A Grande Guerra

(Recordações de um combatente)

Era uma tarde amena. O neto e o avô conversa­vam no quintal, sentados a uma mesa de pedra debaixo de uma latada.

O neto comentou que, no Liceu, o professor de História tinha falado sobre a I Grande Guerra, e que ele, com orgulho adolescente, disse que o seu avô tinha combatido nessa guerra, mas que nunca o tinha ouvido falar nada sobre esse assunto em casa.

O avô olhou para o neto, porém o seu olhar divagava, recuara no tempo e tinha-se perdido nas brumas do passado. Ao fim de uns momentos, que pareceram intermináveis para o rapaz, ele falou:

– Na nossa vida há coisas que gostamos de lembrar, mas também há outras que procuramos esquecer ou esconder sob um pesado manto de silêncio.

Sempre considerei essa guerra excessivamente violenta e terrível. Teve um impacto enorme em toda a minha vida, por esse motivo, nunca falei sobre ela.  Quando regres­sei de França, passados muitos anos de permanência lá, limitei-me apenas a comentar as gene­ra­lidades e aguar­dei que o tempo fizesse o seu trabalho, isto é, que deixasse a poeira cobrir os registos dessa guerra lamentável nas prateleiras da história.

Agora, quando dizes que os alunos já estudam nas escolas esse tema, julgo que chegou a hora de te revelar a minha experiência, que calei durante tantos anos.

Começo por te dizer uma banalidade: os homens sempre se odiaram. A ambição, a ignorân­cia, a sede de poder, as diferenças raciais, religiosas e económicas e a perda galopante dos valores morais são os princi­pais elementos geradores de conflitos. É certo que estes hoje estão vestidos com novas roupagens, porém, na sua essência, continuam a ser os mesmos de sempre.

No princípio do século XX, os governantes apelavam ao fervor patriótico dos governados para que estes não se deixassem dominar pelos vizinhos invasores ou para que ajudassem a alargar as fronteiras dos respectivos impérios.  

Pairava sobre a Europa um clima de tensão devido à manifesta cobiça demonstrada pelas grandes potências europeias nos mercados e colónias dos países rivais e também por um certo desejo de vingança da França pela derrota sofrida na guerra Franco-Prussiana.

O assassinato do Arquiduque Francisco Fer­nando de Áustria, em Sarajevo, foi o estopim que acendeu o rasti­lho que deu origem à Grande Guerra.

A Áustria declarou de imediato guerra à Sérvia e a Europa viu os seus países dividirem-se em duas grandes coligações antagónicas que começaram a enfrentar-se em Julho de 1914.

De início todas as nações esperavam tirar grandes proveitos com o conflito, além das alianças que deve­riam ser honradas e de algumas velhas contas a ajustar. De acordo com esses princípios, as populações de cada país, principalmente as mais jovens, prontificaram-se a lutar com alegria e entusiasmo incorporados nos respec­tivos exércitos. O próprio rei da Prússia e imperador da Alemanha, Gui­lherme II, alimentava essa euforia, di­zendo que esta iria ser uma guerra breve, ligeira e alegre.

 Estou aqui a contar-te estas coisas para que fiques com uma ideia superficial de como tudo começou e, acima de tudo, do espírito que animava as pessoas naquela época.

– Avô, posso garantir-lhe que o meu professor falou muito menos do que isso na aula.

– Pensei, com toda a minha ingenuidade, que se eu fosse soldado, fugiria à miséria em que vivia na minha aldeia, pois teria comida e roupa, que eram os meus grandes objectivos. Porém, eu era ainda muito jovem, tinha apenas quinze anos, e não me alistariam no exército. Resolvi, então, arriscar e tentar a minha sorte em França, onde havia uma guerra e lá precisavam de soldados e ninguém iria quer saber da minha idade.

Num dia qualquer de 1916, escondi-me num com­boio, que tinha parado numa estação perto da minha aldeia e que se destinava a Madrid.

Iniciei aí a minha primeira rebelião contra o destino. Na estação ferroviá­ria daquela cidade espanhola procu­rei um comboio que se dirigisse para França, entrei nele e viajei mais uma vez clandestino ao encontro do desco­nhecido. Passei muita fome, mas conheci dois rapazes espanhóis – o Juan e o Jesus – que também viajavam clandestinos e que, tal como eu, procura­vam em França uma vida melhor da que tinham na sua terra. Desse encontro fortuito, baseado nas mesmas necessidades, nasceu uma solidariedade espontânea, com a qual nos ampará­mos mutuamente.

Eu e os meus companheiros espanhóis chegámos a Paris famintos, sem dinheiro e sem sabermos falar a língua. O acaso quis que encontrássemos um espanhol dono de uma taberna que, além de nos matar a fome, deu-nos as indicações de que preci­sá­vamos para nos alistarmos no exército francês.

E assim fizemos! Lembro-me bem como foi indiscrití­vel a alegria que senti quando o comandante daquela tropa me deu uma farda que, além da roupa, tinha um par de botas, algo que era uma novidade para mim, e uma espin­garda. Fomos incorporados os três na mesma companhia.

Digo-te que era autêntica a nossa euforia e a dos outros soldados quando marchávamos pelos campos e atravessávamos as vilas e as aldeias de França.

As populações agitavam bandeiras, lançavam-nos flores que enfiávamos no cano das espingardas, davam-nos cigarros e chocolates, cantavam “Au revoir dans la patrie” e algumas esposas e namora­das acompanhavam os seus companheiros ao lado da coluna durante alguns quilómetros. Era um verdadeiro entusiasmo patriótico.

Os oficiais cavalgavam garbosos à frente. Ostentavam vistosos uniformes com cintilantes capacetes empluma­dos e à cinta levavam pendura­das as suas espadas prate­adas decoradas com cabos de madrepérola. Atrás, a tropa marchava impante pela es­trada lamacenta e sob a chuva constante, apesar de vergada sob o peso da mochila e da arma. Ríamos, fumávamos e encarávamos a proximidade do front com enorme expectativa, como se fôsse­mos para um duelo de cavalheiros na alameda de um parque. Mas não íamos!

Marchávamos alegremente em direcção à fron­teira nordeste da França, para os campos de Verdun. A bata­lha já se desenrolava ali desde os finais de Fevereiro, mas só começámos a ter os primeiros contactos com ela à medida que nos aproximávamos mais do front.

Cruzavam-se connosco, a um ritmo cada vez maior, as viaturas carregadas de feridos graves destinados aos hospitais da retaguarda. De quando em quando, um desses soldados de roupa enlame­ada e rota, fixava-nos com os olhos brilhantes, ver­melhos, alucinados, levan­tava um braço descar­nado apontando o horizonte cruento e gritava: Não vão para lá!

A coluna de viaturas que nos ultrapassava era inter­minável. Cheguei a contar uma média de doze camiões por minuto, dia e noite. Iam carregados de víveres, munições, canhões, soldados e toda a espécie de supri­mentos necessários à continuação dos combates. Se pensares que eu, antes de ir para França, nunca tinha visto um veículo motorizado, pois o meu universo era apenas preenchido com carroças, carros de bois, as fragatas do Tejo e um ou outro comboio, compreendes que tudo o que eu via era novidade e deveras excitante.

A vista que tivemos dos campos de Verdun era deso­ladora e infernal. O chão, revolvido pelo im­pacto dos obuses e granadas, abria-se em crateras de lama san­grenta e as poucas árvores que se mantinham de pé eram espectros de uma visão dantesca com os suplican­tes dedos descarnados erguidos para os céus.

As colunas de fumo acre e espesso, produzidas pelas bombas, pelos gases tóxicos lançados por ambos os exércitos e pela combustão das árvores incendiadas, elevavam-se da terra esven­trada. O som dos rebenta­mentos atroava pelos ares e o cheiro nauseabundo dos corpos putrefactos, das imundícies, da pólvora e do medo criavam uma atmosfera de pesadelo.

Mal chegámos ao campo fomos distribuídos pelas trincheiras. O bombardeio era intenso. Não podes imaginar a sensação de desorientação e repulsa que eu senti quando entrei naquela vala infecta. Tinha cerca de dois metros de profundi­dade por pouco mais de um metro de largura. Uma nuvem de vapores de cloro emanava das crateras criadas pelos obuses e pairava sobre a trincheira. Os olhos ardiam e tínhamos dificul­dade em respirar devido àquele fumo espesso e acre. Gritavam-se ordens que, aparentemente, ninguém ouvia e obedecia. Uns homens corriam pela vala atola­dos na lama, loucos, sem rumo, outros carregavam feridos que berravam de dor, escorregavam, caíam, levantavam-se e praguejavam.

Nós, acabados de chegar, não sabíamos o que fazer e cozíamo-nos às paredes da trincheira, sem pensar, aturdidos, vendo toda aquela loucura, mas impotentes para agir por desconhecermos as regras do caos.

Os mortos caídos na trincheira enterravam-se na lama vermelha, desrespeitados sucessivamente pelos vivos que os pisavam no atropelo do desvario. A noite aproximava-se com o seu manto escuro nos braços abertos a querer esconder as misérias da insanidade, mas logo o céu resplandeceu com o rasto luminoso dos obuses. E de repente fez-se silêncio. Por breves instantes a morte descansou.

Ao fim de algum tempo consegui sair do torpor em que me encontrava e arrastei-me evitando pisar os mortos. Alguém me deu uma pá e fez-me sinal para o acompanhar. Subi a trincheira e na escuri­dão da noite e do medo, cavei. Abri valas que rapi­damente foram atulhadas com os corpos daqueles que tinham lutado pela última vez, carregados por homens embrutecidos pela barbárie, de olhar distante, mortos-vivos. Havia ainda quem tentasse identificar os que eram enterrados, mas apenas numa parte deles era possível a identifica­ção, os outros eram apenas fragmentos de seres huma­nos totalmente destroçados pela mortalha.

Comi uma ração que trazia no bolso do capote e vomitei-a de imediato, fumei e acabei por adorme­cer encostado à parede da trincheira. O troar da artilharia despertou-me de um sono breve.

No crepúsculo da manhã procurei os meus com­pa­nheiros espanhóis. Fui encontrá-los juntos, ainda não refeitos do efeito produzido pela sua brutal entrada na guerra.

Os morteiros alemães, como toque de alvorada, reco­me­çaram a lançar as suas cargas de destruição sobre as nossas trincheiras e estabeleceu-se rapida­mente um certo comando com os oficiais vindos dos abrigos sub­ter­râneos a darem ordens breves e secas para os seus subordinados.

O nosso pelotão era formado por franceses e por alguns estrangeiros que, na sua maior parte, não fala­vam francês. Para que todos entendessem, as ordens foram extremamente simples. Quando ouvíssemos “Ao assalto!”, deveríamos sair da trincheira, tentar chegar às trincheiras dos boches, situadas uma ou duas centenas de metros além das nossas, matar os soldados alemães e conquistar aquela posição.

Depois desta breve lição de combate pude observar a vida na trincheira: os feridos mais ligeiros eram tratados ali mesmo conforme possível e os mais graves saíam dali em macas para serem levados para os hospitais de campanha.

Nas valas os maqueiros cruzavam-se com os bur­ros carregados de munições e víveres que atravan­cavam a trincheira. Alguns soldados empoleira­vam-se no bordo da vala e disparavam em direcção ao campo alemão, sem verem o inimigo.

Experimentei olhar a terra de ninguém e a visão que tive foi a de um horrível vazio. O meu horizonte era limitado pela fileira de pontas de estacas cravadas nas trincheiras alemãs. O chão estava coberto de troncos das árvores decepadas, como estátuas derrubadas dos pe­destais por gigantes loucos e, os montes de terra deslo­cados pelo impacto dos obuses, eram as suas mortalhas.

Nem um pássaro voava naquele espaço e a plenitude da vida tinha cedido lugar às descomu­nais forças da morte. O tempo arrastava-se lento enquanto o bombar­deamento continuava ensur­de­cedor.

De quando em quando um obus caía sobre a trin­cheira ceifando a vida aos soldados que se encon­trassem no local do impacto e ferindo os que esta­vam nas imediações. A nossa artilharia respondia com a mesma intensidade, procurando atingir as fileiras alemãs, com um único objectivo: matar.

Muitos soldados passaram a usar as máscaras de gás devido às nuvens brancas de cloro, altamente tóxicas, que se formavam com a explosão das bom­bas. Pareciam seres fantásticos com grandes foci­nhos e olhos enormes que surgiam de uma atmos­fera fumarenta, irreal. Aquelas máscaras além de serem ineficazes para o efeito a que se destinavam, dificultavam a respiração de quem as usava e eram ainda extremamente incómodas, por­que impediam a visão devido ao embaciamento dos óculos. Nunca as cheguei a usar.

Por volta do meio-dia ouvi gritar “ao assalto!”. O sol da morte brilhava através das nuvens de fumo. A minha vez de lutar tinha chegado. Peguei na espingarda, subi a trincheira e avancei sem hesitar. Talvez tivesse querido encontrar alguma lógica para o absurdo, ou para o imponderável que inevitavel­mente me escapava, mas não tive tempo para isso.

Vi a primeira vaga de soldados avançar para o campo inimigo e ser quase toda dizimada à minha frente. Saltei sobre os seus corpos e mergulhei num buraco de obus. À minha volta outros soldados corriam como loucos. Muitos tombavam na lama sangrenta e os seus gritos de dor ressoavam na minha cabeça muito mais nítidos do que o troar ensurdecedor da artilharia. Já se passaram muitos anos desde esse dia, mas ainda continuo a ver as posições grotescas dos corpos dilacerados daqueles que só conseguiam deixar aquele inferno da única forma possível: morrendo.

Aproveitei o manto de fumo espesso que envolvia a terra de ninguém e corri mais uns metros ten­tando evitar a hipotética bala que me abatesse e lancei-me para dentro de outra cratera. Ainda estava ofegante, quando um soldado caiu em cima de mim. Não queria acreditar no que via: era o meu amigo Juan. Trazia o pavor estam­pado no rosto e balbuciava palavras desco­nexas e incompre­ensíveis, onde surgia amiúde o nome Jesus. Só depois entendi que ele tinha visto morrer o nosso outro companheiro espanhol, ali a dois passos de mim. Nem tive oportunidade de o lamentar.

Vagas sucessivas de homens continuavam a avançar no campo da morte e nós seguimos com eles até alcançarmos a trincheira inimiga. Dispará­mos sobre qualquer soldado que ainda se mexesse, não havia tempo para fazer prisioneiros. As valas estavam repletas de cadáveres e das casamatas invadidas pelos jactos inflamados e mortíferos dos lança-chamas saíam solda­dos com os cabelos e as roupas a arder. Passámos a lutar corpo-a-corpo espetando as longas baionetas nos corpos de rapa­zes imberbes que morriam fitando em nós o seu último olhar incrédulo.

Ao fim da tarde a vitória era nossa à custa da vida de muitos e muitos homens de ambos os lados. Os últimos soldados alemães fugiam ao longe procu­rando refúgio na sua reta­guarda. Nós tínhamos con­quistado aquela posição, mas não sentíamos qualquer contentamento.

Reparei, então, que o descampado parecia não alber­gar a luz do luar efémero. Deixava apenas derramar uma luz íntima, absurdamente calma.

A fadiga, a fome, a sede e o horror impediam-me de pensar, fiquei aturdido, quase louco, mas não podia descansar, ainda tinha trabalho a fazer.

Havia que limpar a trincheira tão duramente con­quistada. Separámos os corpos dos nossos soldados para serem enterrados e os dos alemães para servirem de muralha na borda da vala. Aqueles corpos gelados mortos há muitos dias, de rostos lívidos, de ventres abertos onde os ratos comiam e o cheiro medonho que deles exalava, embrutecia-nos. A morte emanava das covas.

Eu e Juan, procurámos e encontrámos, entre tantos, o corpo de Jesus, em cujo rosto se desenhava um esgar de dor e nos seus olhos vítreos ainda se estampava o horror. Apáticos, nada dissemos. Depois de o enterrar­mos, comemos um bocado de pão escuro.

Ainda hoje fico maravi­lhado em saber que aquela massa de farinha, escura, pesada e gros­seira se trans­forma em sangue, em calor e, talvez, em cora­gem. Fumámos e tentámos dormir, com os pés enter­rados na lama, e encostados um ao outro para nos aquecermos.

Os gritos e os pedidos de ajuda dos feridos que, im­pos­sibi­li­ta­dos de serem atendidos, ouvíamos até mor­rerem, o medo do desco­nhe­cido que a noite traz, a angústia opressora e a chuva gelada, mantive­ram-me desperto, até a madrugada raiar. Mais uma vez olhei a paisagem desolada e hoje, parafraseando Garcia Lorca, vi que a morte passeava pelo campo com o seu absurdo cortejo de ilusões remotas…

O sol despontou, tímido, naquela manhã.

Enquanto eu olhava a paisa­gem, que me parecia surgida das profun­dezas do inferno, tive a oportunidade de ver aviões, pela primeira vez na minha vida. Eram dois. Im­pres­sionou-me saber que andavam homens dentro daquelas má­quinas. Olhava boquiaberto as evoluções rapidíssimas que eles faziam, desenhando elipses, no céu cin­zento, para escapa­rem ao fogo das metralhadoras que ambos disparavam, a tentarem mu­tuamente aniquilar-se. A morte já não cabia na terra e come­çava a espalhar-se também pelos céus, até então, imunes à saga des­truidora do homem.

Mas eu não pensava nisso. Naquele momen­to, deleitava-me a ver máquinas voarem livres como pás­saros, sem nada que as segurasse, até que um dos aviões mer­gulhou, imparável, para o chão e caiu no meio de um estrondo e de uma ex­plosão que o consumiu. Acto contínuo, elevou-se das trinchei­ras alemãs uma ovação imensa que me trouxe de volta à reali­dade. O inimigo tinha abatido um dos nossos aviões. Só nesse momento compreendi que os aviões já não eram o instrumento que li­ber­tava o homem das suas raízes terrestres, mas, sim, o mais mo­der­no e cruel meio de matar.

Como se aguardasse este desfecho, a artilharia reco­meçou o seu concerto de destruição e morte e ambos os lados despejaram toneladas de morteiros e granadas no campo inimigo, sob a for­ma de bolas vermelhas e prateadas que rebentavam e caíam numa chuva multi­co­lorida de estrelas verdes, vermelhas e bran­cas.

As semanas arrasta­ram-se iguais, com avanços e recuos recí­procos e com centenas ou milhares de mortos em cada dia. Recordo-me de ter visto, uma vez, um soldado ser atingido por um pro­jéctil: ficou suspenso, por se­gundos, no tempo e no espaço, recortado contra o último hori­zonte pelo clarão das explosões. Aquele homem, já um espectro, desenhava-se, niti­da­mente, em silhueta, na véspera do seu fim, pro­curando, talvez, o caminho da eternidade. Quero que saibas que, duran­te os combates, eu nunca pensava que poderia ser a pró­xima vítima. Limi­tava-me a disparar a espingarda, enquanto, dentro de mim, se criava um vazio imenso.

As condições na trincheira eram terríveis. Vivíamos como ratos no meio da lama, da imundície e das doen­ças, principal­mente disen­teria, tifo e gripe e infestados de piolhos, pul­gas e percevejos. Sentia-se no ar o cheiro pestilento da morte e, na língua, o vapor da pólvora, enquanto se ouvia, ao longe, o troar dos canhões a rolar num estrondo contínuo de mil vulcões, explodindo, em simultâ­neo, num movimento perpétuo.

Essas armas do horror afadigavam-se na sua tarefa duplamente rubra: primeiro, porque abrasavam os enor­mes e negros canos fumegantes com milhares – que sei eu? – de disparos que se pro­lon­gavam num tempo interminável; depois, porque atingiam os milhares – isso eu sei! – de ocultos e indistintos al­vos que en­char­cavam a terra com o seu sangue rubro.

Não podes imaginar os diferentes sons que se ouviam nas trincheiras além dos disparos das armas! Eram os cavalos, os bur­ros e as mulas que, quando atingidos, gritavam, em completa agonia, a sua dor selvagem e terrível; eram os gemidos e os gri­tos dos soldados que, antes de expirarem, criavam um ruído de fundo assusta­dor; era a tosse constante dos gaseados que escarra­vam durante dias, bocado a bocado, os seus pulmões desfeitos. Nós ficávamos com os nervos em frangalhos.

De quando em quando, um soldado descontrolado abandonava a arma, subia a trincheira e gritava para uma plateia indistinta: “O que querem de mim?”, enquanto acrescentava que ia para casa. Inevitavel­mente, era aba­tido mais à frente pelos inimigos e, algumas vezes, por nós pró­prios, como desertor. Outras vezes, uns solda­dos disparavam completamente isola­dos dentro de um buraco, até que uma granada ou um obus certeiro os libertava do desva­rio e do terror.

Um dia, entre tantos outros, os bo­ches fizeram o seu assalto à nossa trincheira. Centenas de solda­dos cor­riam pelo campo da morte na nossa direcção – eles e nós éramos pior que animais! Não nos pas­sava pela cabeça que íamos morrer – gritávamos, disparávamos, caí­amos, matávamos e morríamos.

 O inferno escancarava-se mais uma vez, num ciclo sem fim, mos­trando os seus horrores e eu, já um vete­rano de guerra, não compreendia o signifi­cado daquele holocausto. Aliás, foi a partir dessa altura que dei­xei de acreditar nos gloriosos feitos de bravura praticados por homens incomuns ou na sua morte com honra, relatados nos livros de história.

As palavras abstractas, como glória, coragem e honra, são obscenas em qualquer palco de guerra e a História, que se tem alimentado delas, não é mais do que uma fraude, um interminável e perplexo sonho das gerações humanas. Esses he­róis são apenas homens com medo ou, simplesmente, alienados. É o medo que nos obriga a demonstrar aquilo que os teóricos cha­mam coragem e esta nada mais é do que o meio-termo entre a temeri­dade e a cobardia. Estou conven­cido de que ser corajoso é enfrentar o perigo inevitável ou evitá-lo, quando for possível. Na guerra nada existe de heróico e cada soldado é apenas um, entre milhares de loucos, a viver a incerteza de cada momento.

 Acreditei que não sobreviria àquele inferno. Verdun não era um lugar dantesco por ser atroz, mas por ser lá que ocorriam factos atrozes.

Disparei contra os soldados que avançavam para a minha trincheira até a espingarda me queimar as mãos e até ouvir um grito ao meu lado: Juan tinha sido atingido, mas estava vivo.

Um pânico repentino apossou-se de mim.

Instintivamente, carre­guei-o às costas e arrastei-me pela vala à procura de alguém que o pudesse socor­rer. Avistei uns maquei­ros, apelei ao que me restava das forças para chegar até eles e foi então que uma granada explodiu atrás de mim. Desse momen­to só me recordo de sentir um impacto terrível e de cair com o corpo de Juan sobre o meu. Depois, foi a incons­ciência profunda.

Acordei deitado numa padiola com a sensação de que todo o meu corpo queimava. Estava num hospital de retaguarda, se tivermos a pretensão de chamar hospital a um palheiro repleto de feridos gemendo no chão coberto de palha sangrenta.

No entanto, eu estava vivo e só pensei que naquele lugar tinha ocorrido o mila­gre da minha ressurreição. Posso dizer, com convicção, que naquele momento senti que tinha escapado do mundo dos mortos.

Enquanto ali estive verifiquei que o ‘hospital’ nada mais era do que um depósito de estropiados, cegos, queima­dos e mutilados, quase todos moribundos.

Os médicos limitavam-se a amputar membros e a atar algumas ligaduras. Não havia medicamentos e quando a gangrena não matava aqueles que sobrevive­ram à metralha, a sede encarregava-se de o fazer depois. Vi homens dilacerados pela sede beberem a própria urina por não haver quem os socorresse.

O rosto lívido da morte espelhava-se nos olhos baços de cada soldado que ali jazia. Tudo o que eu te pudesse falar nunca chegaria perto da realidade porque é impos­sível exprimir o cheiro da carne humana apodrecida, os urros de dor daqueles a quem serravam uma perna ou um braço sem anestesia, o medo e a opressão da morte que pairava sobre nós.

– Avô, todo esse relato é absolutamente horrendo. A guerra é terrível em qualquer tempo e lugar, mas eu penso que essa foi muito pior devido ao grau de violência com que se revestiu. Além disso, nem tento imaginar a angústia, o medo e todo o sofrimento que um rapaz, mais ou menos da minha idade, sentiu ao enfren­tar a vida, sozinho, num mundo tão cruel.

 Gostava que o avô me falasse dos seus ferimentos, da sua recuperação e se o seu amigo sobreviveu. Estou curioso!

– Sim, mas é aqui que reside a parte mais dolorosa da minha história, devido à qual eu resolvi guardar silên­cio. Tem sido um silêncio respeitoso, quase sagrado, de uma gratidão imensa, para não profanar a imagem de um gesto de desprendimento sublime que envolve muitos sentimentos. 

Eu tentava salvar o Juan quando a granada explodiu. No entanto, o destino quis que fosse ele, o meu amigo, que, numa derradeira prova de amizade, oferecendo o seu próprio corpo à metralha, salvasse a minha vida.

Fui atingido por vários estilhaços, mas nenhum deles alcançou órgãos vitais. No ‘hospital’ de campanha reti­raram aqueles que estavam visíveis, mas um deles penetrou por debaixo do braço e alojou-se na base do pulmão e, como não o viram, ainda lá está e de vez em quando incomoda. Perdi também estes dois dedos da mão esquerda, como podes ver, e fiquei com o corpo todo marcado por feias cicatrizes.

Assim que pude mexer-me arrastei-me para fora daquele antro de imundície. Colocaram-me num camião que ia para Paris, onde fui socorrido num hospital.

Passei muitos meses internado lutando pela vida e interca­lan­do os períodos de lucidez com comas febris.

Sobrevivi sem saber como, e foi por isso que eu te disse que ali eu renasci, ou ressuscitei. Foi o acaso, a minha vontade de viver, a sorte aliada à minha juven­tude, os cuidados recebidos, ou o conjunto de tudo isso que me salvou a vida.

Finalmente, os médicos deram-me alta, por já me encontrar recuperado ou, talvez, por necessitarem do leito que eu ocupava, nunca o chegarei a saber.

Sei que saí do hospital numa bonita manhã de sol quando já se falava na capitulação dos alemães.

Vi sofrimento e morte, inimagináveis, na Grande Guerra. Parece que os dirigentes do Mundo queriam ganhar a guerra apresentando cifras enormes de feridos e mortos. A vida de cada soldado apenas servia como dado estatístico quando passasse a pertencer à coluna dos mortos em combate. Por isso os feridos tinham mais utilidade enquanto mortos do que sobreviventes da chacina programada.

Como troféus conquistados restaram-me as cicatrizes espalhadas pelo corpo e uma tosse persistente devida às inalações do gás mostarda que era lançado sem parci­mónia pelos exércitos de ambos os lados. Em apenas dois anos passei de um jovem faminto a um adulto amadurecido pelo sofrimento.

Podes pensar que este relato não justificava um tão grande silêncio, mas a minha participação na Grande Guerra encerra uma dor tão profunda que eu achei que não tinha o direito de a dividir com ninguém. Foste tu, meu neto, o primeiro a ouvi-lo.

Reinaldo Ribeiro

08AGO2021

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