METRO SUL DO TEJO : SOLUÇÃO OU INCÓMODO

O Metro Sul do Tejo, inaugurado em 2007, resulta duma aposta das autarquias de Almada e Seixal num transporte coletivo e veio permitir uma melhoria da mobilidade da população e das acessibilidades na margem Sul.

É uma realidade que se afigura cada vez mais presente como escolha diária de deslocação. No entanto, muitos habitantes do concelho de Almada consideram que o ruído e a vibração que o metro provoca à sua passagem afecta significativamente a qualidade das suas vidas. Como tal, multiplicam-se as queixas de um problema que, na sua opinião, tem vindo a piorar drasticamente.

Para denunciar esta situação foi criada uma petição online, dirigida à Assembleia da República, acerca do Metro Sul do Tejo não respeitar os níveis de ruído em determinados percursos que atravessam zonas de maior constrangimento urbanístico.

Inúmeros moradores queixam-se do desconforto causado pela vibração no interior das suas habitações, que põe em causa a integridade de certas estruturas. Algumas pessoas, as que o puderam fazer, viram-se obrigadas a colocar vidros duplos numa tentativa de abafar o ruído, mas ainda assim o problema persiste. Com a agravante de que os serviços do metro têm início pelas 5h30 e terminam às 2h, o que afecta o período de descanso de grande parte dos moradores.

Em Novembro de 2020, o Notícias da Gandaia foi procurar esclarecimentos junto da Metro Transportes do Sul, perceber se existe alguma manutenção que não está a ser devidamente efectuada e que medidas pensavam adoptar para minimizar os constrangimentos resultantes da passagem do metro e o seu impacto junto da população.

Hoje publicamos essa reportagem, no dia que assinala o início da intervenção nos carris na linha do metro entre Cacilhas – Laranjeiro para redução do ruído. Até 19 de Junho, a MTS irá proceder à realização de trabalhos de esmerilagem corretiva do desgaste ondulatório dos carris, entre as 00h00 e as 06h00. A manutenção, de acordo com o planeamento técnico, deverá acontecer a um ritmo de 800 a 900 metros de carril por noite, ocorrendo nesse período ruído resultante da intervenção em causa.

O ponto de situação que se segue resulta de declarações que nos foram prestadas no final de 2020. A MTS, empresa concessionária do metro, considera que “tem tido uma atitude disponível para esclarecer todas as questões colocadas no que respeita ao seu desempenho ambiental. Importa dizer que o traçado que foi definido pelo concedente inclui curvas bastante apertadas, grandes pendentes e soluções de revestimento que se têm revelado não serem as melhores”.

Segundo fonte oficial da MTS, “a monitorização de ruído provocado pela circulação dos veículos decorre desde que se iniciou a exploração de parte da rede, tendo a MTS dado cumprimento às obrigações que lhe cabem no âmbito do Contrato de Concessão. Assim, foram realizadas monitorizações nos períodos de inverno e de verão – recorrendo a entidades certificadas para o efeito – e de acordo com o especificado na DIA aplicável à MTS, concessionária da exploração, sendo que ao longo das várias campanhas foram realizadas diversas alterações à monitorização de acordo com as solicitações da Agência Portuguesa do Ambiente -APA. Todos os relatórios resultantes das referidas campanhas foram enviados às entidades competentes, designadamente à APA, que no ano de 2012 dispensou a MTS de efetuar qualquer monitorização. Contudo, a MTS manteve essa monitorização, nomeadamente em locais alvo de reclamações, em colaboração com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes”.

Em zonas de maior declive e pavimentos empedrados o ruído e trepidação sentem-se com maior intensidade. Os moradores da Rua Lopes Mendonça, rua estreita em que há uma grande proximidade entre a linha férrea e os prédios, apresentaram em 2019 uma queixa à Inspecção-Geral do Ambiente e Ordenamento do Território, que originou a realização de uma inspecção. O relatório reconheceu que em alguns dos locais monitorizados os níveis de ruído ultrapassam o estabelecido por lei, mas frisou que a situação ocorre mesmo quando o metro não está a circular, devendo-se ao trânsito rodoviário. Concluiu assim que actividade normal do metro cumpre os requisitos legais aplicáveis a ruído. Os moradores, naturalmente, discordam. Já a MTS declara que “não teve conhecimento do referido relatório e tão pouco da realização de qualquer inspeção”.

A Metro Transportes do Sul afirma-se determinada em promover uma mobilidade sustentável, “através do seu Sistema Integrado de Gestão de Ambiente, Qualidade e Segurança tem definido medidas para minimizar os seus impactos ambientais significativos, nomeadamente ao nível do consumo de energia e da emissão de ruído. Estão implementadas ferramentas que permitem a monitorização continua desses mesmos impactos e que permitem uma actuação mais eficaz na minimização dos mesmos, sendo o Plano de Racionalização de Energia da Frota um exemplo”.

Ainda neste contexto, reforça o potencial do Metro Sul do Tejo, “é urgente inverter o crescente aumento das emissões de gases com efeito de estufa e o metro oferece claramente estas vantagens, é um modo de transporte ambientalmente e energeticamente eficiente, com uma intensidade carbónica muitíssimo inferior ao do automóvel individual, permitindo ainda ganhos de tempo e aumento do conforto dos passageiros, melhor integração urbana e de todo o sistema de transportes e redução dos níveis de poluição ambiental”.

Vantagens estas que parecem não coadunar com a realidade premente que vem sendo manifestada pelos inúmeros moradores do concelho, e que se espera agora que passe a ser diferente com esta intervenção nos carris.

Outra das queixas frequentes diz respeito à velocidade excessiva com que por vezes as composições circulam. A MTS garante que os acidentes e atropelamentos relacionados com o metro nada têm a ver com os limites de velocidade. “As velocidades que podem ser praticadas foram acordadas com o extinto Gabinete de Missão do Metro Sul do Tejo e câmaras municipais, e são as que permitem cumprir os referidos horários. Sempre que existem acidentes com peões, automóveis, ou mesmo quedas de passageiros no interior dos veículos, são abertos inquéritos internos, nos quais são analisadas a velocidade do nosso veículo, bem como outras ações dos condutores de modo a auferir responsabilidades. Ultimamente essas ocorrências são em menor número e resultam essencialmente de distrações por parte dos automobilistas ou peões e consequente desrespeito pela sinalização semafórica”.

METRO COMO OPÇÃO

Segundo a MTS “em 2019 aproximadamente 43000 pessoas utilizavam o metro diariamente. Em 2020, a partir de março”, com a chegada da pandemia, “esse número caiu para aproximadamente 29000. Sendo a linha 1, entre Cacilhas e Corroios, a que regista uma maior utilização por parte dos passageiros”.

Para salvaguardar a saúde e segurança dos seus clientes, a entidade tomou várias medidas para dar resposta a esta epidemia “apostando no reforço dos procedimentos de limpeza e higienização dos pontos de maior contacto, limpeza com virucida nos interiores dos veículos, das máquinas automáticas e balcões efetuada diariamente; abertura automática das portas em cada paragem, sem necessidade do cliente carregar no botão e permitindo entradas de ar; circulação efetuada com as janelas do veículo abertas para garantir uma maior circulação de ar”.

O Programa de Apoio à Redução Tarifária levou a um aumento global de passageiros nos transportes públicos, alterou hábitos dos seus utilizadores e conquistou novos clientes. “Desde que o tarifário Navegante entrou em vigor que a rede de metro foi claramente uma opção dos utilizadores de transportes da AML. Na MTS essa opção traduziu-se num aumento evidente de passageiros”.

Já há muito se discute o alargamento do metro de superfície até à Costa da Caparica, que acabou por nunca se concretizar. Entretanto em Fevereiro deste ano, o Ministro do Ambiente e da Ação Climática deu conta de um estudo sobre a expansão do metro, que contempla uma ampliação para poente do concelho de Almada, até à Costa da Caparica, bem como para nascente.

Quando questionada, em 2020, sobre possível expansão ao Hospital Garcia da Orta e o Almada Fórum, algumas das zonas mais frequentadas que não são servidas pelo metro, a concessionária esclarece que “o traçado da operação é uma decisão do Estado concedente, não tendo a MTS competência para tomar decisões sobre a extensão da atual rede de metropolitano”.

Tema recorrente é o facto da construção do Metro Sul do Tejo se ter transformado num negócio ruinoso para o Estado, com todo o prejuízo que daí resulte. A Metro Transportes do Sul acredita que “o investimento na infraestrutura do metro é sempre um investimento de futuro, num modo de transporte mais amigo do ambiente, com maior capacidade, mais conforto e mais qualidade para os seus clientes, e que melhorou significativamente a mobilidade dos habitantes de zonas que são servidas pela sua rede. As autarquias definiram também uma requalificação urbana dos arruamentos onde se desenvolve a actual rede do metropolitano ligeiro da margem Sul do Tejo, com efeitos ao nível do ordenamento do espaço urbano e melhoria da perceção estética”.

A MTS assegura que tem adotado soluções com vista à melhoria da via e dos sistemas existentes nos veículos, mas não parecem ser suficientes. Pode ser que estes trabalhos de intervenção que hoje começam sejam uma luz ao fundo do túnel, para uma comunidade que exige ver resultados num metro à superfície.

A situação tornou-se insustentável e o descontentamento deu lugar à indignação. A urgência dos que correm para apanhar o metro é menor quando comparada com a urgência daqueles para os quais o metro tem de abrandar e repensar o impacto das suas viagens. E se me é permitida a confidência, também eu recorro ao Metro Sul do Tejo para as minhas deslocações. Também eu sinto a sua influência na minha casa através de ruído e vibrações.

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