GANDAIA – A LUTA PELA CULTURA

A primeira referência à Costa de Caparica recua ao século XV, quando ali foi construída uma fortificação – o Baluarte da Caparica – inserida no sistema de defesa e vigilância de Lisboa. Foi constituído depois um morgadio, nas terras circundantes ao Baluarte.

Embora os núcleos populacionais da Trafaria, Murfacém, Pêra fossem ganhando uma modesta dimensão, a Costa e os seus areais continuavam desabitados e só eram ocupados por algumas cabanas de junco erguidas por pescadores que, ora vindos de Ílhavo ora vindos do Algarve, ali permaneciam durante a temporada da pesca.

Foi só após o terramoto de 1755 que os pescadores começaram a fixar-se de forma definitiva no Lugar da Costa.

Lentamente, muito lentamente, as barracas foram-se erguendo numa duna da Costa. As do lado Norte pertenciam aos pescadores de Ílhavo e à sua frente, ou seja, no lado Sul, construíram-se as barracas dos pescadores algarvios. O espaço entre elas viria a ser a primeira rua do futuro povoado, ainda hoje conhecida como Rua dos Pescadores.

Na passagem do século XIX para o século XX, a vista que se tinha da Costa, a partir dos Capuchos era esta: barracas de colmo, junco, a igreja e o cemitério.

Com o advento dos prazeres do mar e do sol, usufruídos pelas camadas mais abastadas das populações da grande Lisboa, surgiu o interesse pelos areais e pelo mar da Caparica como estância balnear, embora a pesca continuasse a ser a sua principal actividade.

Com a construção de um hotel, na década de 1930, a Caparica passou a incorporar o selecto grupo das povoações turísticas portuguesas do litoral.

A povoação teve a partir de então um desenvolvimento mais expressivo. Gente de origens variadas, mas principalmente oriunda das antigas colónias portuguesas de África e do Brasil, elegeu a Caparica como a sua nova terra e a sua população cresceu e diversificaram-se as actividades, a ponto de, em 1986, ter sido elevada à categoria de vila.

Devido ao aumento da qualidade de vida dos portugueses, e com a divulgação no estrangeiro da qualidade das praias da Costa da Caparica, os turistas começaram a chegar em número sempre crescente e, nas décadas de 1980 e 1990, a Caparica já era um atraente destino turístico, nacional e internacional.

Tão acentuado foi o crescimento populacional e urbanístico, que a Caparica foi elevada à categoria de cidade, apenas dezoito anos depois de ter sido considerada vila.

Porém, o campo cultural não acompanhou o progresso da nova cidade. Raras e dispersas eram as actividades de cariz cultural existentes na Caparica. Em tempos houve quatro cinemas, há muito desactivados, e uma pequena livraria num dos espaços do Centro Comercial O Pescador.

Procurando inverter esta situação de abandono em que se encontrava a cultura na cidade, três moradores – Joaquim Tomás, Ricardo Salomão e Pedro Gamboa – fundam, em 2012, juntamente com um pequeno grupo de homens e mulheres imbuídos do mesmo ideal, a Associação Gandaia. Esta, segundo as suas próprias palavras, “é uma Associação de pessoas que aposta na construção de uma realidade comunitária litoral, da Trafaria à Lagoa de Albufeira, que integra as pessoas, as suas interacções e as delas com o território e o ambiente. Mas que integra também os seus sonhos, a sua imaginação. Para nós, é isso a cultura”.

Animados por essa vontade, quase messiânica, de levar a cultura à população da Costa da Caparica, esse grupo de pioneiros/activistas da Associação, inicia um leque variado de actividades que se enumeram a seguir:

– Recuperação de um cinema abandonado. Construção de um palco e transformando o novo espaço no actual Auditório Costa da Caparica.

– Criação de um grupo de Teatro amador que vem apresentando, a um ritmo crescente, várias peças, que têm tido participação na ‘Mostra de Teatro de Almada’.

– Promoção de eventos como o ‘Festival de Fado – Ercília Costa’ e o ‘Festival de Jazz’ com uma periodicidade anual, bem como a actuação de cantores e grupos musicais no Auditório.

– Os mais jovens não são esquecidos e os espectáculos para crianças sucedem-se, geral­mente nas manhãs de domingo.

– Surge um ‘Cineclube’, com uma programação cuidada de filmes de qualidade, inseridos em vários ciclos de cinema e com apresentações semanais.

– O canto coral também é contemplado com a criação do ‘Coro Gandaia’ que, além das apresentações no Auditório, tem tido actuações em todo o concelho.

– O incentivo à leitura é feito mensalmente com a participação de um autor, que apresenta a sua obra (ou obras) com debate participado, numa valência, a que a Associação chamou ‘LAL’ (Livros, Autores e Leitores).

– A poesia também está presente uma vez por mês, com a apresentação biográfica e comentários dos poemas de um autor seleccionado. Os participantes na ‘Tertúlia Poética da Gandaia’ também colaboram com a leitura de poemas de sua autoria.

– Procurando motivar a participação da população na discussão dos vários temas de interesse global, a Associação Gandaia promove mensalmente debates, num evento a que chamou ‘Res Publica’.

– Neste afã cultural, e querendo democratizar o conhecimento, também surgiu, naturalmente, uma Universidade – ‘Universidade Popular’ – que, além de leccionar cursos variados promove ainda conferências com os mais reputados especialistas do país.

– Com a cedência graciosa das instalações de uma antiga clínica médica foi criada uma ‘Biblioteca Popular’ com a doação de milhares de livros que podem ser lidos ou cedidos aos leitores. Também foram colocadas doze estantes com livros, em pontos da cidade, como a Junta de Freguesia, o Centro Médico, a Clínica Médica Santa Mafalda, o Centro Comercial O Pescador, etc., que podem ser levados pela população em geral, sem a obrigatoriedade de devolução, e podendo ser trocados.

– Com o voluntarismo que a caracteriza, a Associação Gandaia, publica o jornal Notícias da Gandaia – o único em papel no concelho de Almada.

– Com o intuito de promover o gosto pela escrita entre os seus associados, e para divulgar as suas obras literárias, surgem as Edições Gandaia, que conta já com dezassete títulos publicados.

– Outras actividades têm sido promovidas, com o intuito de alegrar a vida dos cidadãos da Costa de Caparica, como: caminhadas; espectáculos de rua; participação em eventos como ‘O Sol da Caparica’ ou ‘Campeonato de Surf’, com a instalação de stands da Associação.

Toda esta actividade da Associação Gandaia, tem sido um esforço constante da abnegação e generosa dedicação dos seus dirigentes, que nem sempre tem sido correspondido com a participação popular que se desejava.

No entanto, a luta pela cultura vai continuar, enquanto ondular a flâmula da Associação Gandaia nos céus da Costa de Caparica.

 

Reinaldo Ribeiro

 

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