Ecos da Vida – crónica de Conceição Couvaneiro

By  | 28 Agosto, 2018 | 0 Comments | Filed under: Notícias

E se tudo fosse assim….

 

 

 

Um texto para a Gandaia? Sim, mas o quê? Procurar, procurar, remexer e encontrar. Dizer, depois. Assim tentarei fazer, se a tanto me ajudar “o engenho e a arte”. Corresponderei ao convite. Não podia deixar de o fazer. Ah, o tema? Livre, naturalmente. Sem censura. Sulcarei, como gosto, territórios e memórias. Seguirei ao sabor da pena e…veremos o que acontece. Percorro, quase sempre, o caminho da reflexão, a partir da emoção. Toda a gente assim faz, creio. Tão fácil acontecer aqui, com o mar aos pés, os trinados das gaivotas, os passos mais ou menos sincronizados de animais, bicicletas e dos transeuntes, no paredão. Cheiro a maresia misturado, às vezes, com o das caldeiradas. E, sobretudo a peculiar visão de belos corpos longilíneos, contidos, a custo, em apertados fatos de borracha, que por aqui se movimentam. Seguem, mar dentro, para o embate com as ondas e se perdem na espuma branca, que rola na areia, (que quase não há, dizem). Gente quase sempre nova e muito bela. A força das ondas a impedir as arremetidas humanas. Como bons aventureiros os surfistas seguem, respaldados por pranchas. Técnica, movimento, colorido, quedas bailadas… vozes e imagens únicas. Luta titânica. Beleza e contraste. A natureza na sua plenitude. É assim a Caparica.

Ao fim da tarde, no horizonte entre mar e céu, mais à frente, um pôr de sol, único e radioso a abrir-se em anéis laranja e vermelho, que se prolongam e estendem e… rápido se esfumam. O Bugio envergonhado, a anunciar caminho, sente que ali, agora, não faz nada. Não é a sua vez. Lá, mais além, rodopia no ar, em bando, densa nuvem de gaivotas, que rápido se aproximam, preparando-se para o banquete. Chamam, umas pelas outras, para que nenhuma fique de fora. Máquinas e homens, pousados na areia avançam, agora, na água. Nas redes puxadas por cordas, saltitam peixes desesperados, muitos e diversos, cúmplices do mesmo destino, com desconforto e, muito, muito medo, por chegarem à terra. Tentam, ainda, fugir, mas sem êxito… Compradores esperam. Do mar para a mesa, para um delicioso repasto.

Este ambiente mágico só tarde foi por mim desvendado, em mais profundidade, pelo meu olhar forasteiro. Algumas décadas antes, na infância, a cem quilómetros de distância, vizinha, eu, também, de outro mar, corria a notícia de que algo de perverso se passava por estas bandas. Próximo, um Meco desnudado, onde gente se desnudava, anunciava-se proibitivo, pouco cristão e de atentado ao pudor. Próprio de gente de maus costumes. Quem sabe se obra de corruptores de fora. Dos que há muito deixaram o Éden, para entrarem noutros paraísos. Foi talvez daí que Eva viu o mal, a tentação e se sentiu envergonhada. Fora expulsa, para sempre, do Paraíso. Tinha, afinal, corpo e sentia. Condenação mesmo se deveria passar, ai, na Meca do Meco.

Passou tempo e com ele, a procura de mais verdade. O desejo de entender melhor. A compreensão da natureza pode ajudar a derrubar tabus. A ser mais autêntico, menos dono da verdade, do bem e, porque não (?), mais humilde. O conhecimento ajuda a entender melhor. O dito nudismo, se o é, só por si, não tem qualquer interesse. Mais tarde deu lugar ao conhecimento de uma filosofia própria, o Naturismo. Fonte da Telha, Adiça, Dezanove, Bela Vista e outras mais que se lhe seguem e seguirão. Afinal estar, sem roupa, pode ser mais angelical e até menos luxuriante, do que o modo como são usados alguns trajos. Tudo depende da atitude. O naturismo, quando se expressa na relação simbiótica com a natureza, e onde tal for aceite, começa a ser muito generalizado e defendido. Mostra a liberdade dos peixes no mar, a dançar nas ondas, ou das gaivotas a planarem o céu e a descerem a pique, em voos rasantes e pios sensuais. Exprime uma tentativa de ligação, entre homens e natureza. Revela, sem pejo e com respeito, a diversidade. A aceitação do corpo que se tem, sem rodeios. Sem fixar zonas erógenas que, por convenção, é necessário tapar. Obedecer ao que pode desvirtuar, as relações humanas. Expor-se como se é. Talvez mesmo o desprezo pela categorização social, exibindo apenas a pele que cada um tem, sem que se evidencie a cor. Só por que se é pessoa. Natureza integrada, sem o peso do estatuto que o diferencia e distingue. Ser naturista, no lugar próprio: campismo, praia e que não ofenda e desrespeite, quem o mesmo não aceite. Naturismo pode não ser perversidade. Não é possível, que o seja. Tem que ser um sinal de liberdade, de harmonia, de saúde e de bem-estar. De auto-estima. De respeito por si, pelo outro e pela natureza. Pode ser a aceitação de uma pertença universal. O naturismo, em expansão, cada vez mais aceite, e com forte expressão nesta área geográfica pode ter um outro olhar, sobre a vida e a condição humana. Pode não ser visto como algo de mau e pecaminoso, mas uma filosofia própria, destinada a ligar num espaço de convicções comuns, onde se esbatem estereótipos e se desmorona a estigmatização social. Talvez uma forma de ser autêntico. Pode não ter nada de perverso nem exibir nele, alguma forma de erotismo que diminui e instrumentaliza. Será uma ligação, mais profunda, à natureza. O respeito por si e pelo outro. Mais consequente com esta pertença universal que a todos une, de forma muito singela e igualitária. Distingue, menos, deste espaço-tempo, que a todos liga.

Afinal a Caparica é esta terra magnífica, de mistérios e significados a descobrir. Uma natureza privilegiada que, sendo tão bela, integra, seduz, faz ser e ficar melhor. Onde o sagrado se liga ao místico. Ao natural. A Gandaia sabe que há aqui, muitos tesouros a descobrir. A fazer brilhar.

Juro que eu, que digo isto, não sou, (tenho pena), naturista. Muitos há, que o são, da minha idade. Mas gosto muito de pensar, se possível, sem preconceitos. De manter uma mente limpa e expectante. E gosto muito desta terra. Deste mar tão lindo, do céu tão azul, dos pores de Sol únicos. Dos Jovens belos, dos pescadores laboriosos de tez torrada pelo sol e pelo ar marinho. De gente TÃO BOA.

 

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