Quem foi o Arquitecto

– Há uma coisa que me maravilha e eu gostaria que o senhor, se possível, me esclarecesse, porque é algo que não consigo atingir. Refiro-me à estranha sensação que se apodera de mim quando estou junto do mar e os meus olhos se perdem na sua vastidão ou, então, quando o pontilhado das inumeráveis estrelas do céu nocturno me mostra as suas dimensões ilimitadas. Simultaneamente sou invadido por um frémito morno que julgo originado pela força da beleza que os meus olhos vêem e por se instalar no meu coração uma calma singular. Sinto-me, então, deslumbrado e infinitamente pequeno, por algo que não sei explicar. E, nesses momentos, sempre faço a mesma pergunta: – Quem fez tal obra?

– É interessante pensares sobre isso, porque essa é uma questão que tem intrigado a humanidade desde os seus primórdios e cada um à sua maneira tem tentado explicá-la.

Porém é um tema muito subjectivo, pois a cultura em que cada indivíduo é criado torna-se fundamental na formação do seu entendimento. No entanto, vou tentar responder à tua perplexidade com o que penso sobre o assunto, que está longe de poder corresponder à verdade ou, até, dela se aproximar.

Se olharmos para trás, veremos que o homem, desde os tempos mais remotos, tem procurado dar um sentido à vida ou explicar a sua origem e de tudo o que o rodeia, isto é, obter respostas para o que lhe é inexplicável. Sem ter outros recursos intelectuais e, com receio do desconhecido, começou por associar ao sobrenatural tudo o que o ameaçava ou favorecia.

No princípio, vivendo em total simbiose com a Natureza, era a força dos elementos, tal como os trovões, os relâmpagos, o vento, os raios, a escuridão, os vulcões, o sol, o fogo, as convulsões tectónicas e outras, que lhe mostravam os perigos a que estava sujeito. O homem ancestral não sabia como defini-los – o conceito de deus é tardio e este homem era totalmente a-religioso – mas começou a acreditar que algo do que não via e que, no entanto, sentia, estava em tudo o que o rodeava. Notava que esse desconhecido lhe trazia as coisas boas, como alimentos, calor, a luz do dia, mas que também lhe trazia as coisas más que lhe provocavam desconforto, como a fome, o frio, a escuridão, a morte. Do mesmo modo que tu, também esses antigos se maravilhavam com a magnitude da Natureza, mas, penso que não eram ainda impressionados pelo esplendor do belo.

Na vida natural os humanos viviam em grupos relativamente pequenos, quase sempre baseados em laços de parentesco e em que, sem outras referências, fazia com que todos os seus membros reverenciassem esse desconhecido que lhes dava o bem e temessem o que lhes provocava o infortúnio.

Como facilmente podes perceber, este primeiro estágio da humanidade teve uma duração de muitos milhares de anos cristalizando-se a ideia de que havia entidades mais poderosas do que o homem, que dominavam o bem e o mal, embora estes conceitos fossem, então, inexistentes.

Estes povos ancestrais – contrariamente ao que acontece na actualidade, em que julgamos o homem como a espécie mais poderosa do planeta -, simples­mente, acreditavam que os humanos tinham a mesma importância que todos os outros animais, que qualquer lugar e rochas, nascentes, rios, plantas ou fenómenos naturais e que todos se comunicavam directamente entre si.

Penso que foi só muito mais tarde, depois do advento da agricultura, quando os caçadores-recolectores começaram a sedentarizar-se, e a trocar a vida do bando pela vida em sociedades maiores, e depois destas se tornarem realmente grandes, que surgiu a ideia de um deus, mas ainda assim sem qualquer noção de moralidade. E porque digo isto? Porque nessas sociedades alargadas albergavam-se não só as famílias, mas também estranhos, e os conflitos que anteriormente eram resolvidos pela autoridade patriarcal no clã, passaram a sê-lo por algo que todos temessem e que evitassem ofender, por ser um poder superior atento ao comportamento de todos – um deus.

Foi, então, que começaram a surgir os deuses nas mais diversas culturas humanas: o sol, o trovão, o vento. o céu, as sombras, as estrelas, etc.

No lento evoluir civilizacional, o animismo foi dando lugar a deuses que, de acordo com as diversas mitologias, acasalavam com humanos dando origem aos semideuses. Depois, quando as religiões começaram a ganhar forma, cada uma delas escolheu o seu e regionalizou-o, de acordo com a cultura da zona do globo onde estava implantada.

Pode parecer-te enfadonho todo este preâmbulo, mas foi a forma que eu arranjei para ensaiar uma explicação para esclarecer a tua dúvida.

Dizias que se apoderava de ti uma estranha sensação quando olhavas a vastidão do mar ou olhavas o céu estrelado, que te sentias muito pequeno perante a beleza das dimensões do mundo e perguntaste: – Quem fez tal obra? 

 Pois bem, agora, baseado nos ensinamentos de todas as gerações que nos precederam, posso dizer-te que quase todas elas acreditaram que essa obra foi feita por um deus. A ciência, entretanto, desenvolveu-se, evoluiu e explicou muito do que era atribuído aos deuses, porém, há uma variante da tua dúvida que a ciência ainda não descobriu e ainda persiste: E quem criou deus?

Reinaldo Ribeiro

1OUT2020

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