com o talibãs, foi assim com a Alqaeda, está a ser assim, até quando for possível, com o DAESH que teve exactamente como barriga de aluguer o exército derrotado de Saddam. É evidente que o país-mundo defenderá o seu lugar, por ora, hegemónico, unipolar, nesta vasta zona, como em outra qualquer, e usará, se necessário,  a sua força incontrolável, mesmo a nuclear- um grave risco para todos e para o próprio país-mundo, mas…

Interessa em termos  de genética  localizar que foi exactamente na derrocada do exército iraquiano que o DAESH , em 2007, se abastece com 200 mil armas, e outros armamentos, petróleo e dinheiro e estes genes tornam o DAESH  numa força militar e politica com objectivos de poder e económicos em que a religião e o terrorismo são meramente instrumentais, para defesa da IDEIA da constituição de um pais e mais tarde de um califado.

Ideia que, por agora, sofre graves revezes no terreno operacional. Mas é bom sinalizar, que a esta Ideia do califado não se pode associar o conceito geoestratégico da guerra total de civilizações, até porque, neste momento, as grandes vítimas desta guerra são os muçulmanos com centenas de milhar de mortos, milhões de refugiados, contudo só, como refere o meu camarada coronel  Lemos Pires, uma grande distracção pode consentir que pareça que a violência no mundo é somente esta -a do DAESH e de agora. De facto os números ilustram outra realidade – um milhão de mortos em vários conflitos em 2011, e 50 milhões de refugiados e deslocados por causa de guerras e alterações climatéricas, em 2013.

Para completar este trágico cenário é preciso referir o conflito na Síria em que Assad luta pela sobrevivência com o apoio da Rússia, que também ajuda os Sírios a combater o DAESH, mas também a oposição armada interna; a questão curda na Turquia e a muito nossa questão europeia, segundo alguns, de total dependência da América, como todos sabemos a Europa não tem forças armadas para se defender, está desarmada militarmente, psicológica e moralmente. Não tem NENHUMA IDEIA CONGREGADORA porque valha a pena morrer- Porque morreu a deputada Jo Cox?

A nível militar fora de algumas forças especiais inglesas constituídas, sobretudo, por cidadãos naturalizados, é questionável que algum soldado esteja, de momento, disponível para morrer pela defesa da Europa, sobretudo, se essas fronteiras forem  lá para as bandas do Iraque, acresce, ainda, que a falta de liderança e da capacidade dos lideres europeus de fazerem o que dizem e é imperativo, é, de tal ordem, que alguns europeus com alguma/bastante popularidade acham que Putin é que devia ser o Líder europeu nestes confrontos, ou mesmo, e pior, ou de igual teor, acontecer a subida aos poderes das governações dos países, das forças protofascistas, com o objectivo da militarização da luta contra os muçulmanos e afins, ou seja, os emigrantes.

Neste quadro a Europa,  quer perante esta crise de liderança, quer pela sua proximidade à zona de conflito, e, ainda,  pelas politicas que podem ser consideradas de segregação dos muçulmanos e outros, constitui-se num vasto território muito apetecível por estas forças terroristas/subversivas  que se lancem numa guerra subversiva, como o defende o major Pais dos Santos,  na sua tese de mestrado, quanto à natureza subversiva do DAESH , o qual, pretende  criar pelas lutas armadas, atentados, terrorismo, propaganda e guerra declarada vazios de poder, para eles substituírem os poderes vigentes, pelos que resultarem da vitória da guerra subversiva, como aconteceu com todos os processos de luta contra a colonização que tiveram sempre e têm como IDEIA CENTRAL que há um poder ilegítimo a governar sobre um território, populações e riquezas que não lhes pertencem. Eia a IDEIA do CALIFADO, a que instrumentalmente se associa todas as convicções da expressão mais radical e literal do Alcorão, o que, alguns dos aqui presentes nesta assembleia, bem mais do que eu poderão referir e, que, desde já, solicito, porque, depois deste enquadramento quase holístico vou restringir-me ao que considero a síntese mais actual e multidimensional sobre esta problemática, apresentada num seminário pós-graduação do mestrado sobre o DAESH,  realizado pelo Instituto Universitário Militar quanto às questões de geoestratégia militar; Universidade Nova envolvendo a componente sociológica, social e até das novas tecnologias, assim como o Instituto Diplomático para as matérias diplomáticas e de segurança, nomeadamente, na área das informações.

Este seminário realizou-se a 24 de Maio 2016 e, como vamos ver, desde há um mês, o mapa dos acontecimentos nesta guerra alterou-se significativamente. No terreno houve alterações assinaláveis nos combates de terra, com apoio aéreo americano e russo e com soldados iraquianos e sírios dispostos a morrerem, e, para eles, também, a religião terá de ser um instrumento, mas igualmente muitas outras dimensões como: a da valorização dos recursos humanos que não tem sido a característica do apoio americano, muito embora, já em 2007, o general Patraeus o tenha referido, como sendo importante haver um reforço da estratégia social com prejuízo da militar dura, a executar no Iraque e Afeganistão, ou melhor, em todas as guerras contra a insurgência, no que, apesar da distância, coincidi com ele, quando de férias na Madeira, em Agosto de 2007, preparava uma intervenção para Outubro sobre as missões de paz portuguesas no estrangeiro, em que participei, com duas idas, como psicólogo militar, à Bósnia e de todas as outras tive conhecimento, através dos relatos dos psicólogos, nomeadamente do Afeganistão… mas, e continuando… para além da valorização dos recursos humanos militares e das pessoas, era evidente o superior interesse das novas tecnologias, pelo que, também em fins 2007, principio de 2008, apresentei um projecto para que nós arredores, dos arredores do mundo, isto é, Portugal,  sugeríssemos à NATO  e à Europa a importância da ciberpsicologia para fazermos daqui para lá o que, o DAESH  há uns anos faz de lá para cá, usando eles, segundo os doutorados em publicidade, as técnicas e os saberes mais avançados e coerentes na criação de uma marca – a marca DAESH. E tudo isto continua a ser pertinente e é englobado no conceito de geoestratégia humana e social, também defendida por Helena Rego, como base para a nossa resposta.

Chegados aqui, nestes arrabaldes dos arredores do mundo, vamos ver o mapeamento das situações e hipóteses de soluções que nos apresentam os insignes doutores e mestres que irei referindo:

1 – O DAESH  é um mero instrumento das grandes potências e um dependente da Arábia Saudita que usa decisivamente o Islão para conseguir dados objectivos, mas o que é realmente importante é o acesso ao petróleo pelas grandes potências, e isto, é o núcleo duro da questão. Pelo que definido e (re) estabelecido o controlo sobre a produção do petróleo e o do seu mercado mundial, o DAESH  será inexoravelmente derrotado. Aqui, nesta perspectiva, nem entra muito a geoestratégia militar, basta a Arábia Saudita e EUA dizerem: não e cortarem os fornecimentos ao DAESH , e ele será derrotado. Parece que tudo dependerá sim da guerra Irão- Arábia e da aliança entre EUA e Rússia, acontecendo que a China segue-os e a Europa também. Nesta perspectiva o mundo também deve ajudar a Europa a integrar os refugiados de modo a que nenhum destes seja ou venha a ser um radical do DAESH . Este é o diagnóstico e prognóstico do Doutor Costa e Silva, na sua intervenção – AS FORÇAS PROFUNDAS DA REGIÃO.

2 – Na Perspectiva  geoestratégica operacional, defendida entre outros pelo Major Pais dos Santos, em “Guerra Subversiva”, o DAESH está a travar uma guerra subversiva com as suas 5 fases, na última temos a guerra aberta, para a conquista de um território e exercer sobre ele um poder soberano em relação a populações, recursos, etc., estabelecendo fronteiras, um estado e forças armadas que deixam de ser de guerrilha para serem Forças Armadas fortes e resistentes.

Para os que defendem esta perspectiva como o Doutor Filipe Duarte, a religião e o terror são meramente instrumentais:

– A religião para suportar a IDEIA da libertação religiosa e também libertação da subjugação dos povos e de um vasto território ocupado pelos infiéis com flagrante violação das leis do Islão e também pela perniciosidade de todos os seus costumes contrários aos ensinamentos do profeta;

– O terror para manifestação de um poder absoluto e aterrorizador, totalitário, que transmite a mensagem da total falta de consideração pela vida humana e a mensagem de que qualquer hesitação no respeito pelo poder totalitário será objecto de uma sentença de morte- degolado! Mas e em simultâneo, o DAESH toma uma atitude de completo apoio aos seguidores incondicionais. No terror, ainda, há uma componente religiosa de apocalipse.

Porém, para que tudo isto resulte a liderança do DAESH e as suas estratégias têm de ser umas, e as contrarrespostas têm de ser de uma dada natureza, no caso da contrarresposta que até ao dia 24 de Maio estava a acontecer era-lhes vantajosa e caracterizava-se por:

– Ausência dos EUA na solução dos refugiados e na solução militar, que resultou  num baixo envolvimento dos EUA,  nomeadamente em garantir uma supremacia aérea que tirasse `as forças do DAESH toda a capacidade de se deslocarem tão livremente, como o faziam, algo, de  impensável, segundo toda a doutrina militar consagrada, na fase de guerra aberta da guerra subversiva. (Por exemplo, em 1973, quando na Guiné deixamos de ter supremacia aérea, os nossos aviões deixaram de poder deslocarem-se para travarem os movimentos do inimigo e, em simultâneo, deixando de poder apoiar os nossos militares,   consideramos que íamos ter uma derrota militar nesta colonia). O não envolvimento americano, terá sido explicado, segundo o conferencista major Pais dos Santos,  pelo próprio  Obama pela falta do envolvimento do povo americano nesta questão, o que é uma vantagem importante para o DAESH , quer ao nível da guerra aberta, quer das estratégias assimétricas.

– De igual modo a falta de liderança europeia, o caos criado quanto à reintegração dos refugiados, as contradições e insuficiências nos resgates por haver limitação de meios de salvamento e de falta de decisão internacional para se agir nas costas da Líbia, favorece e alimenta a IDEIA do DAESH, muito embora, se fale,  sempre, do nosso lado, o  europeu, que se resgataram milhares, quando só morreram afogados centenas, esquecendo-se o que o general Douglas Macarthur dizia: “para quem morre e seus familiares a baixa é sempre de 100%,” e, estas feridas, ficam abertas por anos e anos, séculos, tanto mais, se forem sustentadas pela IDEIA da força subversiva .  Concluindo, todos  estes  sucessos eram, até há dias,  um conjunto de circunstâncias  muito importantes para o êxito do DAESH.

Esta abulia Ocidental,  seria, é, letal. Todavia, entretanto, em relação aos combates por terra ao DAESH muito se alterou, mas, ainda à  inércia ocidental, opõe-se  uma direcção do DAESH forte, determinada e resistente  que faz o que diz,  valoriza os recursos humanos, usa com a máxima eficiência e proficiência as novas tecnologias e deita mão de todas as acções assimétricas e de terror sem respeitar qualquer principio ou convenção de direito, ou mesmo, o mais elementar direito à vida e cria um ambiente de apocalipse, o que, lhe pode dar sempre vantagens até à sua derrota total, se vier ou for possível acontecer.

Para os defensores desta visão o fechar de olhos a muito do que acontece, não resolver o problema na origem, não combater a Ideia com outras Ideias, ter campos de refugiados nas linhas de tiro, bombardeamentos a civis e a morrerem como efeitos colaterais da guerra são tudo um conjunto de factores potenciadores de sucesso ao DAESH  como força subversiva, se não no curto prazo, mas porque prosseguem uma ideia milenária, num Futuro, em que poderiam conseguir completar o seu projecto. Se este DAESH  for eventualmente  derrotado, o Mundo e a Europa continuarem a ser o que são e as ligações Ocidente – muçulmanos tão islamofóbicas,  outros  DAESH  surgirão. Foi a convicção do painel, de que partilho

Tudo poderia ser assim como o descrito e até foi mesmo subliminarmente e off record, dito, por este painel  que assim seria, se nada se alterasse, mas houve alterações, nomeadamente a correlação de forças no terreno, conquanto na fase de guerra aberta os avanços e os recuos não signifiquem irreversibilidade, mas são sinais que têm de ser avaliados, até porque derrotas no tereno podem levar a um aumento de ataques terroristas na Europa ou América etc.

Sendo o DAESH  o que é – um monstro – à luz dos direitos humanos e outra legislação, parido em consequência dos crimes dos EUA, cometidos por todo o Mundo, e,  onde, haja guerras regionais em consequência da violência dos EUA, poderemos dizer que se o monstro criado não se libertar do criador pode estar controlado, mas também pode não estar e, mesmo  ao nível do criador, o complexo militar-industrial belicista pode estar interessado em que o monstro não morra antes de deixar o caminho para um confronto nuclear terrível, pesadelo, que ganha mais peso, face ao facto dos EUA estarem a reactivar o seu  programas de armas nucleares, ultrapassando os limiares negociados, levando a uma corrida a estes armamentos, e não tivessem, ainda, os EUA sobre mira outras potencias consideradas hostis como o Rússia e a China.  Nestes termos e outros, como refere o diplomata José Duarte, numa análise extensiva e bem fundamentada, em termos do estudo comparativo com períodos anteriores da História diplomática, podemos estar na gestão de uma crise no médio oriente, até a um  ponto, em que os EUA perante a Rússia e a China queira ou tenha de se afirmar como o pais-mundo, senhor absoluto da força máxima, através de uma guerra de dimensão colossal, mundial., uma III Guerra Mundial, o que, foi expresso com audível tonalidade, mas que digo aqui baixinho por estar incrédulo quanto a esta hipótese, mas não devemos estar nem descansados, nem distraídos. Seja como for, não me cabe aqui analisar com detalhe esta alternativa, por manifesta insuficiência da minha parte, e, por estar a um nível da conhecida grande estratégia com horizontes temporais mais vastos, no que igualmente se engloba a luta da Rússia pela hegemonia perdida.

Mas, enquanto isto, ou nos intervalos destas grandes contendas, os DAESH , agirão, segundo a cartilha tradicional da guerra subversiva e digo DAESH no plural, porque a uns outros se sucederão, até que a ideia do califado e tudo o que a ela está associado seja vencida por outra ideia, ou se caia na absurda tentação de resolver estas disputas pela via da militarização nuclear dos conflitos, ameaçando toda a vida humana no planeta, num  universo bélico  dantesco, que não deve ser negado ou esquecido, mas que outro ou algum de vós melhor que eu o  poderá abordar, e será sempre um tema presente nos estudos de situação militares, como é da doutrina.

Noutra dimensão, e, ainda, ao nível deste conflito regional, o DAESH procura ser o centro do mundo do terrorismo internacional, o que, é uma dimensão fundamental dadas as suas características já referidas de resistência, determinação e domínio da guerra no ciberespaço  com todas as suas características psicológicas e psicossociais assinaladas, que o  podem levar a recuar até locais ínfimos do planeta, desde que as redes de comunicação cheguem lá, falou-se no Domingo, dia 19, num programa da Sic Noticias, da possibilidade da instalação de um comando do DAESH na Europa, quando escrevia este texto, pensei mais num outro lugar perdido e, quiçá, mais protegido e discreto, mas…  e, eia – uma questão crucial que não será de filme de ficção, série B.

Na guerra no ciber-espaço, na dimensão ciber- psicológica  poderão   transpor barreiras morais e de controlo a que os estados democráticos  estão sujeitos, isto é, poderão usar a tecnologia disponível para a emissão de  mensagens subliminares (se tecnicamente possível, questiono?), ultrapassando a ficção dos humanos robotizados e chipados, e, nesta dimensão,  é importante combater a esquizofrenia da negação, negando dado acto terrorista e atribuindo-o a um crime, por exemplo, de um esquizofrénico fóbico e nunca a um radical; ou a esquizofrenia do alarme em que todos os crimes são imputados, verdadeira ou falsamente, a estes radicais pelas organizações terroristas  para intimidarem, ou por outros que estejam interessados no pavor para aumentarem o nível de militarização quantitativo e qualitativo destas guerras por parte do EUA, mas, contrariamente, à negação ou excessivo alarme interessaria, (à) sim, através da cooperação internacional das informações compreender as ligações directas e, ou psicológicas, dos lobos solitários com o DAESH , tendo sempre presente que para as doutrinas totalitárias e fanáticas as populações em sofrimento, em necessidade e exclusão  e esquizofrénicas ou fóbicas são um campo de recrutamento essencial, se não foi em Orlando, poderá ser numa próxima vez, algures. O   crime de Orlando mesmo que só homofóbico pode fornecer outras pistas para aumento da matança terrorista.

Olhando, hoje, para terreno,  verificámos que o DAESH tem sofrido derrotas significativas, porque iraquianos, sírios e curdos o têm combatido por terra com material pesado, nomeadamente artilharia, o que, parecia mesmo fundamental, e tardava, (e tardou porquê?) e, aqui, o DAESH , quanto é dado ver, não possui material pesado, não possui equipamento aéreo,  ou de combate terra-ar, pelo que apresenta fragilidades significativas com expressão no terreno, agravadas com o corte de linhas de abastecimento, de perda de cidades e até portos na Líbia. Estes factos são importantes e numa guerra subversiva na sua fase de guerra aberta não podem ser descurados, e mais profundamente, no quadro de uma guerra subversiva é fundamental o apoio externo e a conquista das populações.

 

Sobre as populações residentes nos territórios ocupados temos mais notícia das  suas fugas do que da disposição de defenderem territórios, o que, também pode permitir duas análises: uma sobre a razão, porque não se fala do imperativo dos povos, em fuga, de combaterem, devidamente apoiados, pela defesa dos seus territórios, ressalvando o caso da Síria onde a luta armada também é entre Assad para manter o seu poder, com o apoio Russo e a oposição armada com um apoio ambivalente dos EUA; outra é que também, se os refugiados, para este ou outro DAESH, se a IDEIA não for derrotada, se não serão eixos militares de aproximação e infiltração importantes para introduzirem combatentes na Europa   para a lutarem. Facto que se a Europa não se reencontrar, com grande probabilidade acontecerá, se não for hoje, será amanhã, sobretudo, se a este DAESH  terrorista suceder-se outro baseado na luta pela transparência, pela igualdade de tratamento, pelo combate às segregações e mesmo na sua fase de terror deixar de praticar o terrorismo sistemático e passar ao selectivo, ancorando este projecto também na ideia de uma religião mais salvadora e menos degoladora, isto é, a versão mais universal do Alcorão pode ter um esplendoroso caminho no meio da degradação das nossas sociedades.

Naturalmente, que no contexto de uma guerra subversiva na fase de guerra aberta  a perda de terreno físico é grave, mas pode permitir reorganizações e, sobretudo, interessa julgar  da capacidade dos reocupantes  segurarem-se  no terreno, o que, como todos sabem nestas guerras conta imenso a motivação transcendental dos soldados: qual a  Ideia imaterial porque lutam e para que lado dependem as almas e os corações das populações sujeitas ao poder de uns ou de outros? Sabe-se que a ausência de quadros de profundas convicções leva a comportamentos ambivalentes e duplos, como, aliás, vimos na guerra colonial portuguesa. É evidente que nos últimos tempos a iniciativa geoestratégica das forças coligadas contra o DAESH  têm actuado, no terreno, como há muito se dizia ser necessário, até houve mesmo propostas de recrutamento de mercenários pelos Estados Unidos, se é certo que, actualmente há uma estratégia operacional a funcionar com êxito contra o DASH, importa questionar  se estes êxitos serão os necessários e suficientes para a solução geopolítica global ou mesmo regional?

A resposta é um redondo não. Porém, quanto à dimensão da luta terrorista algumas previsões falharam  era suposto que no mês do ramadão os ataques terroristas aumentassem, e também face aos desenvolvimentos desfavoráveis no terreno e, ainda, à grande concentração de cidadãos de todo o mundo em Paris por causa do Europeu de futebol, embora, tudo isto seja expectável no contexto de uma guerra subversiva, dado que  o adversário tem todo o interesse na divulgação espectacular e mundial de um grande ataque terrorista,  não é uma certeza que ajam sempre, segundo os nossos manuais, pelo que podem mesmo mudar de táctica, porque não querem atacar quando todos esperam que isso aconteça, ou pelo menos, evitarem fazê-lo no contexto de uma acção tipo militar de média envergadura, e esperar outros momentos; ou até terem mudado a preferência dos seus objectivos, ou, então, estarem a enfrentar dificuldades no recrutamento,  a Ideia precisar de renascer, ou a  cooperação entre serviços de segurança ocidentais estar a ser  mais eficaz e coordenada, limitando  a difusão das mensagens e as acções de comando, direcção, etc. do DAESH, muito embora, também se tivesse referido, por estes dias, a criação de uma plataforma televisiva em português.

As respostas a estas questões não são nem muito evidentes,  nem frequentes, e interessa ainda sinalizar  que  o DAESH como marca tem aparecido menos nos noticiários actualmente, o que também pode ser indicador de uma reestruturação, ou de perdas significativas e dificuldades acrescidas numa fase já mais de guerra aberta do que de terrorismo, etc.

Pode tudo isto serem sintomas de que o DAESH  pode deixar de ser um actor tão falado, até porque, desde sempre, o que esteve em  causa é a reorganização do poder naquela zona, de grande produção petrolífera, a contente do Irão, Arábia Saudita, Israel, Rússia e China, mas sem nunca os EUA perderem a sua hegemonia. Esta sua posição, neste momento,  está  facilitada pela aproximação ao Irão, mas que enfrenta, como já referi e interessa sublinhar, a pretensão de hegemonia russa.

Logo, tudo está em aberto, e mesmo para além da morte deste DAESH, interessará questionar, sempre, que outros DAESH parirão a Arábia Saudita e os EUA, onde, como e quando, se as coisas não lhes correrem de feição, aqui, como em qualquer outra parte do Mundo que esteja sob o radar do interesse americano?

Uma certeza resta, seja qual for a situação militar no terreno, a solução para esta questão será sempre e, primordialmente, a de  combater A IDEIA do DAESH e para vencê-la,  como diz a Doutora Helena  Rego e os demais participantes no  seminário que já referi, será imperativo   um plano multidimensional e multinacional para a abordagem geoestratégica, geopolítica, georeligiosa, geohumana  e geoeconómica dos poderes ocidentais e mundiais para o combate aos DAESH, mas, também, para o combate eficaz  às esquizofrenias social e económica, como refere o Papa Francisco. Se não se fizer tudo isto e o mais que se houver por bem, no espaço euro-americano podemos estar no limiar de conflitos desastrosos para a humanidade, toda a humanidade, e mesmo para o país- mundo – os EUA,

Em termos de estudos de situação militar nunca pode ser descartada, a GUERRA, todavia, e muito para além da geoestratégia  e, bem mais profundamente, deve de haver uma clara aposta na estratégia geohumana voltada para as gentes destes mundos, mas também para os que vivem em ghettos, os sem-abrigo, os abandonados: quer sejam nacionais, quer sejam estrangeiros nos vários países europeus e na américa, e, nesta dimensão, os défices de interesse das populações nacionais, internacionais e da portuguesa são apoclíticos e letais. No seu desenvolvimento patológico romperão com os equilíbrios necessários à manutenção da paz social e da continuidade das sociedades democráticas que se caírem em  situações de caos ou vazio de poder muito ajudarão aos DAESH a cumprirem a sua funesta missão contra uma Europa, fragilizada pela dicotomia entre países ricos e pobres, pela falta de politicas de defesa comum, total dependência militar dos EUA e, agora, até parece, como alguns referem, essa dependência, esse estar de joelhos,  será ampliado pelo tratado comercial entre EUA e Europa., e tudo com a agravante  da falta de uma liderança forte.

A Europa parece estar dentro de um colete-de-forças, cercada por quase todos os lados interna e externamente, com dificuldades tremendas a vencer que se ampliarão com uma eventual saída da Inglaterra da UE e, quiçá, uma vitória completamente esquizofrénica nas presidenciais dos EUA, pese embora, e todos esperam que as instituições americanas pela sua longa história sejam sólidas e funcionem nos limites democráticos, mas… há coisas…  e, então,  na perspectiva aqui defendida  de serem  estes alguns dos cenários possíveis – pois é mais o que nem sabemos  que não sabemos do que tudo o resto-  qual pode ser o papel dos arredores do mundo e dentro destes arredores, o de Portugal que ainda é mais arredor do que outros  e o nosso   aqui,  em que ainda mais o somos, porque somos arredores de lisboa?

Comecemos pela resposta mais evidente: o nosso papel, o de cada um de nós, no meio desta grande tempestade é o de cumprirmos o nosso dever ético de cidadãos de nos informarmos, informarmos os demais e praticarmos a democracia participativa, exigindo e reclamando a intervenção e atenção dos governantes para esta problemática que parece sonambulamente escondida, quando merece do 1º Ministro uma intervenção correcta, mas face à dimensão do problema mínima, ou seja,  protestar porque na Europa não dão  atenção aos  milhares de refugiados que morrem  e o eurogrupo e a União Europeia estão muito concentrados com o mais 0,2 ou 0,3 % de défice de Portugal. É ridícula e grave  a mesquinhez europeia, mas o 1º Ministro não os desacompanha de todo, não tendo mais nada de fundamental e essencial a dizer sobre esta tão emergente matéria, que deveria ter abordado com mais humanismo e frontalidade.

E ao pais que somos, como muitos têm referido, compete-nos exigir e reclamar que o governo, a Assembleia da República, o Presidente da República cumpram a Constituição que no seu artigo 7º diz que Portugal, no contexto internacional, promove a paz e deve de o fazer com todo o empenho, sageza, e recorrendo-se de toda a capacidade que detém de se  relacionar com outros povos nomeadamente, de África, mas também com a Argélia, países do Médio Oriente e pelo seu comportamento democrático e ecuménico com todas as religiões, isto é, no seu conjunto, todo um capital humano e diplomático extraordinário, mas congelado, quiçá petrificado.

Mas como alterar este quadro? Podemos e devemos dar um contributo decisivo, alertando o país, o seu governo, a comunicação social para que a solução para estas e outras graves questões é multidimensional: politica, económica,  social, religiosa, humanista e de segurança pelo que devem optimizar o potencial das universidades, através dos cursos de pós-graduação que realizam,  para que o resultado destas formações e outras investigações resultem em protocolos globais sobre o que, o como, o quando e com que meios se deve fazer o que é imperativo a nível de Portugal, mas também da União Europeia e da ONU, no sentido de  que a humanidade, a democracia não sucumbam, mas renasçam na Europa, berço da democracia, conquistem novas populações e ajudem a criar uma sólida barreira à expansão incontrolável da  violência,  consentida pela Europa, por parte dos Estados Unidos da América – o país-mundo, o tudo do tudo, e, naturalmente, e  do mesmo modo, se tem de travar as tendências hegemónicas e militaristas da Rússia e a geoeconomia Chinesa, e, obviamente, sem nenhuma reserva   os ímpetos militaristas da Arábia Saudita,  Irão, Israel etc. Logo, um pouco muito, muito exigente, mas um imperativo categórico para cidadãos vivos, que nem sempre é fácil de encontrar nos jardins ciprestais das nossas polis.

E, então, o que faltará fazer por parte de todos e cada um destes autores/actores?

– Ao DAESH  julgo que será aumentar a sua parada na guerra psicológica com recurso às novas tecnologias através da difusão de mensagens subliminares para lançar o caos, ou preparar-se para a guerra aberta e a constituição de um estado (A Turquia há cem anos (1915), depois do genocídio de um milhão de arménios tornou-se num estado soberano);

– À Europa, à ONU, a Portugal falta fazerem quase tudo, desde logo, como combater a Ideia que dá força ao DAESH , depois estudar o problema e, conforme referi, ter um plano de acção e uma liderança transparente, corajosa, e que faça o que diz. Entretanto, o jogo está a correr, os EUA, a Rússia e a China determinarão tudo e, passivamente, se a Europa se mantiver de cócoras, debater-se-á com todas as consequências negativas destas guerras económicas, sociais, religiosas e de poder que a cercam a sul, sem esquecer a geoestratégia russa, logo. EIA :

1 – Ou há  sabedoria, coragem, decisão, geoestratégia, estratégia geo-humana e visão independente e crítica da Europa histórica e culturalmente balizada;

2 – Ou pagaremos uma factura tremenda pelos erros de outros e má fortuna nossa – a má fortuna dos submetidos, no nosso caso agravado por falta do self individual e, de igual passo, de um colectivo, muito para além das jogadas futebolísticas que também tal qual a Caixa Geral Depósitos, estão marcadas pela impressão digital da esquizofrenia social, como o papa Francisco a define.

EIA a realidade que vislumbro com os contributos que referi e em que acredito… coisas… Mas sem nunca esquecer que acabamos de fazer prova de que estamos vivos e que amanhã, aqui, na Caparica, em Portugal e em muito Mundo alvorecerá uma manhã matinal… logo, a vida e a luta continuam… e nenhum Apocalipse vencerá a vida cósmica que é a Infinitude. Finitos somos nós e as nossas obras. Passamos.

 

Um Bem-haja a todos!

Caparica, 21 de Junho 2016

Andrade da silva

Ps: escrito de acordo com a ortografia pré-acordo ortográfico, não por uma questão política autodeterminada, mas por ser livre a opção e um hábito escrever deste modo.

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