Os Visionários

Ele sempre se sentiu fascinado pela leitura dos livros de Voltaire, Emerson, Rousseau, Kafka, Platão, Thomas More, Montaigne, Thoreau, e outros. Admirava esses autores porque, todos eles, tinham procurado analisar os vários aspectos da condição humana no seu tempo, ou porque eram sonhadores e imaginavam um mundo ideal, ou porque defendiam abertamente o pacifismo. Devido a isso, ao longo dos anos, e com alguma regularidade, revisitava-os, pois sempre descobria neles algo de novo e interessante.

Mais recentemente, ele passou a sentir-se insatisfeito com a evolução da vida nas sociedades. Desagradava-lhe, particularmente, o fascínio que o modernismo exercia em todas as pessoas levando-as a ignorar os valores morais básicos, a desprezar a Natureza e a procurar um futuro fictício, a ponto de se esquecerem de viver o presente. Foi quando resolveu viver como um eremita, afastando-se do seu meio social e refugiando-se na leitura. Nessa reclusão que se impôs, voltou a ler dois livros que o tinham impressionado bastante na juventude e que, de algum modo, lhe tinham modificado o percurso da sua vida.

Um deles era o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. 

Nele, o autor, imagina uma sociedade do futuro – mais de 600 anos depois da sua época – que se confronta com pessoas que ainda vivem numa espécie de ‘reserva do passado’. Os contrastes são evidentes e os ‘selvagens’ não são aceites na sociedade moderna, pois os seus costumes ancestrais como ter um filho ou uma crença religiosa são vistos como actos obscenos, de ignorância e de desrespeito a essa sociedade.

Nas páginas do livro, o autor denuncia uma sociedade de indivíduos copiados, hierarquizados, condicionados e libertados de laços familiares ou amorosos. Empanturrados de divertimentos e de drogas, todos aparentam adorar a sua própria servidão, como se a ausência de liberdade lhes fosse natural. São governados por um punhado de dirigentes mundiais totalitários que ascenderam ao poder pelo voto popular, e que se sentem fortalecidos para, entre outras coisas, suprimir as manifestações artísticas em nome da estabilidade e da obsessão pela felicidade.

O outro livro que ele releu, 1984, de George Orwell, é igualmente uma ficção e uma distopia que, como se sabe, é um lugar ou estado imaginário em que se vive sob condições de extrema opressão, desespero ou privação. A acção é passada num futuro mais próximo – apenas trinta e cinco anos depois do livro ter sido escrito. O autor imagina uma sociedade com um governo totalitário, com manipulação física e psicológica das populações, no controle do passado, em alienação, na guerra e no amor. Fala numa nova língua – a novilíngua – inventada pela elite do governo, que persegue o individualismo e a liberdade de expressão e decreta que pensar é um crime. A tirania é supervisionada pelo Big Brother, que goza do culto da personalidade, mas que talvez não exista. E, como em tantas ditaduras, ao poder só lhe interessa o poder e jamais o bem-estar dos seus subordinados.

Ele, então, repara que, embora os dois livros se debrucem sobre o conceito filosófico da ‘revolução última’, que é uma revolução que vai além da política e da economia e que visa a uma subversão total da psicologia e da psicologia do indivíduo, apresentam conceitos de imaginação um pouco diferentes.

Segundo Orwell, na sua sociedade imaginada há um regime ditatorial, que exerce uma vigilância extremamente autoritária, controlando as pessoas e infli­gindo-lhes punições. A filosofia da minoria dirigente é de um perfeito sadismo, onde o totalitarismo acaba por transformar a realidade em matéria dúctil.

Huxley também imagina uma ditadura, mas mais branda. Para ele, a oligarquia dominante consegue controlar o povo infligindo-lhes prazer, em vez de usar as matracas e as prisões do passado. É mais fácil reconhecer uma prisão ou uma violência, do que uma campanha de alienação levada em nome da felicidade. Assim, com meios menos difíceis e dispendiosos de governar e de satisfazer o seu gosto de poder, os dirigentes daquele mundo descobriram que o condiciona­mento das crianças e a ‘narco-hipnose’ são muito mais eficazes. A sugestão, leva as pessoas a amar a sua servidão, sem precisar de as fazer obedecer com pontapés ou com o chicote. 

Após estas leituras, que ele considera serem ambas de grande qualidade literária, o seu rosto mostrava perplexidade pela semelhança que encontrou entre a sua vivência e a daquelas ficções.

Ele tinha conhecido, no passado, a força das ditaduras e sabia de alguns dos métodos de repressão utilizados: supressão da liberdade de expressão, a livre cir­culação, as punições, as diversas formas de alienação, as violências, entre outras. Mas, na actualidade, estavam a surgir novos métodos que o incomodavam e que, no entanto, já estavam descritos nos livros daqueles visionários, daí a sua perplexidade.

Desta­cou alguns dos que mais o surpreenderam, porque se tornaram banais: a obsessão pelo divertimento; esconder a verdade num oceano de insignificâncias; a adoração das tecnologias que destroem a capacidade de pensar; a extinção do desejo da leitura; e, o mais estranho, o amor pela opressão. 

Estes foram os elementos que o levaram a isolar-se e não se arrependia de o ter feito. Definitivamente, este já não era o seu mundo.

Reinaldo Ribeiro

29 de março de 2020

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