Esperando Pelo Pai

À Susana, minha filha

Era Agosto e o tempo do cacimbo em Angola terminava, lentamente.

Sopravam pela cidade os ventos da violência e da incerteza, com todo o seu cortejo de horrores.

O desvario era geral. Todos procuravam a sobrevivência que lhes parecia escapar sorrateira pelas ruas cada vez mais vazias, provocando ondas constantes de desespero.

Alguns meses antes, ele tinha sido forçado a enviar o seu único filho, com apenas quatro anos, sozinho, para junto de uns familiares em Lisboa, para o proteger da insensatez da guerra em curso.

A sua mulher, grávida, mais tarde também seguira o filho, devido à ausência total de assistência médica que lhe pudesse valer no momento do parto, daquela criança que ele tanto desejou que viesse ao mundo com o nascimento de uma nação livre.

Ele, teimosamente, ficou. A esperança de que tudo iria melhorar com a sonhada independência, e de que Angola voltaria a trilhar os caminhos da paz e do progresso, mantinha-se viva no seu íntimo. Era ali, naquela terra de horizontes sem fim e de belos entardeceres, que ele gostaria que a sua família vivesse.

Porém, a realidade ultrapassa frequentemente o sonho, e as condições de vida deterioraram-se mais rapidamente do que o fogo das queimadas no capim seco das extensas savanas.

Foi, pois, com o coração destroçado e, com relutância, que também decidiu abandonar a terra que amava, sentindo que era naquele chão de terra vermelha que estavam as suas raízes ancestrais. O seu sonho de viver em África tinha-se esboroado como a areia fina das belas praias de coqueirais entre os dedos da mão.

Ele sabia que o período de gravidez da sua mulher se aproximava do fim e que o parto estava iminente. Passou a desejar com ansiedade o reencontro familiar para poder estar presente quando a criança nascesse.

Enquanto procurava um meio de sair de Angola, os dias passavam, lenta e dolorosamente, numa angústia constante em meio à fome e ao medo. Valia-lhe a solidariedade dos amigos, todos eles enfrentando igualmente os mesmos infortú­nios, para lhe suavizar um pouco o sofrimento. Nada sabia da sua família em Portugal e desconhecia se já tinha voltado a ser pai.

Após várias tentativas frustradas para conseguir uma passagem de avião – que se arrastaram durante penosos vinte e quatro dias -, ele embarcou finalmente para Lisboa. Lembra-se, então, de ter olhado mais uma vez as luzes da cidade onde foi feliz, que se diluíam na escuridão profunda da noite de Angola, mas o nó que se formou na sua garganta impediu que as lágrimas lhe caíssem livremente dos olhos.

Afinal, faltavam apenas nove horas de viagem para ele chegar a Portugal e poder estar com a sua mulher e o seu filho ou, talvez, com mais um filho.

O reencontro foi emotivo. Há meses que não se abraçavam nem beijavam. Ao ver a barriga ainda arredondada da sua mulher, ele sentiu-se aliviado, como se agradecesse uma prece. A alegria do seu filho era indiscritível, segurava-lhe na mão, agarrava-se às suas pernas, pedia-lhe que o erguesse para o abraçar no pescoço. Era um menino feliz.

 Ele tinha chegado a tempo do parto. Aquela criança que ia nascer seria a sua ligação mais profunda a Angola – o seu sonho interrompido – e o fruto de uma semente germinada naquela terra avermelhada.

Por um desígnio que sempre lhe escapou, logo na manhã do dia seguinte à sua chegada a sua mulher sentiu as contracções para o parto e foi para o hospital. Os médicos convidaram o futuro pai a assistir ao nascimento e ele aceitou. Mas, estava de tal modo emocionado ou, talvez, fisicamente debilitado, que desmaiou ao entrar na sala antes do parto ocorrer. Quando voltou a si, os médicos e enfermeiros deram-lhe os parabéns e disseram-lhe que tudo correra bem e que era uma menina.

  Naquele dia 29 de Agosto de 1975, nasceu a Susana, a sua filha que, ainda no ventre materno, sabia que iria esperar que o seu pai chegasse de uma longa viagem.

Reinaldo Ribeiro

29AGO2020

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