Bei-Nai O Grande Avô

BEI-NAI – O GRANDE AVÔ

 

Esta é uma estória antiga que aconteceu há muitos milhões de anos, durante a separação dos continentes, no tempo em que os animais falavam…

Bei-Nai, o crocodilo, era um animal temível não só para o homem, mas também para todos os animais da ilha tropical onde viviam, pois eram eles que embora receosos, acabavam por saciar o seu apetite devorador.

Deslizava o seu corpo grande, pesado e fusiforme, tão suavemente pelas águas escuras da lagoa que o espelho da água mantinha-se inalterável e reflectia com nitidez a imagem das árvores da floresta densa que a bordejava.

Somente os seus olhos, grandes e cansados, sobressaíam à superfície e abria-os e fechava-os com uma certa regularidade.

Tentava, debalde, apanhar alguma ave aquática que, atraída pelo seu piscar de olhos, se aproximasse o suficiente para que as suas mandíbulas fortes, armadas de dentes enormes e pontiagudos, a agarrassem em pleno voo. Mas essa estratégia parecia não estar a resultar, porque há vários dias que não apanhava nenhuma.

Com os peixes o sucesso não era maior, pois aqueles que lhe podiam servir de refeição, esgueiravam-se rapidamente antes que ele os abocanhasse. Já lhe faltava a agilidade no corpo velho e cansado.

Ainda ontem, depois do banho de sol na relva verde da margem, a fome que lhe roía as entranhas, levou-o a mergulhar nas águas tépidas na esperança de conseguir um bom almoço.

E o banquete subitamente apareceu. Era uma tartaruga de bom tamanho, de aspecto saboroso, e como vinha tão distraída a brincar com o seu parceiro, ser-lhe-ia fácil apanhá-la. Manteve-se imóvel, muito atento e esperançoso, à espera que ela viesse directamente parar à sua boca faminta e escancarada. Mas a sua boa estrela certamente estava a apagar-se, porque a tartaruga macho que a acompanhava e sulcava velozmente as águas, desviou-se para a direita e a fêmea nadou ao seu encontro, escapando por pouco de lhe servir de repasto.

Agora convencera-se que na água nunca mais arranjaria alimento e decidira-se a procurar o seu sustento em terra seca. Era bem possível que um cão, um porco ou uma galinha viessem saciar-lhe a fome que o atormentava.

Andou e andou pelos caminhos poeirentos na busca infrutífera de encontrar algo que lhe matasse a fome, até que, frustrado e sequioso, resolveu regressar. O caminho de volta era longo e o sol impiedoso abrasava-lhe o dorso escamoso. Esgotado, Bei-Nai, sentiu que as forças lhe faltavam devido não só à longa caminhada, mas também devido ao estado de fraqueza em que se encontrava. Pensou que iria morrer ali, duro como uma pedra na poeira do caminho.

Apelou às suas últimas forças e arrastou-se para a sombra de uma árvore frondosa disposto a esperar pela morte que o libertaria dos seus sofrimentos.

As horas que ali ficou passaram lentas e longas e na sua cabeça as ideias já não tinham sequência, parecia que o seu espírito queria libertar-se de si e deixar-lhe o corpo velho apodrecer ali sozinho.

Quis o acaso que passasse ali um rapaz, que se condoeu ao ver o crocodilo agonizante e rapidamente o ajudou a arrastar-se até uma ribeira próxima. A água reanimou-o, mas a galinha que o rapaz lhe deu para comer, deu-lhe uma nova vida.

Grato, Bei-Nai ofereceu-se para, a partir daquele dia, transportá-lo sobre o dorso pelas águas dos rios e mares que ele desejasse.

E assim aconteceu. O rapaz ajudava-o a apanhar os alimentos de que ele necessitava e em contrapartida Bei-Nai levava-o pelos cursos de água que cruzavam a ilha, ora atravessando a floresta densa, ora navegando nos rios que serpenteiam pelos prados verdejantes.

Certa vez, o rapaz ausentou-se durante alguns dias e Bei-Nai ficou entregue à sua sorte. A sua incapacidade para caçar tinha aumentado. Nem os cães, nem os porcos e nem as aves aquáticas ele conseguia já apanhar. Por isso voltou a sentir as dores da fome que o consumia.

Veio-lhe então à cabeça um pensamento desesperado: quando o rapaz chegasse iria comê-lo e mitigar assim aquela fome atroz.

Acontece que ele já nutria uma certa amizade por aquele rapaz tão dedicado e para aliviar a sua consciência, pesada por ter tido um pensamento tão reles, sentiu-se na necessidade de saber a opinião dos outros animais da floresta sobre o que pretendia fazer.

Todos, desde o macaco ao papagaio, passando pela serpente e pelo tigre, lhe disseram que essa era uma atitude profundamente ingrata e que se ele levasse a cabo tal ideia seria escorraçado da floresta, por todos eles.

Receoso pelo que lhe pudesse acontecer, Bei-Nai, nem sequer tocou no assunto quando o rapaz voltou.

Pelo contrário, contou-lhe que tivera um sonho onde vira um disco de ouro igual ao sol, numa ilha distante para os lados do sol nascente e que se ele nadasse nessa direcção iria encontrá-lo certamente.

Convidou então o rapaz a acompanhá-lo na aventura da descoberta do disco de ouro. Este prontamente concordou e saltando-lhe para as costas, fizeram-se ao mar naquela manhã radiosa, quando o sol despontava já, lá ao longe, sobre a linha do horizonte.

Nadaram, nadaram tanto que o sol passou sobre eles até desaparecer lá atrás. A noite chegou e o céu escuro encheu-se de estrelas brilhantes e eles resolveram parar para descansar e para esperar pela nova aurora.

À primeira claridade do dia voltaram a nadar em direcção ao círculo de luz que surgia sobre as águas do oceano.

Muitas vezes viram o céu azul tornar-se escuro e o sol dourado ser substituído pela lua meiga.

Um dia, quando o sol do meio-dia incidia a pino sobre eles, Bei-Nai disse ao seu amigo que estava esgotado e que achava melhor voltar para trás, para a ilha de onde tinham saído.

O rapaz compreendeu o cansaço do crocodilo, mas decidido a achar o disco de ouro, disse-lhe que tentassem mais um pouco até ao anoitecer, se não descobrissem a ilha do seu sonho, regressariam então.

Bei-Nai juntou todas as forças que lhe restavam e recomeçou a nadar. De repente sentiu que o corpo se imobilizava e se transformava rapidamente em pedra e terra, crescendo, crescendo, até atingir as dimensões de uma ilha.

Ainda teve tempo de sentir os passos do rapaz sobre o seu dorso, antes de ficar totalmente petrificado.

Conta a lenda que o rapaz, de pé sobre a ilha, rodeou-a com o olhar e chamou-a de Timor que, em língua malaia, significa Oriente e por ser ali, junto à ilha, que o sol nascia.

O seu corpo transformou-se também, como por encanto, de rapaz em homem e ele foi o primeiro homem a pisar o solo timorense.

No seu peito pendia-lhe agora um disco de ouro, resplandecente como o sol, e exactamente igual ao que Bei-Nai vira no seu sonho.

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