Uma Carta Improvável

Meu jovem amigo, antes de te falar sobre o assunto que pretendo, quero que estejas ciente de que, desde sempre, houve o que se chama de conflito de gerações.

As gerações mais antigas consideram que as mais novas são irreverentes e que nunca serão como a juventude de antigamente. Por seu lado, estas julgam as gerações anteriores retrógra­das, atrasadas, no entanto, sabem, talvez de forma inconsciente, ser essa irreverência a dinâmica que tem feito a humanidade desenvolver-se e progredir.

Como pertenço à ‘geração antiga’ tenho o coração dividido entre os valores em que vivi e a esperança no que as mais novas possam trazer para a humanidade, embora me sinta, por vezes, um pouco descrente. Sei que a mutação dos dispositivos culturais deixa a experiência dos mais velhos mais rapidamente caduca, no entanto, acredito que os jovens, como tu, que caminham abertamente na senda do progresso, mas que não desprezam o passado e que têm coragem de assentar os seus passos firmes sobre os trilhos antigos, serão a esperança e o depósito do conhecimento no futuro.

Até há bem poucas décadas, as gerações mais novas, talvez induzidas por leituras ou pela observação das experiências passadas alimentavam-se com ideais que julgavam ser necessários para o bem-estar comum, sempre com o objectivo de buscar a liberdade e a igualdade para todos os homens. Procuravam a mudança, mesmo que esse desejo estivesse localizado no patamar inalcançável da utopia. No entanto, era um movimento tão poderoso, como uma onda avassaladora, que chegava a quase todas as mentes e sem contar com os meios de difusão que existem hoje.

Em meados do século passado (durante a minha adolescência) os jovens franceses manifestaram-se para exigir a mudança no seu sistema de ensino. Esse movimento tomou as proporções de uma revolta e teve como consequência a modificação do mundo que, a partir daí, nunca mais foi o que tinha sido até então. Uma das muitas palavras de ordem gritadas, na época, pelas ruas de Paris era: ‘Sejam realistas, exijam o impossível!’. Aquele foi um movimento idealista e não ideológico, no entanto, este slogan, que pode ser considerado como uma provocação daquela juventude, já tinha sido avançado anteriormente por Bakunin, um dos pais do anarquismo, quando este proclamava: ‘É na luta pelo impossível que o homem conquista o possível’.

Digo-te isto para que para que tenhas a noção de que os jovens são o motor da mudança, mas não podem esquecer-se daquilo que outros jovens, no passado, pensaram ou lutaram.

Penso que é sempre necessário algo que movimente ou estimule a imaginação das pessoas (e algumas vezes até que a aliene), pois sem um ideal as massas tornam-se amorfas e altamente manobráveis. É preciso que haja um cimento que as una e que as faça lutar por uma causa comum.

Noto que se criou na mentalidade actual uma espécie de adoração pelo ego, a que muitos chamam de individualismo, mas que eu, habituado como estou a valorizar a etimologia, chamo de egoísmo. Nessa minha observação tenho reparado, com excessiva frequência, que há uma necessidade evidente das pessoas procurarem serem diferentes, de serem as primeiras em tudo (como se a vida fosse uma competição e a humanidade fosse composta de adversários, ou pior, de inimigos), de serem únicas, de se elevarem acima dos restantes. O outro, segundo o pensamento actual, é indesejável, toda a relação é um mal-entendido. É preciso a todo o custo preservar a autonomia do sujeito e, parece-me que estamos condenados à solidão, ou antes, que precisamos de cultivá-la.

Esta manifestação de individualismo exacerbado que enaltece o eu e despreza o humanitarismo e a solidariedade é, parece-me, um erro singular, um engano, qualquer coisa que não deveria existir e que é o adubo propício para a germinação da inveja e do ódio.

Reconheço que a culpa não pode ser apontada aos jovens actuais, mas sim aos seus pais, ou seja, à geração anterior. Esta, porque cresceu no período depois da II Guerra Mundial quando havia enormes carências, quis dar aos filhos tudo aquilo que nunca teve, esquecendo-se de lhes exigir o respeito e a responsabili­dade e assim, inadvertidamente, incutiu-lhes o egoísmo. O progresso da civilização fez a parte restante: abandonou a juventude transformando-a em consumidores de bens.

Como estamos hoje distantes, em termos civilizacionais, dos San – um povo primitivo de África – cuja primeira palavra que os pais ensinam os seus filhos a dizer é «Toma» e a segunda é «Dá» fomentando neles desde tenra idade o conceito da partilha essencial?

 A partilha pressupõe a existência do colectivo, o oposto exacto deste individualismo em expansão. Eu considero mesmo ser necessária e urgente uma revolução e não consigo pensar em mais nada para reverter este estado de coisas, a não ser um regresso ao colectivismo ancestral. Naturalmente, que é preciso o idealismo para levar as pessoas a movimentarem-se em direcção a um objectivo comum, mas primeiro o homem deve desembaraçar-se da procura do inútil, ou seja, de posses, honras, riquezas, reputação, poder, e concentrar-se na procura do útil: da igualdade, rectidão, liberdade, justiça, autonomia. Como facilmente podes ver, não é uma tarefa fácil, mas tem de ser alcançada.

Por fim, quero dizer-te ainda que sou por natureza instintivamente revolucio­nário e que qualquer emancipador me atrai, pelo que, conhecendo-te desde criança, sei que poderás ser tu um agente dessa mudança, pois existe em ti toda a formação moral necessária e o desejo de um mundo mais justo, menos desigual e moderno.

Reinaldo Ribeiro

22JAN2020

Notícias da Gandaia

Jornal da Associação Gandaia

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